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Pensar as questões de raça, gênero e classe dentro do campo da educação e da cultura é extremamente importante, uma vez que, esses são campos de formação social e política. O ato de ensinar, a produção artística e outras manifestações podem conter algum tipo de denúncia ou exaltação de situações históricas. Portanto, abordar essas questões torna-se pauta essencial para o desenvolvimento de trabalhos que buscam contemplar a narrativa da diversidade, tanto para corrigir as muitas omissões, como para trazer ao conhecimento essas narrativas.

Quando se fala em cultura e educação, pode-se pensar em um processo de constituição de sentidos, um processo que possibilita acesso a determinado tipo de informação, que talvez o público não receba no seu cotidiano, são propostas simbólicas que promovem pensar a partir das informações que recebem, podendo elaborar o entendimento, isso nada mais é que um processo de mediação para a produção de conhecimento.

Sabendo disso, é de extrema importância contestar algumas formas de mediação de conhecimento que foram constituídas, afinal, em uma sociedade que tem seus valores baseados em uma moral de homens europeus, brancos, cristãos, héteros e cis, todos os corpos que fogem dessa regra tendem a ter suas histórias subjugadas e desvalorizadas. Sendo assim, dentro dessa lógica, durante muito tempo a educação e a cultura foram um espaço de propagação e valorização de um único povo, promovendo o mito da história universal e única da humanidade.

Uma vez constituído esse mito, muitas atrocidades foram permitidas, como bem aponta a escritora Chimamanda Adichie (O Perigo da História Única), a história única é extremamente perigosa, pois fundamenta a construção de preconceitos baseando-os apenas no que se conhece, então não perpetuar uma única narrativa é uma forma de lutar contra preconceitos.

Pensando em propostas teóricas para romper com esse mito da narrativa única, recorro aos estudos do grupo Modernidade/Colonialidade/Decolonialidade (MDC), que conta com autores que apontam para a necessidade de construir uma epistemologia que considere também saberes que estão na dita periferia do capitalismo, as chamadas epistemologias do sul.

Uma linha teórica que pode nos ajudar a pensar e romper com esse mito é a proposta por Anibal Quijano (Colonialidad del poder y clasificación social, 2000), que trabalha com os conceitos de colonialidade do poder, colonialidade do saber e colonialidade do ser.

A colonialidade apresenta um elemento material de exploração, mas também uma formatação ideacional e identitária. Pode-se dizer que a colonialidade é uma prática que sobrevive mesmo quando não há mais uma relação político-econômica entre colonizador e ex-colônia, a colonialidade pode existir sem o colonialismo, através de uma imposição que se desdobra nas relações de aprendizagem, no senso comum e na autoimagem dos povos, ou seja, na educação e na cultura.

Segundo Alê Santos (2007), a colonialidade pode ser comparada a uma monocultura, destrói outros conhecimentos, produz o que ele chama de “epistemicídio”: a morte de conhecimentos alternativos. Reduz realidade porque descredibiliza não somente os conhecimentos alternativos, mas também os povos, os grupos sociais cujas práticas são construídas nesses conhecimentos alternativos. A colonialidade pode, então, ser lida como uma pratica que através da ciência moderna/colonial produziu um modelo único, universal e objetivo, tendo como referência a Europa. 

A ideia presente nesses conceitos trabalha com a identificação de uma construção de dependência dos povos colonizados para com os colonizadores. Mas para os pensadores do MCD, não se trata daquela dependência proposta pelo colonialismo, que se dá muito no campo político e econômico. Trata-se de uma dependência gerada por resquícios coloniais de apagamento da história dos povos originários e dos povos da diáspora, é a constituição de uma superioridade dos colonizadores, representada através do conceito de raça, a partir dessa racialização constitui-se o eurocentrismo que estabelece que tudo que vem da Europa é bom, e deve permanecer, e tudo que não seja europeu deve sumir.

Sendo assim, passam a usar os corpos dos povos originários e afrodiaspóricos como mercadoria e os fazem esquecer todos os seus valores, culturas e identidade. Exercem o poder sobre esses corpos eliminando seus saberes e sua subjetividade, é isso que o MCD chama de colonialidade.

Uma vez identificada a colonialidade, os pensadores desse grupo, baseando-se em estudos da luta anticolonial, que vem de muito antes, vão propor uma maneira de decolonizar os territórios que um dia foram colonizados. E aqui pensar numa proposta decolonial é pensar como propõe Chimamanda Adichie, romper com a história única. Uma luta decolonial é aquela que considera a perspectiva do colonizado, onde o sujeito da opressão se torna o sujeito da narrativa histórica. Dentro dessa perspectiva, acredito ser possível e necessário um giro decolonial dentro do movimento educacional e cultural, e para iniciar esse giro é necessário que esses campos olhem com mais cuidado para as discussões da tríade que fundamenta as opressões no mundo, raça, gênero e classe.

Tendo essa perspectiva no horizonte, é necessário pensar em formas de desconstrução dessa pirâmide de opressões. Porém, só é possível combater um inimigo que se conhece. O passo inicial para essa descoberta é entender os mecanismos de funcionamento dessa tríade. Aqui, aponto para a necessidade de conhecermos bem a estrutura do racismo, dado que a raça foi uma tecnologia usada pelos colonizadores para propagar ideias de dominação.

Raça é uma tecnologia da modernidade que ajuda os corpos normativos a criarem uma narrativa única do que é normal, produzir, reproduzir preconceito e discriminação com o que consideram anormal. Sendo assim, pode-se pensar o racismo como um elemento estrutural, sua existência fundamenta e normatiza interações sociais.

É importante frisar que o racismo não é um inimigo que iremos combater no campo da moralidade, atitudes racistas não partem de uma ação individual, o que não quer dizer que cada indivíduo não deva se responsabilizar e lutar contra o racismo, mas o racismo é um inimigo maior, que deve ter suas práticas e suas raízes analisadas dentro de um contexto social. Isso nos leva a responsabilização com uma luta que estabelece uma crítica a sociedade, ser antirracista é estar o tempo todo destruindo o pacto da branquitude que estabelece para si uma universalidade e os coloca como donos da história e do conhecimento.

Neste sentido, Djamila Ribeiro (Pequeno manual antirracista, 2019) explica que “é importante que para pensar soluções para uma realidade, devemos tira-la da invisibilidade. Portanto frases como “eu não vejo cor” não ajudam. O problema não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não há nada de errado nisso – se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude”.

O racismo, portanto, nada mais é que uma estrutura marcada por relações sociais onde o critério raça é o elemento hierarquizante de posições dentro da sociedade. Além da raça, existem outros elementos hierarquizantes e que merecem ser avaliados. É sempre importante nessas discussões apontar que geralmente quando esses elementos se interseccionam as opressões se tornam mais graves, o que faz com que uma pessoa não seja mais somente vítima de preconceito, mas sim de discriminação.

Por exemplo, uma pessoa negra que se identifica com o gênero feminino dentro dessa hierarquização social pode ser considerada como base da pirâmide social, o que a torna essencial para o funcionamento dessa sociedade, porém, o fato de ser essencial não a valoriza, essa mulher negra é quem mais irá sofrer por conta de seus marcadores.

Mulheres negras são as principais figuras no que diz respeito a sustento de um lar quando estão na classe pobre, são também as que mais sofrem com violência familiar. A identidade feminina as torna suscetíveis a mais trabalho e mais violência. Mesmo sendo muitas vezes chefes da família acabam subjugadas pelo seu gênero. E um aspecto importante de se observar na intersecção entre gênero e raça é que muitas vezes ela irá definir a classe que essa pessoa se encontra.

O racismo estruturou a sociedade para entender e ligar o negro sempre a pobreza, então quando você fala de uma mulher negra, automaticamente nossa sociedade irá identificá-la como pobre, e é por isso que o debate de raça, gênero e classe não se separam e são essenciais para se pensar uma proposta de educação e cultura decolonial. Para uma mulher que sofre muitas opressões, se ela for negra sofrerá as opressões de gênero, mais as de raça, e mesmo quando ela supera as expectativas de classe e ascende socialmente, o olhar racista sempre irá identificá-la com a pobreza.

O caso da empresária Lorena Viera é emblemático para exemplificar a discussão. Para quem não lembra, ou não conhece a história, Lorena é uma mulher preta e empresária que foi destratada em um banco quando tentava sacar da sua própria conta a quantia de 1.500 reais, ela ficou presa na agencia até o seu fechamento, e os funcionários do banco alegaram estar resolvendo o problema, de fato tomaram uma decisão, chamaram a polícia sem uma explicação plausível do porquê daquela ação.

Esse caso traz vários elementos que ilustram o porquê da importância de se discutir sobre raça, gênero e classe. O primeiro elemento que pode ser analisado é o da opressão de gênero. Mesmo Lorena sendo empresária, a maioria das matérias de jornais que divulgaram a violência por ela sofrida sempre a colocava na posição de mulher submissa, sempre era tratada como a esposa do também empresário Renan da Penha.

Depois o segundo elemento está atrelado ao racismo que se desdobrou em violência policial e que culminou também em um preconceito de classe, pois uma mulher preta não teria condições de sacar determinada quantia, já que tais valores não combinam com a classe a que eles, os funcionários dos bancos, através de marcadores sociais, determinam que ela faz parte. Tudo isso acontece porque o marcador raça, que é o principal elemento para permissividade da violência, está presente, mas os requintes de crueldade observados nessa ação são possíveis por conta da intersecção de gênero e classe que também estão presentes.

A partir do exemplo apresentado anteriormente e dos diversos que surgem no cotidiano, ressalto que se faz necessário um combate real das opressões sociais quando entendermos que são as estruturas construídas em cima da ideia de raça que devem ser implodidas, portanto essa implosão se estende as diversas narrativas construídas na história da nossa educação e da cultura brasileira e mundial.

Portanto, a contribuição da educação e da cultura para essa discussão passa por repensar seu lugar de privilégio, pensar o porquê de não estar abordando esses temas e propondo esse debate mais a fundo. Essa discussão passa pela decolonialidade do saber, é preciso decolonizar nossa educação e nossa cultura, pois, infelizmente, elas têm como base a cultura branca eurocêntrica. O processo se inicia por um reconhecimento das estruturas de opressão e como os ditos normais têm se beneficiado, mesmo que inconscientemente delas.

Feito isso, não basta só reconhecimento, é preciso ação; portanto, que não tenham medo de se reconhecerem racistas, sexistas e classistas. O medo os paralisam, faz com que não queiram discutir a questão, o medo incorre no chamado politicamente correto, você só toma uma postura para preservar sua imagem, vale ressaltar também que não adianta tratar a discussão no campo da culpa, essa é uma cilada, pois muitas vezes você se propõe a fazer algo, mas não é porque está preocupado com o problema, mas sim com sua situação de não conseguir viver com essa culpa, ou seja, parte de um processo narcísico para expurgar sua culpa e proteger a si mesmo.

Acredito em uma mudança quando os privilegiados sentem vergonha de conviver com tantas opressões, a vergonha é um sentimento de incomodo que te mobiliza para uma mudança real, o constrangimento é educador, portanto, sintam vergonha dessa sociedade desigual e opressora, e façam alguma coisa para mudar isso. Promovam em si o exercício de pensar de forma decolonial, aprendam a romper a caixa do mito da história única, diferentes sim, porém sem ser desiguais.

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