Ah, a pós-modernidade! Quanto mais a humanidade vai evoluindo em determinadas áreas, surge regressão em outras. O que se pretende neste texto, para além de uma defesa rasa de algumas personagens que por ventura vierem à mente de que lê, é fazer uma reflexão de como estamos evoluindo enquanto sociedade, e o quanto precisamos dar passos atrás com vistas a avanços maiores.

No embalo da liquidez das relações entre agentes sociais, evocando aqui a teoria de Zygmunt Bauman, podem-se analisar diferentes comportamentos que antes não eram executados, ou melhor, não eram percebidos entre nós.

Com a alta conectividade em que o mundo moderno está mergulhado, acontecimentos que demoravam semanas para serem informados, passaram a ganhar repercussão instantânea; comportamentos que eram vistos (se é que eram vistos) como algo sem nenhum atrativo social, foram envolvidos com uma área de importância sem igual.

Muitos chamam a geração dos anos 2000 de geração mimimi, mas eu discordo veementemente. A geração dos 2000, ao contrário das gerações que a antecederam, é aquela geração das novidades tecnológicas, das mudanças abruptas, das notícias instantâneas, das enxurradas de informações que surgem de todos os lados.

Nunca se falou tanto sobre mulher, pretas e pretos, LGBTQI+, comunidades tradicionais, pessoas em situação de rua e uma miríade de grupos subalternizados que foram enxergados e/ou reivindicaram participação no debate social, tomando seus lugares de fala.

Com isso, muita gente passou a observar os comportamentos de outros agentes sociais, assumindo até mesmo um papel de fiscais da vida alheia. É claro que eu entendo que muita gente se preocupa com o exemplo que pessoas que têm certa visibilidade na mídia e nas redes sociais etc. precisam dar, mas o que me intriga é ver muita gente, e não raro, que usam perfis anônimos, ditando regras de como deve ser, o que fazer, como agir, dentre outras “dicas” do bem-viver social.

Somos vigiados o tempo todo, temos um grande irmão que sempre está atento a tudo o que fazemos, pelo menos foi assim que nos apresentou George Onwell no seu distópico romance “1984”. Hoje, neste mundo de múltiplas conexões e um sem número de dispositivos eletrônicos e digitais à nossa disposição, estamos mais vigiados do que ousa imaginar nossa vã sabedoria.

Eu sempre me senti incomodado com a prática do “cancelamento”, algo que não procurei me aprofundar muito, devido o raso teórico em que essa prática se encontra (no meu entendimento). Deixar de seguir alguém, excluí-las das listas que sempre surgem, vamos lá, é do jogo. Entretanto, pelo o que eu entendi até agora da prática em questão, não se trata apenas de excluir ou retirar de listas, mas de fazer escracho público, buscando episódios antigos da pessoa para corroborar com a sede insaciável de vilipendiar alguém.

Ora, você pode até me dizer: “mas as pessoas que são canceladas fizeram por merecer o cancelamento!”; e eu pergunto: mas, e as pessoas que cancelam, tendo uma vida publicizada como as que foram canceladas, passariam incólumes pelo cancelamento?

Há duas semanas, um dos assuntos mais comentados nas redes sociais foi um imbróglio ocorrido na dita “casa mais vigiada do Brasil”, ou apenas o BBB 21. Segundo relatos (e me baseio por relatos sobre este fato, por não assistir o programa), um homem preto fez algo que os participantes não gostaram. Sabendo do entrevero que se meteu, o dito homem preto assumiu sua parcela de culpa, e pediu desculpas pelo ocorrido. Acontece, e ainda me valho dos relatos de outrem, que duas mulheres pretas (não só elas, mais principalmente) parecem não querer desculpar o rapaz, e abriram um flanco de guerra contra ele.

Nesse tribunal da inquisição que muitas vezes é o Facebook, vejo pessoas reclamando das duas mulheres e defendendo o homem, bem como levantando informações sobre a vida do homem para passar a impressão de que ele também “não vale nada”, para usar uma expressão mais popular.

Fiz questão de ressaltar a característica étnica dos três participantes supracitados, pois, além do busílis entre eles, já ocorreu outra questão, e tem a ver com a herança maldita deixada pela instituição da escravidão, mas este assunto será o tema de outro texto a ser publicado.

De uma hora para outra, a cantora  Karol Conká recebeu inúmeras críticas, algo que aconteceu igualmente com a outra participante que parece não querer desculpar o rapaz. Aqui vai uma breve explicação sobre o que se lê neste texto. Não há a mínima intenção de contemporizar o que um ou outros estão fazendo dentro da casa do BBB 21, nem tão pouco visto à toga num ato de defesa de quem quer que seja. Minha intenção primeira é provocar a discussão e contribuir para a reflexão social.

Cancelar a pessoa é o melhor a ser feito? O cancelamento tem alguma finalidade pedagógica prática? O cancelamento é para punir, avisar ou alertar? Só se cancela quem tem vida ativa nas redes sociais? Se a pessoa pedir perdão, pode deixar de ser cancelada? Quem cancela seria também cancelado(a)? Essas são algumas perguntas de quem quer começar a pesquisar este tema em especial, e, como de conhecimento de muitos, já se debruça em assuntos que versam sobre as relações sociais que tecem nossa vivência no que chamamos de sociedade.

A cultura do cancelamento se mostra bem ativa. Vozes múltiplas ecoam nos inúmeros cantos da rede (internet), angariando cada vez mais adeptos amiúde. Fico observando este movimento que é típico do nosso tempo. Não cabe a mim neste texto, nem em rodas de conversas com quem tenho mais proximidade, emitir juízo de valor sobre o que é certo ou errado, seja lá o que for certo e errado.

E antes que me julgarem como o “isentão”, que fica sobre o muro, acredito ser deplorável, seja quem for, ridicularizar as pessoas, usando da sua influência e conhecimento para diminuir. Infelizmente já vejo muito disso na academia, e não queria ver em outras partes na vida social. Entretanto, quem vos escreve também é um cientista social em formação, e na faculdade, ainda nas introduções, aprendemos que para analisar um objeto de estudo, é preciso nos afastar dele, observá-lo de longe, sob pena de comprometer a pesquisa com nossas convicções pessoais.

No mais, eu sempre espero que a sociedade possa se reinventar, progredir, e não voltar anos de evolução. “O homem é o lobo do homem”, já dizia um teórico famoso. Aprendi com a vida que a gente sabe quem é a pessoa, quando se dá poder para ela. Os que estão sendo cancelados hoje, por mais que não fossem reconhecidos do grande público, estão agora em um “palco” que permite muita visibilidade.

E você, se um dia estivesse nesse mesmo “palco”, seria ou não cancelado(a)?

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