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A cena acontece no filme “Histórias Cruzadas”.  Nele, a personagem Minny, interpretada por Octavia Spencer, prepara uma torta de chocolate com um ingrediente especial para a patroa.  Minny havia sido demitida por usar o banheiro social e não o que era reservado para as empregadas. Embora o grande momento de redenção da história de opressão narrada no filme seja a publicação de um livro com memórias das empregadas domésticas, é a torta especial de chocolate e fezes, presentada por Minny a patroa, que se tornou icônica como um tipo de vingança do oprimido. 

Nesta semana, ao participar de uma live com a atriz Regina Casé, Daniel Cady, marido da cantora Ivete Sangalo afirmou que a cozinheira que trabalha para eles transmitiu covid-19 para a família. Em seguida, após receber uma situada por comentários nas redes sociais, Cady fez o já tradicional pedido de desculpas, primeiro para Regina Casé – envolvida no caso, depois para a cozinheira “uma pessoa muito querida” – faltou dizer o “quase da família”, e que, segundo ele, “já estão cancelando ela no seu bairro em que ela mora.”, por sua “falha na comunicação” e que se desculpa “as pessoas que de alguma forma tenham sentido ofendidas”.

Interessante que pela narrativa de Cady, apresentada no vídeo, a cozinheira informou que estava com os sintomas da Covid-19 depois de passar uma semana na casa de Ivete Sangalo e retornar para casa.  Qual evidência ele teria para afirmar que a cozinheira os contaminou, e não o contrário, a cozinheira tenha se contaminado no local de trabalho?

Umas das primeiras vítimas da Covid-19 no Rio de Janeiro, uma empregada doméstica de 63 anos, era moradora de Miguel Pereira, trabalhou por vinte ano no Alto Leblon.  A patroa testou positivo ao retornar de uma viagem para a Itália, a empregada doméstica, após contato com a patroa, adoeceu e faleceu.  Na ocasião, os nomes dos patrões foram preservados para, ora, não receberem represálias.  Patrões com Covid podem exigir que empregadas domésticas continuem indo ao trabalho?

Daniel Cady foi entrevistado por Regina Casé. Imagem: reprodução

Não seria absurdo pensar que no imaginário adoecido de muitos brasileiros, pobres contaminam, e os ricos são contaminados. De Xuxa – que defendeu o uso de presidiários como cobaias, passando por Paulo Guedes, que considerou que algo está fora do lugar se empregadas domésticas conseguem viajar para Disney, passando por Daniel Cady (que entendeu que a cozinheira foi a responsável pela transmissão da covid), outros exemplos não faltam, os ricos brasileiros não sentem pudor em culpar os pobres por serem pobres e acusá-los por diversos males, por perturbar a paz da sala de jantar, dos aviões e do elevador social.

Que falem menos, que não estudem, que não comprem livros, que não façam viagens internacionais, que sirvam como cobaias, que aprendam a não omitir opiniões, que aprendam a não exalar seus próprios cheiros. É um projeto ideológico tão eficaz que encontra um eco triste e patético até mesmo no comportamento de muitos pobres, que se colocam sempre disponíveis para defender os privilégios dos ricos, segundo Cady, os moradores do bairro da cozinheira a hostilizaram após a sua acusação.

Uma das notícias mais tristes que li recentemente, além do processo sistemático de descarte da população promovido pelo governo, foi a morte de um porteiro após receber de um motoboy sete golpes na cabeça com um guidão de bicicleta. O motivo foi o motoboy ter se perdido dentro de um prédio na Barra da Tijuca e tentado sair pela portaria social. Os dois discutiram, o porteiro buscou a barra de ferro na guarita, que acaba sendo utilizada contra ele.

Uma lei de 2003, do município do Rio de Janeiro, estabelece que é vedada qualquer forma de discriminação em virtude de raça, sexo, cor, origem, condição social, idade, porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores.  A existência da lei já evidencia uma das características constrangedoras da nossa sociedade. O porteiro faleceu, após ficar uns dias internado, o motoboy foi indiciado por homicídio doloso, e enquanto isso as políticas, regras e práticas de discriminação social e os pedidos frívolos de desculpas permanecem intactos.

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