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Não é de hoje que escrevemos sobre o incauto olhar às bibliotecas escolares ligadas, principalmente, ao poder público. Aquilo que temos discorrido sobre sua omissão e negligência na ambiência brasileira parece ressoar sem previsões de esmorecimento.

Vale dizer que esse não é um intento provocativo de causar generalizações no âmbito do assunto abordado, dado iniciativas instigantes no país que buscam a essência do que é a biblioteca escolar por meio do seu fazer social, em procedimentos técnico-intelectuais e gestão profissional por bibliotecários escolares.

Entretanto, e hemos de convir, relatos na literatura especializada corroboram que o aspecto executivo da ambição à biblioteca escolar parece protagonizar apenas os documentos que norteiam essa tipologia de unidade de informação, como as Diretrizes e Manifesto da IFLA/UNESCO.

O conclame de ordem mundial que busca nortear o ser e o fazer da biblioteconomia escolar no Brasil parece estar ligado à inércia que, ora, esperava-se, há muito, ter deixado o marco zero.

Se há concordância, a biblioteconomia escolar tem estado em evidência por meio de estudos em voga que sinalizam seu comprometimento em fomentar discussões sobre este profícuo campo às áreas social, cultural, política e humana, principalmente após a promulgação da lei brasileira que a ampara, a Lei 12.244/10.

Como unidade de informação, a biblioteca escolar é recurso estimável e indispensável ao desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem e formação do educando, trazendo consigo a noção de completude às atividades escolares.

Mariza Inês da Silva Pinheiro e Vana Fátima Preza Sachetti, em sua obra de 2004 – Classificação em cores: uma alternativa para bibliotecas infantis –, já pontuavam, nessa direção, que a escola se tornaria um instrumento imperfeito caso não dispusesse de uma biblioteca. Já a biblioteca sem o ensino, seria um instrumento vago e de incertezas.

Logo, é inviável por parte da escola cumprir o seu papel sem que haja uma biblioteca como suporte às suas atividades-missão. A capacidade de abranger as inúmeras vertentes que se fundem a fim de nutrir tais complexidades demandadas por esse espaço de confluências do saber passam por recursos que a enformam no contexto social, tais como: recursos financeiros, humanos, físicos e de informação.

Durante o dissertar do meu Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação, na Universidade de São Paulo, busquei elencar Ribeirão Preto com suas muitas possibilidades de atuação em prol do desenvolvimento de políticas públicas para acesso à informação que contemplassem a empreitada acerca de pensar uma rede de bibliotecas, pontuando a melhoria da educação municipal por meio da caracterização e legitimação das bibliotecas escolares municipais como instrumentos fomentadores, integradores e desenvolvedores da educação, cultura e vida política dos que nelas convivessem.

O interesse em conduzir a pesquisa motivou-me a visitar quatro escolas ligadas à Secretaria de Educação do município. Sendo “caracterizar os recursos financeiros, humanos, físicos e de informação das bibliotecas escolares visitadas” um dos objetivos específicos da investigação, deparei-me com cenários que, até o momento, havia visitado apenas na literatura especializada.

Waldeck Carneiro da Silva, no ano de 1999, já discorria em seu livro Miséria da biblioteca escolar que no Brasil, “em primeiro lugar, quase não se tem notícia de medidas governamentais que visem à elevação das condições de funcionamento das bibliotecas das nossas escolas”, prevalecendo o silêncio em torno da questão da biblioteca escolar. Silêncio, palavra que, para o autor, representa “a situação real da biblioteca escolar no Brasil”.

Mesmo vinte anos após a publicação do seu livro ainda concordo veementemente com o referido autor, pois é impossível não reestabelecermos conexões com o atual cenário de 2018, percebendo a inércia que, todavia, se sustenta. Para o Waldeck, esse “é um silêncio quase sepulcral, que até faz sentido, pois a biblioteca escolar no Brasil está morta, faltando apenas enterrá-la”.

Após visitadas as quatro bibliotecas escolares no município de Ribeirão Preto, resumidamente, obtivemos as seguintes inferências:

  • Recursos financeiros: o observado nas quatro unidades visitadas apontou uma falta de compromisso da administração municipal dessas unidades com perspectivas futuras de aplicação de recursos financeiros, ações, gestão e mediação da informação, num cenário carente por inovações;
  • Recursos humanos: encontramos profissionais de nível fundamental e superior (com especialização e mestrado, mas não na área) responsáveis pelas bibliotecas. Profissionais que não participam de reuniões pedagógicas, nem do planejamento escolar e que tampouco se articulam com professores, o que dificulta nas ações ao processo ensino-aprendizagem;
  • Recursos físicos: mobiliário, tecnologias da informação e da comunicação e espaço físico se mostraram insuficientes e notoriamente preocupantes à recuperação, acesso e uso da informação. A biblioteca tem que transcender o seu espaço, tem que estar sintonizada com o mundo contemporâneo do usuário e se atualizar com os mecanismos das novas tecnologias;
  • Recursos de informação: as bibliotecas visitadas são pouco e razoavelmente utilizadas. Em sua maioria, não têm seus acervos catalogados nem classificados, não havendo nem mesmo a possibilidade de acesso remoto. Logo, concluímos que as bibliotecas pesquisadas se encontram fora dos padrões estipulados pela política pública da International Association of School Librarianship (IASL).

Desse modo, a biblioteca escolar é mais que do que tem pragmaticamente sido. Naturalmente, ela vai além de aglomerações de recursos físicos, transpõe recursos de informação defasados e inutilizáveis. Ela se torna palco de atuação de um corpo profissional multidisciplinar norteado pelo bibliotecário e necessita, obviamente, de investimento para garantir a coesão, razão e propósito da sua existência. Ao contrário desse ideal, ao menos no município de Ribeirão Preto mediante pequeno número de escolas visitadas, temos visto depósitos de livros travestidos de um conceito que em nada é assegurado àquilo que querem que seja percebido.

O enraizamento das bibliotecas escolares denotadas como depósitos de livros é fruto de um estigma cravado e alimentado por convenções sociais há muito estabelecidas, pouco contornadas pelo Estado que, inquestionável e lamentavelmente, corrobora o fato.

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