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A destruição perpétua dos pensamentos dos homens é uma das grandes misérias da humanidade. Este mal é pior que a morte; pois os corpos, pela lei da geração, se reproduzem; mas o pensamento, sendo eminentemente individual e irreversível, não possui herdeiro natural; seu germe, lançado ao vento, se perde e, se não fosse coletado por meios artificiais, a aprendizagem e a experiência de séculos teriam que ser eternamente reconstruídas: verba volant.[1]

Às vezes parece que ouvimos dentro de nós algum eco do que foi pensado e descoberto no passado por nossos pais; é como um sopro que provém deles; mas permanece indistinto e não expresso. E o conhecimento humano, pela insuficiência de seus meios, é compelido a retornar constantemente a uma tarefa que podendo ser cumprida, é incessantemente esquecida. Quando um escrutinador do passado, como Duhem,[2] restaura alguns elos com ciências mortas, as riquezas que ele desenterra surpreendem por sua originalidade e esplendor. E se essa corrente continuasse ininterrupta para nós?

O homem deseja tanto se rememorar! Os monumentos, os sinais, os versos, as inscrições, os escritos, os livros, os ensinamentos e a história são apenas processos mnemotécnicos que ele se exauriu em multiplicar para afastar a perda irreparável. A própria arte é somente uma memória, a memória do corpo social aplicando-se para sobreviver e reviver-se, se assim posso dizer. No entanto, a mais poderosa dessas mnemotécnicas é uma biblioteca; uma coleção de livros é uma máquina de memória incomparável.

Uma biblioteca, abarrotada de livros “velhos e novos”, é um mundo, o mundo dos defuntos e dos ausentes, não mortos ou distantes, mas vivos, presentes, familiares.

Entro numa biblioteca e, segundo a imagem de que se serviu Henri Poincaré, os pensamentos, semelhantes a moscas presas nas paredes, voam, rodopiam e farfalham, em multidão, ao meu redor. É, em primeiro lugar, deslumbrante e surpreendente. Todos, ao mesmo tempo, se desprendem, se colidem, cruzam, passam e voltam a passar, esquivos; eles aterrizam e avoaçam novamente; eles pulsam sob o ouro do dourado, vibram por detrás dos couros fulvos, submergem em cantos escuros e cintilam num raio de luz.

É uma ressurreição advinda das sombras, uma atividade nascida do repouso, uma carícia alucinante por sua multiplicidade e seu toque disperso. Pouco a pouco, a calma se instaura; os olhos se acostumam; eles discernem os belos raios em sua numerosa ordem. A mão se aproxima; o pensamento busca no meio do enxame de suas irmãs recuperadas. O olho examinou: ele escolheu. Finalmente o livro pode ser compreendido; está aberto. Tudo está em silêncio e a comunhão do presente e do passado ocorre em paz.

Se uma casa está, como convém, cheia de livros, se do térreo ao telhado os andares acumulam muralhas de pensamentos, se não há sala de estar, nem quarto, nem corredor , nem escada, nem sótão que não seja uma biblioteca, e se cada uma dessas bibliotecas fragmentadas mantém sua própria especificidade na unidade do todo, então é uma visita incomparável. Todas as artes e todos os séculos estão organizados; eles vos esperam, mudos, oferecendo suas riquezas à beira da colheita. O que foi transformado e ilustrado pelo trabalho humano está lá, acumulado, reunido; a vida segue infinitamente; ela remonta à antiguidade; ela está se preparando para as próximas evoluções; ela se alimenta do ontem e prepara sua comida para alimentar-se amanhã.

Nenhum canto é tão obscuro que não dê seu fruto e sua lição. Fechado, o livro ainda fala: seu título, sua lombada ornamentada, sua encadernação, sua costura modesta, suas nervuras quebradas, até mesmo o volume incompatível! Tudo faz sentido. O fio de nossos dias se conecta com o dos séculos. Abençoe os minutos e as horas em que você escolheu esses companheiros de viagem, esses amigos. Você ama seus livros; eles te amam. Vivendo com sua vida, eles entraram sob seu teto, sentaram-se à sua mesa. Eles fizeram de você o que você é. Se a arte é uma memória, uma biblioteca é a arquitetura suprema: tesouro de imaginações, conservatório de pensamentos, emoções em ordem!

[1] Do latim, “as palavras voam”.

[2] Pierre Duhem (1861-1916) foi um físico francês e um historiador da ciência. Entre as suas teses principais figura aquela que defende não uma ruptura ou oposição entre a Idade Média e o Renascimento, mas uma continuidade.

*Tradução do original “Bibliophiles” (Paris: F. Ferroud, 1924), de Gabriel Hanotaux (1853-1944), por Cristian Brayner. Hanotaux (1853-1944) foi um diplomata, historiador e político francês. Estudou na École Nationale des Chartes, e pelo desinteresse de se tornar arquivista, se tornou mestre de conferência na École pratique des hautes études. En 1879 ingressou como secretário no Ministério de Assuntos Exteriores, fazendo carreira no serviço diplomático.Em 1886 foi eleito deputado, mas ao ser derrotado em 1889, retornou à carreira diplomática, sendo nomeado, cinco anos depois, como Ministro de Assuntos Exteriores.Foi o delegado da França na Sociedade das Nações, onde participou das quatro primeiras assembleias gerais. Foi o único que se opôs a admitir o esperanto como língua de trabalho na Sociedade das Nações por considerar que já existia una língua franca: o francês.Aos 43 anos de idade tornou-se membro da Academia Francesa.

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