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Em live recente com a atriz Regina Casé, o nutricionista Daniel Cady, notabilizado por ser casado com a cantora Ivete Sangalo, fez uma declaração controversa ao afirmar que a família e ele, apesar de isolados, se contaminaram com o novo coronavírus devido ao trânsito da cozinheira em suas folgas. O comentário gerou polêmica nas redes sociais ao demonstrar a insensibilidade do mesmo, ao subentender críticas à folga da cozinheira e também usufruir dos serviços da profissional em meio à pandemia, quando muitas autoridades de saúde pregam o distanciamento. Não menos intrigante, foi o fato da fala se destinar à atriz que tem se destacado ao interpretar empregadas domésticas como a Val de “Que horas elas volta?”

A obra de Anna Muylaert (coproduzido pela África Filmes e pela Globo Filmes) é um filme brasileiro necessário. O cinema nacional sempre foi prodigioso em retratar o panorama social do país, mas muitas vezes em cenários que pareciam longínquos ou inatingíveis para o espectador médio, como os morros cariocas ou os rincões nordestinos. A diretora, no entanto, optou por retratar uma realidade pra lá de prosaica, mas nem por isso esvaziada de complexidade, capaz de falar sobremaneira acerca do Brasil: a relação patrões–empregadas domésticas.

Val, brilhantemente interpretada por Regina Casé, é a empregada devotada do casal José Carlos (Lourenço Mutarelli) e Bárbara (Karine Telles), integrantes da classe média alta paulistana. Dividida entre o estoicismo do patrão e a superficialidade da patroa, Val criou Fabinho (Michel Joelsas), filho do casal, enquanto sua própria filha crescia no Recife sob os cuidados de uma parente. Até que Jéssica (Camila Márdila, soberba) resolve vir para São Paulo prestar vestibular para Arquitetura na USP. De início, a garota é simpaticamente acolhida na mansão do Morumbi, até que passa a questionar a opção da mãe em morar na residência dos patrões e outras situações de submissão.

A chegada de Jéssica, longe do estereótipo do nordestino subserviente e ingênuo, causa uma reviravolta na vida de Val. À medida que o comportamento da garota autoconfiante e perspicaz vai se revelando, aumenta o estranhamento dos patrões de sua mãe, despertando atração sexual em José Carlos e revelando os preconceitos sociais de Bárbara. A cena basilar se dá quando Bárbara manda esvaziar a piscina quando Jéssica é atirada na água por Fabinho. Tudo, naturalmente, de forma bastante sutil, sob a máscara da cordialidade. Val começa a perceber o verdadeiro papel que ocupa no seio daquela casa: nada mais do que uma empregada doméstica, em seu quartinho sufocante ao final do corredor, tendo sacrificado a relação com a filha, sendo coadjuvante da própria vida.

Dentre as virtudes cinematográficas do filme, para além das interpretações, destacam-se os enquadramentos distantes em ângulos pouco confortáveis, capazes de denotar a vida compartimentalizada de Val, o incômodo causado pela presença de Jéssica e o próprio desconforto da moça. Trata-se de  uma produção solar, embora, conforme o enredo deixa claro, as empregadas domésticas estejam longe da vida idílica e exuberante preconizada pelas novelas globais.

“Que horas ela volta?” é um filme essencial para entender o Brasil que se desfraldou nos governos progressistas recentes a partir da adoção de políticas públicas inclusivas. Fala do preconceito de classes e da redoma de vidro na qual o estrato mais privilegiado criou para si, que depende exatamente da exploração, da relação descuidada que estabelece com aqueles mais abaixo. Explica, por exemplo, a naturalidade com a qual o marido de Ivete Sangalo deposita em sua funcionária a culpa pela enfermidade que o acometeu em detrimento do bem-estar da profissional. Ao término da película, a sensação de que a guinada reacionária da política brasileira teve muito a ver com a longeva luta de classes.

*Uma primeira versão, um pouco mais compacta, foi publicada originalmente no @cine_etc, perfil do Instagram editado por Raphael Cavalcante

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