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Duas características marcantes do capitalismo são: a) a obtenção de lucro e a acumulação de riquezas, e b) a economia de livre mercado. Os fenômenos que representam ambas são os Trustes – quando uma grande empresa compra as empresas concorrentes, que vendem o mesmo tipo de produto; e os Holdings – quando uma empresa compra diversas outras empresas que fabricam produtos diferentes, formando uma grande empresa com grande variedade de produtos. Estes são os movimentos que tem se acelerado atualmente e que iremos caracterizá-los cronologicamente a seguir.

O ambiente das bibliotecas era bem dividido e delimitado. Existiam dois mercados, um formado pelo fornecimento de conteúdo – em alguns casos com séculos de existência de algumas editoras (publishers) – e outro dos desenvolvedores de software com os Sistemas de gestão de acervos. Na década 1980, quase todas as inciativas de desenvolvimento de software eram capitaneadas por Universidades ao redor do mundo. Algumas dessas tiveram tanto sucesso com os chamados Sistemas de Bibliotecas Integrados (Integrated Library System – ILS) que, no exterior, transformaram-se em empresas desenvolvedoras.

Na década de 1990, com a popularização da internet, dois fenômenos puderam ser observados: o primeiro, com novas fontes de informação disponíveis de maneira online pela rede de computadores, e o segundo, com os processos de automação ganhando impulso de tal maneira que há relativa saturação demonstrada em alguns artigos. Nessa época, enquanto as desenvolvedoras de software internacionais expandiam seus mercados para diversos países, apareceram as primeiras desenvolvedoras brasileiras.            

Na década de 2000, o movimento/filosofia de Software Livre, iniciado por Richard Stallman, espalha-se e como consequência surgem os primeiros Softwares de bibliotecas mantidos comunitariamente. Neste período, os papéis das bibliotecas ampliaram-se com surgimento dos Repositórios digitais, Sistemas de gestão de periódicos eletrônicos, Bases de dados de conteúdo completo e Sistemas de acesso remoto as bases de dados (proxys). Cabe destacar que, para as empresas, a disponibilização de conteúdo digital online se tornaria muito mais vantajosa que a tradicional comercialização do impresso ou mídia offline (CD-ROM, DVD ou Disquete) – ao invés de vender um produto que poderia ser copiado pelo comprador e compartilhado com outras instituições; as editoras passaram a comercializar o acesso ao conteúdo eletrônico na modalidade de assinatura, a ser renovada de tempos em tempos, a cada dia que passa por valores mais altos.

Neste contexto, enquanto as desenvolvedoras de software internacionais criavam novos softwares de resolvedores de links, Busca federada, Gestão de objetos digitais ou faziam Trustes e Holdings; as empresas brasileiras aproveitavam o bom momento da economia nacional para expandir sua atuação através de novos clientes – lançando-se até no concorrido mercado internacional. É importante lembrar que o momento era favorável, com Real desvalorizado em relação ao Dólar e ao Euro, mas fortalecido em relação as moedas de países vizinhos o que tornava qualquer produto final brasileiro muito competitivo.

Em 2007, a quantidade de fontes de informação disponibilizados pelas bibliotecas era tão vasta e diversa, que chegava a ser confusa para os usuários. Para encontrar o que desejavam as vezes era preciso pesquisar em quatro ou mais sistemas diferentes. Embora os sistemas de Busca federada tenham surgido ao menos seis anos antes, estes faziam consulta em tempo real a várias bases simultaneamente, por isso, o tempo de resposta dependia de fatores como uso de protocolo de comunicação comum (Z39.50), tempo de resposta do servidor da base, conexão de internet e fuso horário – haja vista que durante a madrugada são realizados a maioria dos procedimentos de manutenção e backup.

A solução a todas as variáveis de problemas da busca federada era um novo tipo de buscador que parecesse mais com os mecanismos da internet. Surgiram então os Sistema de Descoberta (Descovery System) que consultavam um índice previamente alimentado e atualizado frequentemente com os metadados dos catálogos de bibliotecas, repositórios digitais, sistemas de Periódicos e Bases de dados disponíveis a instituição. Vendo as possibilidades que se abriam com esse novo tipo de ferramenta, duas empresas de conteúdo (ProQuest e EBSCO) também passaram a investir no desenvolvimento de software. No Brasil, não houve qualquer desenvolvimento de software neste sentido, o máximo feito pelas empresas nacionais foi a criação de módulos de gestão de objetos digitais juntando as funções de catálogo de biblioteca e repositórios digitais.

Entre 2007 e 2010, o contexto tecnológico geral da sociedade foi alterado significativamente. Os conteúdos online que antes eram acessíveis apenas através de Desktops e Notebooks, passam a ser portáteis com a criação dos e-readers, smartfones e tablets, que demandam um novo tipo de infraestrutura chamada de computação em nuvem (cloud computing). Muito atenta a todo este desenvolvimento tecnológico, em 2010, a OCLC (Online Computer Library Center) lança o WorldShare Management Services, o primeiro software dos que atualmente conhecemos como Plataforma de Serviços de Biblioteca, ou também conhecidos como 5ª geração de software para bibliotecas.

Em 2011 é a vez da Ex Libris lançar também sua plataforma de serviços, chamada ALMA. E neste mesmo ano, a fundação Kuali – entidade dedicada ao desenvolvimento e apoio de soluções de software livre para educação – lança o Open Library Environment (OLE).

É a partir deste momento que ocorre a concentração de mercados, tornando-os indivisíveis. A OCLC que já havia adquirido anteriormente bases de dados bibliográficas e de e-books, em 2013, adquire a Dutch library automation company (HKA), em 2015, a Sustainable Collection Services (SCS) e, em 2017, o provedor de serviços de empréstimo entre bibliotecas Relais International. A ProQuest que já havia adquirido o gestor de referências RefWorks e a bases de dados Dialog, adquire, em 2011, a base de e-books Ebrary, em 2014, a base Pi2 Solutions, em 2015, o serviço de informações SiPX e a desenvolvedora Ex Libris, em 2016, a produtora de vídeos e editora Alexander Street e, em 2019, a desenvolvedora Innovative Interfaces. A EBSCO que já tinha adquirido várias editoras universitárias e as base de dados NetLibrary e H. W. Wilson Company, em 2015, adquire a YBP (Yankee Book Peddler), em 2016, cria o Open Library Foundation, aderindo aos projetos de software livre Open Library Environment (OLE) – renomeando para Future of Library is Open (Folio) – e o Global Open Knowledgebase (GOKb), e em abril de 2020, o serviço de dados vinculados (linked data) Zepheira.

A partir da mudança de paradigma que proporcionam as chamadas plataformas de serviços de bibliotecas, chegamos ao final de 2020 com três grandes empresas cujo mercado agora caracteriza-se em conteúdo como serviço. Atualmente com dois softwares proprietários (WorldShare Management Services e ALMA) e um software livre (Folio) – que embora livre, pode ser adquirido com um serviço de manutenção onde é agregado o sistema de descoberta de conteúdo da EBSCO (EDS). É diante deste contexto que se colocam as questões: por quanto tempo as empresas nacionais (conteúdo e software) ainda conseguirão manter-se competitivas diante dos players internacionais? Será que haverá Trustes e Holdings no mercado nacional ou essas vão encolher e perder espaço? Aguardemos as próximas movimentações. Quem viver, verá…

    

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