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Foram seis horas de barco até chegar lá. Ninguém teve enjoo ou, tampouco, sinal de internet. Uma maravilha! Ao redor, tudo era só céu e água, sem que a vista pudesse alcançar, ao menos no horizonte, algum arremedo de terra firme.

Como se estivéramos adentrado, por engano, algum oceano desconhecido dos mapas – um deles, por acaso, o Atlântico, estava bem ali, depois da foz do rio –, as raras distrações que vez ou outra apareciam diante dos olhos eram alguma ilhota surgida do nada no meio daquele mar de água doce ou uma e outra embarcação, em sentido contrário.

Fora preciso nos deslocarmos de Belém para Macapá, na plenitude da selva amazônica, para passar a noite onde, embora ninguém veja, sabe-se que atravessa a linha imaginária do Equador, para, então, seguir por via fluvial. Distante 320 quilômetros da capital do Pará por estradas tortuosas e incertas, nosso destino estaria à metade da metade disso, em linha reta, indo por água, a partir da capital do Amapá.

Mais que valia a pena: do outro da margem do mais caudaloso rio do mundo, o Amazonas – que custava a se deixar mostrar no horizonte -, estava a pequena Afuá, cidade flutuante onde não há carros ou caminhões e oito em cada dez moradores se locomovem de um lugar para o outro em cima de uma bicicleta.

Fundada por uma mulher no século 19 e situada no norte da Ilha de Marajó, Afuá é uma cidade única, erguida sobre várzeas, igapós e palafitas, a oito metros acima do nível do mar – e não por motivo besta, apelidada de Veneza Amazônica. Ali tudo flutua, do pequeno aeroporto ao cemitério, passando pela igreja, a escola e os inferninhos que abrem à noite.

E o que não flutua, anda de bicicleta: o prefeito, os vereadores, o padre, a polícia, os bombeiros, as crianças a caminho da escola e, naturalmente, as moças de batom e vestidos chiques que vão para a balada – pedalando elas próprias e estacionando suas bikes, ou num bicitáxi, curiosa invenção local.

Biblioteca Pública de Afuá. Foto: divulgação

O que nos levara até ali – Ana de Hollanda, então ministra da Cultura, e eu, então à frente da Biblioteca Nacional e do Plano Nacional do Livro e Leitura – fora inaugurar uma biblioteca pública, não mais do que isso.

Havia uma forte razão para isso. Afuá era a última das 72 cidades paraenses que ainda não tinha a sua biblioteca – e, com isso, seria zerado o déficit de municípios no estado sem esse serviço tão essencial à dignidade humana.

No ano anterior, os técnicos haviam percorrido 40 mil 0 quilômetros do estado em barcos, aviões, balsas e veículos terrestres para levar livros, equipamentos e treinamentos, mas aquela pedra no sapato ainda continuava intacta.

Em pouco tempo, a biblioteca – como a própria vida por lá, também flutuante, com seus dois pavimentos de estantes de obras, computadores e até bibliotecários, equilibrando-se de forma harmoniosa sobre palafitas e as águas provenientes dos rios Afuá, Marajozinho e Cajuuna, que delimitam o município, no delta do Amazonas – estaria operando a pleno vapor, e cumprindo seu papel social de aproximar pessoas e livros nos mais longínquos rincões.

Antes de voltarmos à terra firme, ainda desfrutaríamos da boa hospitalidade do povo do lugar, de sua extasiante cultura local e sua generosa gastronomia, que oferece do camarão de água doce ao açaí, da maniçoba à mujica e o indefectível tacacá.

Afuá seria, para todo o sempre, um marco emblemático em nossas vidas.

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