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Odeio autor desconhecido. Odeio mesmo. Não estou me referindo àquele desconhecido porque a mídia e o mercado editorial não o viram ou não querem vê-lo. Não é esse desconhecido que é objeto da minha crônica ferina e, quem sabe, ferida. Odeio o desconhecido que tenta manter-se desconhecido a qualquer custo. Que não se compromete com o que escreve, seja poesia barata, seja crônica infeliz de autoajuda, seja um relato de uma mente que se pretende espiritualizada, seja o diabo. Odeio esse autor que, para ter um texto lido pela grande massa incapaz de pesquisar origens, usa criminosamente o nome de outro autor famoso. E o texto ganha dimensões, se agiganta, se desdobra e passa a frequentar inclusive escolas, num desserviço ao pensamento reflexivo.

Odeio esse imbecil que não se apresenta com autoridade. Que promove a deturpação da literatura, ainda que eu não concorde com os termos “alta” e “baixa” literatura. Estou falando de valores ou contra-valores disseminados num ingênuo texto anônimo que recebe a patente de autores consagrados. Infelizmente poucos leitores têm a competência para perceber que há algo de muito errôneo no estilo desses textos, não combinando absolutamente com sua “falsa” autoria. De repente, vejo uma Clarice Lispector dando conselhos chulos para os amantes, apresentando-se como uma alma caridosa, religiosa ao extremo, piegas, coisa que nada tem a ver com a grandeza dela. Do mesmo modo, vejo Shakespeare falando como ser feliz, como amar e transcender, como ser paspalhão em nome do amor. Ainda vejo um Drummond tão meloso, dando conselhos moralizantes para a felicidade geral da nação (danação) neoleitora. Vejo Bob Marley falando de vida como se fora um adolescente. Vejo, igualmente, um Mário Quintana quase como um pregador das verdades celestes dizendo o que devemos ou não fazer para ganhar a vida eterna. Vejo Sócrates, Platão e Aristóteles – meu pai – dizendo frase tão ao gosto da contemporaneidade que mais parecem idiotas falando de sentimentos (aliás, a palavra idiota deriva do grego idiotés, que nada mais era que aquele que se preocupava com suas próprias coisas, ou seja, alguém que estava na esfera do privado, por oposição ao polités, aquele que contribuía para o todo). O autor desconhecido é o idiota no sentido pejorativo, aquele que se mantém no privado (ou na privada) como pessoa, mas exibe seu texto de mau gosto usando como marca um autor conhecido.

Odeio esse autor desconhecido porque ele é covarde e não assume sua condição de autor desconhecido; porque quer a qualquer preço (a custo da desonra alheia) disseminar suas convicções, obrigando os outros a ler seus textos, confundindo aqueles que não tiveram ainda o acesso a uma literatura de qualidade. Odeio esse autor desconhecido porque é desonesto, egocêntrico e virulento (nem vou explicar esses adjetivos todos). Repito, o autor desconhecido usa os nomes dos autores conhecidos, geralmente mortos, que não podem defender-se da calúnia de textos mal escritos, mal digeridos, mal intencionados. Psicologia barata para quem não pode pagar psicólogo. Ou então poesia inútil, que não chega ao inferno nem sobe aos céus, simplesmente porque não tem asas nem pernas.

Sou a favor da democracia, inclusive na escrita e na leitura. Escrevam e leiam o que quiserem, mas sou terminantemente contra o roubo do nome alheio em busca de uma promoção. Os escritores e poetas difamados devem se remoer na sua tumba e, como não podem voltar para punir o autor desconhecido, devem esperá-los não sei onde para o ajuste de contas. Ainda tem um tal de “autor anônimo” obscurecido propositalmente para ficar no limbo da segurança, enquanto destila seu venenoso palavrório. “Ah, mas existem qualidades em alguns desses textos” – você pode me dizer. Tudo bem, não queimo todos, mas que sejam lidos com desconfiança, não como certezas; que sejam lidos no justíssimo lugar deles: a zona desconhecida, o anonimato proposital, o problemático limbo dos inconsequentes. A senda dos sem coragem de assumir o que escrevem, sejam textos bons ou ruins.

Disse que odeio o autor desconhecido que usa máscara de um conhecido. Odeio, mas não vou lutar para que ele seja disseminado. Não. Apenas vou estudar literatura, ler os autores nos seus devidos lugares, o livro, para não aceitar seu usado por gente inescrupulosa que não assume o que escreve.

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Comentários

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2 Comentários

  1. 21 de fevereiro de 2013 a 16:16 —

    Excelente! Juro que bateu uma inveja saudável no meu peito!

  2. 24 de fevereiro de 2013 a 18:45 —

    Que é isso, Agulha, seus textos são um primor, ironia fina e ótimas sacadas, num tom bem leve! a recíproca é verdadeira, caríssimo colega.

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