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Eduardo Galeano. Foto: Hanna Gledyz / veiasabertas.com
Eduardo Galeano. Foto: Hanna Gledyz / veiasabertas.com

Na manhã desta segunda-feira treze recebo uma notícia pelo WhatsApp que me deixou muito triste, o falecimento de Eduardo Galeano. Assim sem mais nem menos, a morte chega e leva embora mais um dos grandes escritores latino-americano. Após conferir a notícia do falecimento de Galeano os versos da canção “Love In The Afternoon” de Renato Russo vieram à minha mente: “É tão estranho, os bons morrem antes, me lembro de você e de tanta gente que se foi cedo demais!”.

Meu primeiro contato com a obra de Eduardo Galeano foi quando ainda estava me preparando para o vestibular. Por indicação de um professor fui ler o livro: “As veias abertas da América Latina”. Comprei a obra em um sebo de Niterói e a cada capítulo fui me apaixonando pela forma como Galeano escreve e apresenta suas críticas a um sistema injusto que massacra os que “sobram”. Para quem tem interesse em conhecer mais a respeito da exploração econômica e política da América Latina a leitura dessa obra é fundamental.

Outro livro de Eduardo Galeano que me tocou muito foi o “Livro dos abraços”, histórias curtas com visões do autor a respeito de temas diversos e com críticas à sociedade capitalista moderna.

A partir disso, a obra de Galeano influenciou e sempre me serviu de inspiração a ponto de juntamente com a equipe da Revista Biblioo criarmos o site Veias Abertas (nome inspirado na obra do referido autor).

No ano passado tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente Eduardo Galeano em sua passagem pelo Brasil para divulgação do seu livro mais recente “Os filhos dos dias”. Um livro em formato de calendário em que cada dia nasce uma história porque na visão de Galeano cada pessoa é feita de átomos, mas também de histórias. Fomos fazer a cobertura da palestra de Galeano realizada em abril de 2014 na PUC-RIO. Tentamos, mas infelizmente não conseguimos gravar uma entrevista com ele. Conseguimos cobrir o evento que está disponível em vídeo no Veias Abertas.

Hoje o mundo fica mais triste, mas o legado de Galeano continua vivo e porque não dizer atual e crítico. A sua obra pode ser considerada uma memória viva dos condenados ao esquecimento e “invisíveis” que são descartados pelo sistema capitalista.

Para finalizar, obrigado por tudo Eduardo Galeano, a história continua e as veias da América Latina continuam abertas e ainda não foram saradas:

“Carolina Maria de Jesus nasceu no meio da sujeira e dos urubus.

Cresceu, sofreu, trabalhou duro; amou homens, teve filhos. Num livrinho, anotava com letra ruim suas tarefas e seus dias.

Um jornalista leu esses livros por acaso e Carolina Maria de Jesus converteu-se numa escritora famosa. Seu livro Quarto de Despejo, diário de cinco anos de vida num sórdido subúrbio da cidade de São Paulo, foi lido em quarenta países e traduzido para treze idiomas.

Cinderela do Brasil, produto do consumo mundial, Carolina Maria de Jesus saiu da favela, correu o mundo, foi entrevistada e fotografada, premiada pelos críticos, agasalhada pelos cavalheiros e recebida por presidentes.

Passaram-se os anos. No início de 1977, numa madrugada de domingo, Carolina Maria de Jesus morreu em meio ao lixo e aos urubus. Ninguém lembrava da mulher que escrevera: “A fome é a dinamite do corpo humano”.

Ela, que havia vivido de restos, pode ser, fugazmente, uma eleita. Foi permitido a ela sentar-se à mesa. Depois da sobremesa, rompeu-se o encanto. Enquanto seu sonho transcorria, o Brasil continuava sendo um país onde a cada dia, 100 trabalhadores ficam lesados por acidentes de trabalho e onde quatro de cada dez crianças que nascem, são obrigadas a converterem-se em mendigos, ladrões ou mágicos.

Ainda que as estatísticas sorriam, as pessoas estão arruinadas. Em sistemas organizados ao contrário, quando a economia cresce, cresce com ela a injustiça social. No período de maior êxito do “milagre” brasileiro, aumentou a taxa de mortalidade infantil nos subúrbios da cidade mais rica do país. A súbita prosperidade do petróleo no Equador trouxe a televisão a cores em vez de escolas e hospitais.

As cidades vão inchando até explodirem. Em 1950, a América Latina tinha seis cidades com mais de um milhão de habitantes. Em 1980, terá vinte e cinco. As vastas legiões de trabalhadores que o campo expulsa, compartilham, nas margens dos grandes centros urbanos, a mesma sorte que o sistema reserva aos jovens cidadãos que “sobram”. Aperfeiçoar-se – velhacaria latino-americana – as formas de sobrevivência dos caça-vidas. “O sistema produtivo vem mostrando uma visível insuficiência para gerar emprego produtivo que absorva a crescente força de trabalho da região, especialmente dos grandes contingentes de mão-de-obra urbana…” (Organizações das Nações Unidas, CEPAL).

Um estudo da Organização Mundial do Trabalho assinalava, faz pouco tempo, que na América Latina existem mais de 110 milhões de pessoas em condições de “grave pobreza”. Delas, setenta milhões podem ser consideradas “indigentes”. Qual é a porcentagem da população que come menos do necessário? Na linguagem dos técnicos, aqueles que tem, “orçamento inferior ao custo da alimentação mínima equilibrada”, são 43% dos colombianos, 42% da população brasileira, 49% da de Honduras, 31% dos mexicanos, 45% dos peruanos, 29% dos chilenos, 35% dos equatorianos.

Como afogar explosões de rebelião das grandes maiorias condenadas? Como prevenir essas possíveis explosões? Como evitar que essas maiorias sejam cada vez mais amplas se o sistema não funciona para eles? Excluindo-se a caridade, sobra a polícia”.

(GALEANO, Eduardo. A veias abertas da América Latina. 36 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1994, p. 302-304).

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