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Uma pessoa negra foi

(  ) morta

(  ) espancada

(  ) presa 

(  ) violentada 

(  ) alvo de racismo

(  ) ridicularizada 

(  ) alvo de piada 

(  ) menosprezada

(  ) baleada

(   ) assassinada

(   ) desprezada

(   ) …

Ligo a TV ou abro o G1 ou ligo o rádio e em todas essas mídias encontro diariamente pelo menos 1 notícia da vitória do racismo estrutural sobre os nossos corpos. Mais um dia de derrota. Essas notícias mexem comigo e eu luto para me acostumar e ao mesmo tempo para não me acostumar, luto comigo mesma para não me deixar atingir por esses fatos, luto comigo mesmo para sair da inércia e fazer algo além de lamentar, mas é uma luta perdida.

Vão passar até cansar a cena do George Floyd sendo enforcado até a morte. A TV é a nova árvore. A gente entende o espelho colocado no outdoor quando essas cenas são repetidas além da exaustão. Não há como descrever toda essa dor que o racismo nos causa, mas Daniel Brazil ao transformar essa dor em poemas no livro “Roleta do genocídio” traduziu. 

Traduziu porque parece que falamos uma língua ininteligível, uma língua desconhecida que ninguém encontrou uma pedra de roseta para traduzir. Falamos que acontece um genocídio da população negra, principalmente dos jovens negros. Mostramos os dados, as histórias e os fatos e parecem que eles não nos vêem, não escutam e não entendem. Na verdade vêem, escutam e entendem, mas faz parte do projeto de poder nos exterminar até que não sobre nenhum.

Daniel Brazil, na “Roleta do genocídio”, nos lembra que o genocídio não acontece somente quando tiram a nossa vida, ele acontece no encarceramento em massa, no racismo religioso, na menor dosagem de anestesia, na violência policial… “O governo garantiu que não vai faltar carne no mercado, que ele manda buscar, nem que seja da mais barata”. 

Novembro acabou chegamos em março de 2021 e toda a mobilização em volta de 20 de novembro ficou nas estatísticas de engajamento das redes sociais porque de fato nada mudou de novembro pra cá. Passaram quantos dias de novembro até você ler esse texto e constatar que o genocídio da população negra continua? 

Esse ano fiz 33, jovem pra ser velha e velha pra ser jovem como diria a Sandy. Ainda não emergiram os cabelos brancos, tô longe de ficar com o meu 4C grisalho. Imagino que quando me olhar diante do espelho como no poema “Aniversário” e ver despontar as rugas e os cabelos brancos será um dia de grande felicidade. A cada dia é uma luta, é uma grande vitória permanecer.

Não esperam meu envelhecimento e até se surpreendem quando vêem alguém parecido comigo velha. Não estamos habituados a ver homens e mulheres negras envelhecerem, criarem rugas, desenvolverem incapacidades, doenças crônicas, aposentarem. O envelhecimento preto surpreende porque não faz parte das expectativas sociais, porque muitos fatores contribuem contra as vidas pretas. Ser preto e ter bisavô é quase um milagre, não querem que estejamos vivos e muito menos que fiquemos velhos. 

Meu curso superior, meu concurso público e ainda morar num lugar de alto padrão fizeram que meu lugar de fala, do qual espero envelhecer, seja muito diferente e desigual dos meus amigos de infância (muitos deles sepultados). Meus amigos, muitos jovens e crianças, como o Marcos Vinícius, morto em uma “Operação”. Morto tão jovem que nem teve tempo de “não seguir os seus conselhos […], de andar de moto, de ver o Mengo no Maraca[…] de me formar, de comemorar com os amigos o meu primeiro salário”. 

 “Aniversário” fecha o livro com forte impacto lembrando a quem está vivo da alegria de viver e do privilégio de estar vivo nesse país escravocrata que tem o objetivo de nos matar e subverter. Nossas mortes não são um acaso, mas um objetivo do Estado e da sociedade racista e esse livro nos alerta das diversas mortes a qual estamos sujeitos. 

“Genealogia” nos lembra do assassinato histórico dos nossos nomes e famílias. Lembra do legado escravocrata que não se apagou no tal 13 de maio. Nosso nome “não guarda linhagem, nem enaltece raízes, meu nome não resiste aos neologismos, às alcunhas, às estereotipagens, meu nome no máximo expõe um passado em que me tiravam até o meu próprio nome.”

Qual é a origem do seu nome? E do seu sobrenome? Silva de quem? Souza de quem? Até o nosso nome foi roubado, nada nos deixaram. O nome de registro é como um ferrete a nos lembrar o tempo todo que não nos pertencemos e nem ao nosso nome e história temos direito. Nossa história é a do sofrimento, da dor e a contada pelo racismo.

Segundo o IBGE a expectativa de vida dos brasileiros aumentou três meses. Agora a expectativa de vida dos homens é de 73,1 anos e a das mulheres de 80,1. E também que a mortalidade na infância (crianças menores de 5 anos) declinou de 14,4 para 14,0 por mil em 2019. E te pergunto: pra quem? Para quem a expectativa de vida aumentou três meses? Pra quem a mortalidade na infância reduziu? Não foi para o João Alberto, que somente viveu até os 40 anos, e nem para o Miguel, que somente celebrou o quinto aniversário.

Nessa semana de aumento da expectativa de vida de alguns, chegou em minhas mãos o livro “Roleta do genocídio”, de Daniel Brazil. O título e o conteúdo me fizeram pensar que estar vivo em um país racista é um jogo de roleta que não sei por qual motivo e momento a sorte vai ser minha e a morte irá parar na minha casa.

Posso estar com um guarda-chuva, um saco de pipocas, usando uma furadeira, estar com os amigos em um carro ou no supermercado e a morte me encontrar de forma violenta. A morte subjetiva já me beija com frequência, são tantos beijos que se tornou minha companheira como um monstro que vive ao meu lado a cada passo dado e toda relação construída, mas ainda me espantaria o tal momento em que minha carne começará a se decompor. 

Deixo a seguir uma proposta de plano de aula para ser desenvolvida com profissionais da saúde com o poema “Epigenética preta”. Utilize os seguintes artigos como referência para formar um background para entender do que se trata o texto.

  • WILLILIAMS, DR et al. Understanding how discrimination can affect health. Health Serv Res, Chicago, out. 2019;
  • CARDOSO, Francilene. Racismo e necropolítica: a lógica do genocídio de negros e negras no Brasil contemporâneo. Revista de Políticas Públicas, São Luís, v. 22, p. 949-968, 2018;
  • SANTOS, Ademir Barros. Outros negros. Periferia, Duque de Caxias, v. 10, n. 1, p. 159-178, jan./ jun. 2018.

Para garantir a leitura do texto, peça que os alunos façam um fichamento de um deles. Faça uma breve apresentação sobre as doenças mais prevalentes na população negra e situação social dos negros no Brasil e apresente o clipe da música “Canção infantil”, de César MC. Utilize como fontes de informação o site do IBGE, pesquisa “Nascer no Brasil” e os boletins epidemiológicos da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Passe para a análise do texto fazendo a discussão a cada estrofe, permitindo que os estudantes tenham conhecimento das discussões que são trazidas no texto. Como encerramento da atividade peçam que apresentem o trecho que mais provocou reflexão ou chamou a atenção.

Antirracismo é insuficiente para nos manter vivos. Numa sociedade racista é preciso muito mais do que ser antirracista. Numa sociedade racista, nós, pretos, precisamos lutar por muitos meios e termos noção de que essa luta é nossa e não pode ser transferida para o opressor na expectativa de que eles notem que as nossas vidas importem.

Entendam, eu sei que é duro, nossa vida não importa para eles, não importa o quanto gritemos, ainda seremos mortos e encarcerados. Essa luta é nossa e precisamos ser estratégicos. Também estou perdida nesse jogo, nessa roleta russa do racismo, mas sei que não posso deixar que eles vençam. Daniel Brazil nos dá o alerta da extensão e da dor desse genocídio que nos alcança, mesmo que tentemos nos cobrir com o cobertor para fugir dos fantasmas que nos assombram.

Título: Roleta do Genocídio
Autor: Daniel Brazil
Impressão: papel pólen bold 90g
Gênero: Poesia
Formato: 14x21cm
Acabamento: brochura
Páginas: 81
ISBN: 978-65-80762-01-9

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