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Estamos dentro de um redemoinho, ou pelo menos essa é a sensação. Parece que o turbilhão de coisas estranhas que estão acontecendo não terá um fim que se mostre próximo; mas certamente este fim chegará, nós sobreviveremos a esta onda delirante de pessoas e discursos delinquentes, que beiram, não raro, a um universo paralelo, ou a tempos pretéritos, em que a checagem de informação durava dias, quando não semanas.

Vivemos no país das mais de 435 mil pessoas mortas, de sonhos interrompidos, de desejos reprimidos, de histórias quase apagadas. Estamos no país de Bolsonaro e de sua malta, de pessoas que abriram mão do pensamento crítico, ou simplesmente estão lucrando algo que não pode ser publicizado, trazido à mesa, embora sempre há “um rabo de fora quando o bichano tenta se esconder de baixo do sofá”, para usar uma expressão mais popular.

De 2018 para cá tivemos o desprazer de assistir a emersão de uma gente baixa, com pouca ou quase nenhuma capacidade de discussão sem agredir, de vocabulário com profundidade de pires, babando ódio gratuitamente, pelo simples fato de não aceitar pensamentos e vivências outras que não as dela. E aqui vale dizer que a polaridade iniciada na seara política deixou de existir há tempos, revelando o quão preconceituoso é o pensamento social brasileiro.

Por ocasião das eleições majoritárias de 2018, muito se dizia que o famigerado antipetismo tinha sido a causa da eleição contundente de Jair; foram 57 milhões de pessoas que votaram neste senhor, mesmo ele sendo aquilo que ele sempre foi, e nunca ter feito questão de esconder o que era. Foram 57 milhões de pessoas e não de robôs, ao contrário do que ele anda falando por aí, feito mantra, que há meios de fraudar a eleição, justo ele que foi eleito por este sistema que, cá pra nós, eu adoraria que não o tivesse sido (eleito).

Acompanhando o noticiário, lendo reportagens em diversos canais/plataformas de comunicação, confesso que me dá um desânimo. Fico me perguntando as vezes: onde foi que nos perdemos enquanto nação? Qual foi a curva fora da estrada que caímos e não conseguimos voltar pro rumo? É tão surreal as vezes que prefiro acreditar que estamos em um lugar de passagem, que logo sairemos e voltaremos à normalidade, só que à porta da saída teima em não aparecer.

Por ocasião da CPI da pandemia, tenho observado personagens que até então eram desconhecidas do grande público. Senadoras e senadores que figuravam em sua maioria em seus estados de origens, agora são vistos e reconhecidos em todo o país. Eu tenho acompanhado todas às seções da CPI, e isso tem me causado sensações diferentes que vão da euforia, agradecimento, empatia, admiração, raiva e asco.

Quando o país abriu mão voluntariamente de exercer o pensamento crítico, elegemos (e falo como brasileiro, não como eleitor desta malta) uns representantes de quinta categoria. Inexperientes, pedantes, sem traquejo para a coisa pública e acima de tudo gananciosos. Quem dos que chegaram prometendo romper com a velha política abriu mão das vantagens concedidas pela velha política? Aponta-me os representantes liberais que surgiram em 2018, que fizeram alguma coisa para diminuir a influência do Estado no tocante as regalias recebidas por eles?

Dos 11 titulares da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, quatro se mostram mais inclinados a defender a qualquer custo o governo atual. Eu paro para ouvir cada um deles (e olha que é cada coisa que eu escuto que é de arrepiar os pelos da epiderme), primeiro por exercício democrático, segundo para tentar extrair o máximo de argumento que sustente a defesa ampla e irrestrita do presidente e seus asseclas – árdua tarefa!

No último dia 20 de maio, o sanador Marcos Rogério (DEM -RO), dispondo do seu direito de fala de 15 minutos, apresentou uma coletânea de vídeos de governadores brasileiros, falando da questão medicamentosa para o enfrentamento da Covid-19. Nesse vídeo, aparecia inclusive o renomado infectologista David Uip, recomendando o uso da Cloroquina em ambiente hospitalar, o que foi sugerido pelos governadores que apareciam no mesmo vídeo.

Vendo assim de uma forma solta, o senador quis mostrar para o público em geral que, a despeito do que falam do presidente Jair, os governadores também recomendavam o uso da Cloroquina. Esta é a narrativa que o senador quis criar e acredite, muitos deram fé a ela. Entretanto, não estamos mais nos tempos idos em que a checagem de uma informação demandava muito tempo; hoje as coisas são checadas instantaneamente.

O senador sabe o que ele fez, e não tem dúvidas da construção narrativa que empenhou. O vídeo mostrado por ele (que é a compilação de outros vídeos) foi questionado por um outro senador que estava presente, solicitando que as datas dos vídeos compilados fossem ditas, o que o senador Marcos Rogério respondeu: “o vídeo está nas minhas redes sociais, o senhor vai lá depois senador, e veja!”, ou seja: o senador Marcos Rogerio sabia o que estava falando e para quem estava falando. Quem acompanha às redes sociais dele, certamente comunga da mesma visão distorcida dos fatos.

Analisemos o vídeo em questão. Governadores de alguns estados brasileiros falaram para suas populações da garantia medicamentosa para o combate à Covid-19. Todos indicaram que havia reserva de Cloroquina para o uso imediato com recomendação médica e em ambiente hospitalar. Estes vídeos foram gravados em março de 2020, mês em que todo o mundo buscava informações que pudessem ajudar no combate do novo coronavírus e, neste tempo, a Cloroquina era aventada como uma solução segura.

Tempos depois a comunidade médica mundial, através da Organização Mundial da Saúde (OMS), não mais recomendou o uso da Cloroquina para o combate da Covid-19 sob risco de complicações e aparecimento de outras patologias. Destarte, os governadores não mais fizeram pronunciamentos como os de março de 2020, ao passo que o presidente da República continuou a falar de Cloroquina, inclusive em uma live no dia 20 de maio último.

Infelizmente às desinformações não cessaram com a fala tendenciosa (para dizer o mínimo) do senador Marcos Rogério, que depois de ter feito seu vídeo para alimentar as hordas bolsonaristas na internet, se retirou, mesmo que por um tempo, da sala em que está instalada à Comissão. Outros senadores que compõem à base do governo, de forma irresponsável, disseram que a Cloroquina, utilizada há 70 anos, “estava sendo demonizada em dois anos”. Dando a entender que a utilização da Cloroquina para Malária, por exemplo, não servia mais.

É tão inacreditável o que se escuta dos defensores do governo nesta CPI, que de uma a duas: ou os parlamentares acreditam piamente no que falam, o que demonstra, se comprovado, a flagrante falta de conhecimento básico sobre assuntos diversos, algo que um senador da República deveria ter, ou há coisas ocultas nos bastidores, coisas essas que se mostram rentáveis para os parlamentares, se é que me fiz entender.

Enquanto isso, mentiras e mais mentiras foram pronunciadas pelo ex-ministro da saúde, Pazuello, que nos impôs sua empáfia e pedantismo por dois dias seguido, sendo transmitido pela TV Senado para todo o Brasil, e para o mundo via internet, o mesmo Pazuello que apoiou de forma falaciosa as medidas de distanciamento social, mas que esteve com o presidente no último passeio macabro de moto no Rio, gerando aglomerações e descumprimento das medidas sanitárias. É bem verdade que ele (Pazuello) não foi o único a mentir na CPI, o que esperamos que seja devidamente respondido na justiça.

No mais, resta-nos a sensação de sermos feitos como trouxas, verdadeiros otários diante de flagrante irresponsabilidade da parte de quem deveria zelar pelo bem maior do povo brasileiro, ou seja, a vida! Que fundo nós chegamos, cara leitora, querido leitor. Ninguém me disse que tinha mais o que cair, uma vez chagado ao fundo do peço, mas no Brasil, pelo visto, abaixo do aquífero guarani, tem muito o que cavar ainda.

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