O governo genocida, liberal, antidemocrático, anti povo, que foi escolhido por uma parcela significativa da população nos deu algo de bom e vou te provar. Tal como o mito da caverna, olhávamos para as políticas do livro, literatura e bibliotecas como algo inegavelmente bom e que teria apoio de qualquer político, gestor.

Nessas imagens projetadas na nossa caverna, víamos entusiastas do livro, das bibliotecas, apoiadores do conhecimento. Só que essas imagens nos enganavam e não percebíamos que muitos destes apoiadores nunca destinaram recursos para as nossas áreas tão caras.

Estes apoiadores faziam discursos elogiosos aos livros, mas nunca apoiaram o mercado livreiro. Colocamos o nome de seus pais, mães, professores, ídolos nas nossas bibliotecas, mas eles só nos deram palavras vazias que nunca colocaram um livro em nossas estantes.

Eles não estavam disponíveis para destinar orçamento, não tinham agenda quando precisávamos atualizar nossos sistemas, não tinham meios quando uma biblioteca carecia de um profissional da biblioteconomia.

Como num relacionamento abusivo, nós demos o nosso apoio, o nosso tempo, o nosso espaço, o nosso nome e a nossa cara para quem nunca nos deu algo além do simbólico. Uma biblioteca, como um organismo em crescimento, não sobrevive de símbolos. Os símbolos não colocam wi-fi, não instalam telecentros, não atualizam o sistema e o acervo. Símbolos não pagam as contas.

Bibliotecárias participam de ato no Rio em 2019. Foto: Chico de Paula / Agência Biblioo

Nesse governo genocida podemos olhar para fora da caverna e perceber que aquelas sombras projetadas nos enganavam o tempo todo. Pode colocar aqui o meme: era tudo mentira? Era.. não, pera.. hum, ah, era… era tudo mentira!

Enquanto nossa fé no livro, literatura e bibliotecas era explorada para fins políticos de Norte a Sul, do federal ao municipal, a boiada foi passando. Não foram universalizadas as bibliotecas escolares, nem públicas, não ampliamos o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, não implantamos telecentro em todos os municípios, não informatizamos e nem atualizamos nosso acervo.

Nesse governo fomos acordados no susto, no meio de uma pandemia. Ainda podemos fazer músicos do Titanic, tocar a música enquanto o navio naufraga, ficarmos em anomia para acreditarmos que está tudo bem. É um terreno seguro. Mas podemos aproveitar que estamos nesse naufrágio para acordarmos como classe e entendermos de fato a arena de disputa que é a política pública.

Deixar a era romântica da biblioteconomia e irmos para uma de luta. Esse romantismo é cringe! A era romântica da biblioteconomia precisa findar agora para que possamos ter um futuro enquanto classe. Tirar o sapatinho e colocar o pé na porta. Deixar o pedantismo de uma finesse fingida, imitação ridícula de valores europeus para colocar o pé na porta.

Já avançamos muito na discussão da equidade racial e de gênero nos espaços acadêmicos, agora é hora de incomodarmos nas unidades de informação. Botar a cara no sol e perguntar: ué aqui vocês só contratam Stacy? Porque não tem travesti nessa biblioteca? Porque não tem PCD aqui? Já deu dessa sala de estar que criamos e que não nos beneficia como classe e só faz perpetuar as desgraças que lamentamos a todo ano.

Não temos um Judas a ser malhado, mas precisamos promover uma mudança que retire os pedantismos que não permitem que estejamos prontos para a disputa que são as políticas públicas.

A era das boas moças, educadas, recatadas, do lar, preparadas para o casamento, filhas da oligarquia precisam dar lugar a das bibliotecárias de guerrilha que não tem medo de incomodar, causar indigestão. Saem as bibliotecárias da sala de visitas e entram as do quarto de despejo que não temem a luta pela justiça social.

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