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Depois de algum tempo que estamos nos conhecendo aqui por meio dos meus textos na Biblioo, acho que já temos uma intimidade de autora para leitora. Então já me sinto íntima o bastante para contar sobre a minha vida. Não sei se você me deu essa abertura, mas vou te contar sobre algumas problematizações como se a gente tivesse sentado lado a lado no ônibus e estamos juntas há horas em um engarrafamento em direção a uma cidade da região metropolitana, que sempre é um caos.

Depois de tanto tempo com os ombros lado a lado e cansadas de imaginar o que o motorista e o cobrador estão pensando, falar coisas ruins das pessoas que sentam no motor do ônibus, refletir sobre os meus privilégios de estar sentada nesse engarrafamento, dormir e ficar imaginando uma cena romântica com um bonitão que está parado na roleta. A gente começa a conversar e assim do nada eu começo a problematizar sobre o acesso à informação.

Me lembrei esses dias (acredita?), memórias que vem na quarentena (eita vírus!), de quando fui conhecer minha família paterna, devido a um reconhecimento tardio da paternidade. Para poder me aparecer diante de músicos, inclusive minha tia Marlene Souza Lima, falei que gostava de música clássica só pra impressionar. E o meu repertório de casa eram discos de macumba, um CD dos Tincoãs, um CD dos Três Tenores, um CD Freddie Mercury e Montserrat Caballe e muita Atividade FM (uma rádio que só toca música sertaneja e tinha o Silvio Linhares – que minha vó adorava, foi com ela que assisti todas as fitas de “Fases da morte” – esteja em paz voinha!).

Então quando minha tia perguntou que tipo de música eu gostava, já soltei logo: clássica! E ela perguntou quem eu mais gostava, eu soltei de pronto: Três Tenores e Freddie Mercury e Montserrat Caballe! Sei, amiga, parece até história da Praça é Nossa, mas não é. Juro pela Deus Beyoncé que tá ganhando muito dinheiro do povo de Jesus. Mas eu pensava que essas músicas eram clássicas, eu colocaria junto até um Edson Cordeiro.

Isso aconteceu que meu universo informacional era pequeno, e presumiram por diversas vezes que eu sabia. E como eu não sabia o que eles imaginavam que eu sabia e eu não sabia formular dúvidas, fiquei com o conhecimento que tinha. Penso tanto nisso, porque conhecimento não dá em árvore, você precisa acessar, precisa estar pronta para entender, ter um conjunto que possa decifrar, ou até mesmo alguém pra desenrolar o fio pra você.

Continuando a falar em música, lembro que aprendi a gostar de Zeca Pagodinho com o meu tio Ailton, conhecido por Charuto, no Novo Gama (cidade do Distrito Federal em que me criei). Mas nunca alguém me ensinou a gostar de pagode, me botar de lado pra aprender um bom samba, saber os sambas enredos mais famosos.

Quando lembro disso, penso no papel fundamental de pessoas que sejam responsáveis pela sua educação, pessoas que te ensinem a gostar do time certo, sabendo toda a história do time, pessoas que te ensinam a apreciar música, a criar repertório para a vida. Esse é o papel dos pais, que não é somente ser metade dos gametas, os pais são as chaves para o universo informacional.

Imagina você, pai de uma criança preta, ensinando sobre a violência racial, mas também ensinado a ela a ter orgulho da raça e da cor que ela pertence porque ela é a rainha de todo aquele Ilé, que ela é o ouro de Oxum, os ventos de Iansã, a espada de Ogum, o arco de Oxossi e a justiça de Xangô.

Imagina você criar uma criança que saiba o que é o mundo, quem é Caetano e porque até você caiu na pilha de pedir live. Os pais são essenciais para abrir universos, porque eu tenho certeza que quando alguém abre uma janela informacional, todo um horizonte se abre. O mundo se abre. Que nós possamos ter coragem de deixar de presumir sobre o que cada um sabe, pode apreender e sabe de fato, vamos baixar as armas e pensar na troca, no crescimento junto.

Se a gente deixa de presumir, pode acabar defendendo a educação, pode acabar sendo defensor da escola pública, das diversas formas de conhecimento, de diversos saberes integrados, e até mesmo se dar uma chance como uma pessoa que tem muito a oferecer para germinar nesse mundo sementes que somente a sua árvore produziu.

Eu falo muito, você já percebeu. Da próxima vez vou te contar sobre o conserto do meu carro e do meu celular que me fizeram refletir mais sobre acesso à informação. Sei que você já imagina o que eu vou dizer sobre mulheres e mecânicos. Agora já vou indo foi um prazer passar esse congestionamento ao seu lado. Ah, feliz dia dos pais. A gente se vê, mas como pego horários irregulares não sei que dia a gente volta a se encontrar, mas na volta já sabe. Beijo. Motorista, vai descer!

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