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Menina, quanto tempo, tinha te prometido falar do conserto do meu carro e do acesso à informação, mas o Brasil me obriga a militar. Essa pseudoelite brasileira que coloca a culpa da contaminação de Covid na cozinheira, a que faz festinha em Trancoso, a que vai pra Tulum e Maldivas, e, a pior, a que faz lobby para que as vacinas sejam vendidas por empresas. Eles não querem vacinar o vendedor, não é uma boa ação do Véio da Havan e não tem desculpa que faça a gente acreditar nesse golpe.

Mas o golpe tá aí, cai quem quer. Eles querem privatizar pelo lucro, porque esse é o objetivo das empresas, eles não querem beneficiar o trabalhador, pois eles podiam ter destinando recurso emergencial que garantisse a sobrevivência das pessoas e famílias.

Nessa pandemia estamos anestesiados diante dos recordes de mortes e da quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade e fome. É tão melhor romantizar a garra do menino que sobe na árvore para fazer a lição, do que fazermos críticas à destinação e execução do orçamento. Tipo a gente falando de uma nova lei de universalização de bibliotecas escolares.

Tivemos essa semana as primeiras mortes entre bibliotecários e isso deixa todos nós sobressaltados. Mas a gente esqueceu durante todo esse tempo de que a Dona Maria e o Wellignton, que são terceirizados, tiveram que ir trabalhar todos os dias mesmo com a biblioteca fechada.

Esquecemos da galera que limpa nossas mesas, lava nossos banheiros e o nosso chão. Eles não catalogam, não indexam e não estão inseridos no ciclo informacional, mas estão lá diariamente encarando o transporte público. Aí quando tocam em algo que pode impactar a área a gente vira um leão, defendendo nosso território.

Quando uma pseudoelite disse que a pobre não lia, a gente já inflou o peito e disse com base no nosso coração de bibliotecário que pobre lê sim. Talvez você nem se lembre da época que andávamos de ônibus e não éramos os únicos a puxar o livro para ler na longa distância que separava o centro da nossa casa. Eu lembro dessa minha época. Lembro de ver e até fotografar uma estudante de biblioteconomia se equilibrando pra ler Grogan no metrô.

Pois é, depois de formado, bem empregado ou concursado a gente esquece. A gente se acha elite também, e acha que está no lugar de discutir essas questões. Pra mim é um pouco hipócrita, confesso (assim como eu acho como a gente se porta diante das bibliotecas escolares, a maioria de nós não quer trabalhar lá).

A gente foca na questão e esquece da estrutura. A estrutura que fez com que pobres não lessem foram faltas históricas. Faltas de políticas públicas de incentivo à leitura e de apoio a produtores e divulgadores de obras. Faltam políticas destinadas ao setor cultural do livro que incentivem a permanência de editores, autores, distribuidores e livreiros.

Quando a gente achou que ia, veio um movimento mundial de Amazonização dos livros. Fecharam várias livrarias e editoras pequenas nesse processo de capitalismo predatório. Aí querem botar a conta para os pobres pagarem, ao invés de taxas as grandes fortunas. A alegria do capitalista é o desespero do pobre.

Não podemos esquecer o contexto em que estamos inseridos. Quem já foi no mercado viu o preço do arroz, do óleo, do tomate, do gás e da carne. Quem tem dinheiro pra investir em livros tá muito bem. Nessa estrutura feita pra moer pobre, este não tem escolha a não ser a sobrevivência. Nessa a galera corre pra consumir livros em PDF. Nem o pay per view da Globo tá conseguindo enfrentar os grupos do Telegram do Big Brother.

A galera que consome esse conteúdo, que me inclui, diga-se de passagem, está escolhendo consumir o conteúdo gratuito do Telegram e do Twitter ao invés de comprar o flopado da Globo. Por causa disso a emissora precisou fazer programa na grade aberta e criar conteúdo na rede e está mobilizada para suspender todo canal que disponibilize vídeos. Esse exemplo do BBB é só pra demonstrar que as pessoas consomem conteúdo fora da via oficial. Coisas que já sabemos e reconhecemos, mas a falsa elite finge que não existe.

Não quero me alongar, mas só lembro que toda biblioteca tem um revendedor de Avon e toda pessoa que folheia essa revista sabe que ela vende livros. Os mais vendidos certamente são os religiosos. Mas a cada revista a Avon insere mais títulos e mais diversidade. Vende livros espíritas, católicos, evangélicos e infantis.

A revista da Avon está em qualquer lugar do país, mesmo que não tenha biblioteca, banca de revista ou livraria. Essa revista faz muito pelo acesso à leitura que não sei se foi reconhecida à contento. Ela faz pelo lucro, mas é bom que escolha ter lucros pelo livro. Avon, contrata uma bibliotecária!

A infelicidade desses argumentos equivocados sobre tributação dos livros e a pseudoinformação que pobres não leem é que não tem pesquisador nos pontos de ônibus vendo as empregadas domésticas comentando 50 tons de cinza. Os dados são simplificações que não refletem a estrutura na qual estamos imersos e muito menos a realidade. São uma fotografia que depende muito da história contada pelo fotógrafo.

Nós bibliotecários precisamos avançar nesse jogo, sair dessa fase e construir contranarrativas que subsidiem gestores e políticos a tomar outras decisões na área do livro, leitura e bibliotecas. Nesse contexto de pandemia, seria interessante criarmos discussões de informação em saúde para cada nível decisório, até mesmo da família que precise da assistência social para fazer um enterro. Precisamos todos sair da superficialidade, do surf da informação e nos tornarmos todos pesquisadores e construtores de informação.

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