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O já insustentável “novo normal” está no ar: máscaras descartáveis já podem ser encontradas nas profundezas do azul mar da Riviera francesa, por exemplo, na categoria “novidades”. Ou, na categoria um pouco mais “antiga”, por volta de uma década, mais ou menos, mas intensificada com a Covid 19, bilionários comprando bunkers luxuosos para se refugiar caso o fim deste mundo esteja bem mais próximo do que as estimativas conhecidas, cerca de 10 bilhões de anos com a extinção do sol.

Então o que a gente faz? A gente põe a viola no saco ou vai de Guimarães, o Rosa:

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem

Sabia tudo ele, o Rosa. E nós? Que sabemos de nós? Como desatar o nó da estrada que nos catapultará do status de sermos uma incrível máquina de sobrevivência, adaptada ao longo de milhões de anos para ser a única espécie capaz de viver em qualquer lugar e se alimentar de forma profusamente diversificada, para sermos humanos em toda a nossa potência?

A boa notícia é que é possível colocar a mão na massa para substituir com ação concreta a noção de que não temos jeito como espécie, atuando para alimentar a melhor potência que há em nós, como na Fábula dos Dois Lobos. Essa possibilidade chama-se EDUCAÇÃO, cuja potência é modular as nossas áreas cerebrais relacionadas ao nosso comportamento.

O trabalho é intenso e cotidiano, uma vez que é preciso cuidados, ambiente e ambiência para que nossos mais primitivos e autocentrados instintos de sobrevivência, constituídos há milhões de anos – que nos levam aos bunkers e o autismo viajante tão bem descrito por Drumond – possam ceder lugar para um comportamento alinhado com o respeito à diversidade, a coexistência e  a habilidade de pensar e propor soluções criativas e benéficas para todas as vidas no planeta – para mudar o planeta para melhor ao invés de naufragar nele ou ser “mão de obra” para preparar a rampa de lançamento para que 0,00001% da população mundial possa habitar outro.

As pegadas trazidas pelas neurociências revelam o que há de muito humano em nós: um cérebro que evoluiu com foco em nossa sobrevivência, mas também programado para a conexão social e o altruísmo, que mantemos e cuja estrutura é semelhante em outros animais, para uma estrutura sofisticada com o surgimento do córtex pré-frontal, capaz de mediar com temperança nossas interações no mundo. Maaaaassssss, como bem mostra a neurocientista brasileira Suzana Herculano, que foi a responsável pela descoberta de que temos 86 bilhões de neurônios, “nascemos aptos para quase tudo e bons em quase nada”.

Veja que magnífico, veja que espanto é a vida: já nas primeiras 16 semanas de vida intrauterina ganhamos nossos 86 bilhões de neurônios. É certo que teremos toda a vida para lapidar o cérebro, mas os primeiros anos de vida são fundamentais, porque é quando ocorre o grande crescimento das áreas corticais: nossas experiências vão moldando o nosso cérebro.

É vital destacar que não somos um lego, ou somos legos visceralmente conectados: cérebro e corpo são organismos indissociáveis, como bem descreve o neurocientista Antonio Damasio em seu livro “O erro de Descartes”, no qual demonstra por meio de estudos aprofundados que a “emoção é um componente integral da maquinaria da razão”.

Somos razão e emoção numa biologia intrincada e interconectada. “…o amor, o ódio e a angústia, as qualidades de bondade e crueldade, a solução planificada de um problema científico ou a criação de um novo artefato, todos eles têm por base os acontecimentos neurais que ocorrem dentro de um cérebro, desde que esse cérebro tenha estado e esteja nesse momento interagindo com o seu corpo. A alma respira através do corpo, e o sofrimento, quer comece no corpo ou numa imagem mental, acontece na carne”.

Pesquisas revelam que somos naturalmente programados para as ligações sociais e que “nosso cérebro adora ativar a rede para pensamento social toda vez que não há nada nos forçando a pensar em outra coisa”, como diz o psicólogo Mathew Lieberman, considerado um dos fundadores da neurociência social. E o amor, quem diria!!!!, é essencial para a educação de humanos, afirma a neurocientista Adele Diamond. Eu diria: para fazermos a passagem de seres vivos para seres humanos.

“Eu temo que as atividades necessárias para o sucesso das crianças estão sendo tiradas dos currículos escolares. Há muitas habilidades que as crianças precisam desenvolver para serem felizes e bem sucedidas na vida. Isso inclui gentileza e compaixão, honestidade e confiança, curiosidade e senso de admiração.  Algumas habilidades mais importantes para a felicidade e para o sucesso na vida e na escola são: a capacidade de manter o foco e prestar atenção, a capacidade de aguardar o resultado e manter o curso, a capacidade de resistir às tentações e de não agir impulsivamente e o controle para não meter os pés pelas mãos; raciocínio, lidar com ideias e dados mentalmente, resolução criativa de problemas – pensar fora da caixa, capacidade de usar o acaso a seu favor, a flexibilidade de se ajustar às demandas e prioridades.” – Adele Diamond.

Será nossa experiência de vida, na vida, o ambiente e nossas experiências humanas, sensoriais e corporais que nos garantirá o brevê para pilotar nossa existência no mundo de forma equilibrada, jamais resignadas(os), jamais submetida(os), jamais conformadas(os). Afinal, ora!!!, como escreveu Quintana:

“Se as coisas são inatingíveis …ora!

Não é motivo para não quere-las…

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas”

Há um potencial imenso em pensar educação a partir dos dados trazidos pelas neurociências, oferecendo desde os primeiros anos de vida as interações e experiências que dialoguem com esses achados e transformem capacidade em habilidade. É preciso que a os processos educacionais sejam hábeis em acionar nosso cérebro social, no miudinho do currículo escolar, pois o ambiente marca intensamente como as redes neurais irão interagir.

A apropriação de todo este conhecimento passa, inequivocamente, pela formação inicial e continuada de profissionais da educação, quer atuem na gestão, na sala de aula e na biblioteca, certamente, que é a grande aliada do projeto pedagógico da escola. Para isso é vital que as instituições que formam profissionais da educação e da biblioteconomia revisitem seus currículos, que o currículo das escolas e as práticas pedagógicas dialoguem com os saberes trazidos pelas neurociências.

Para fincar os alicerces da educação que se quer, democrática e acessível a todas e todos, é preciso recursos e compromisso, que é da ordem da política pública. Neste sentido, é igualmente preciso dar efetividade à mais recente vitória obtida para assegurar educação integral de qualidade no Brasil, com bibliotecas vivas e pulsantes em todas as escolas: a aprovação do novo Fundeb, ampliando a participação da União na composição do Fundo e assegurando mais apoio aos municípios mais pobres.

Esta conquista mobilizada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, principal articulador junto ao legislativo, seguirá para aprovação no Senado e posterior aprovação presidencial. É hora de acompanhar pelas mídias e redes sociais os novos movimentos e apoiar a mobilização da Campanha para garantir sua aprovação.

Que sejamos capazes de pôr de pé uma educação que promova alegria na interação com o conhecimento, que promova a disposição para indagar a vida e se encantar com ela, que potencialize o que há de mais humanitário em nós, que faça de nós seres obsessivos com a apreciação da diversidade, a busca de justiça, a conquista da igualdade, o fim da desigualdade, o cuidado com a natureza da qual somos parte indissociável. Que mantenha nossa indignação em alerta e não consideremos “normal” a construção de bunkers, muros, guetos. Lembrando sempre o que nos ensinou Paulo Freire: “quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é tornar-se opressor”.

Que a ciência e cientistas dialoguem com os saberes ancestrais e os seres humanos que os portam e transmitem oralmente há séculos – a fábula dos dois lobos já dialoga intensamente com o que nos revela a ciência sobre o que há de mais primitivo e egoísta em nós e nossa capacidade para a comunhão. Porque como nos ensinou Ailton Krenak, o amanhã não está à venda.

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