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Quando era estagiária, ainda nos tempos de estudante de biblioteconomia, a bibliotecária Nathalice Cardoso ligava para a sua mãe, a também bibliotecária Maria Nilce, e lhe pedia ajuda sempre que tinha alguma dúvida relacionada ao seu trabalho. “Muitas vezes a minha equipe de trabalho não imaginava como eu sabia tudo aquilo se eu nem no meio da graduação estava. Até que um dia eles descobriram que minha mãe também era bibliotecária [risos]”, relembra Nathalice que tem outras duas tias bibliotecárias, Maria Neile e Maria Neise.

Apaixonada pela natureza, a biblioteconomia acabou se tornando uma das opções para Nathalice à época do ENEM. “Realmente é difícil saber o que se quer para a vida toda nessa etapa da vida. Como realmente estava na dúvida eu fiz o lógico: na UNIRIO eu coloquei biblioteconomia e na UFRJ eu coloquei biologia”, diz ela que foi aprovada em 2004 na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Quando era criança, Nathalice ficava na casa da sua avó, Dona Amélia, depois que voltava da escola para que sua mãe pudesse trabalhar. “As duas coisas que eu mais gostava, quando não estava na escola brincando com outras crianças, era ouvir a minha avó Amélia contar histórias e ouvir o meu pai tocar violão”. Quando a Dona Amélia não podia ficar com ela a mesma ia para o trabalho da mãe, que nessa época já trabalhava na UFRJ.

Nathalice, ainda bebê, no colo da mãe Nilce. Fotos: arquivo de

“Algumas vezes minha avó não podia ficar comigo e várias vezes eu ia para o trabalho da minha mãe até chegar a hora de ir para casa. Na época minha mãe trabalhava na biblioteca da UFRJ, na Urca. Muitos de vocês, que estão lendo agora, devem conhece-la. Minha mãe sempre foi apaixonada pelo trabalho e lembro muito bem que sempre que uma nova biblioteca precisava ser inaugurada ela era convidada para participar do planejamento e da organização da biblioteca”, orgulha-se.

Nessas suas estadias em bibliotecas (pois sua mãe trabalhou em várias unidades da UFRJ), Nathalice passou a sentir a paixão de Maria Nilce pela profissão, não só em função do seu trabalho propriamente dito, mas também porque sua satisfação se estendia ao lar, uma vez que a atividade como bibliotecária garantia boa parte  da renda da família.

O fato da mãe e das tias serem bibliotecárias, além do hábito de leitura com a avó, parece ter sido determinante na escolha profissional de Nathalice, a jugar pelo acesso escasso que ela teve às bibliotecas durante a infância. Ela lembra que embora tenha estudado numa das melhores escolas públicas da cidade, o Colégio Municipal Minas Gerais, localizado na Urca, Zona Sul do Rio, não tinha biblioteca.

“Existia na escola apenas uma sala de leitura que os alunos tinham medo de frequentar porque os professores costumavam colocar os alunos de castigo lendo livros. Nessa época eu não tinha ideia, mas já vivenciava alguns dos problemas da nossa área”, lamenta a bibliotecária, lembrando que o que salvava eram as atividades na biblioteca infantil da UNIRIO, que ficava logo em frente, “que eram mais interessantes, lúdicas e convidativas.”

Seguindo os caminhos da mãe?

Maria Nilce, a mãe, por sua vez, não acredita que tenha exercido influência sobre a escolha profissional da filha. Ela explica que Nathalice sempre foi muito indecisa sobre que profissão seguir, mas por fim acabou, para a sua surpresa, escolhendo a biblioteconomia. “Foi uma surpresa, pois eu nunca falei para ela se inscrever em biblioteconomia e inclusive eu tinha dado várias sugestões como odontologia, fisioterapia e nutrição, mas ela não aceitou nenhuma”, relembra.

Nathalice Cardoso, a bibliotecária que estudou a relação entre bibliotecas, sustentabilidade e meio ambiente. Foto: arquivo pessoal

Nilce chegou ao Rio, vinda do Ceará, sua terra natal, no final dos anos 70, já formada em biblioteconomia na Universidade Federal do Ceará (UFC), carreira que escolheu por opção. Na cidade maravilhosa acumulou muitas experiências profissionais, tendo passado pela Biblioteca Nacional (BN), Real Gabinete Português de Leitura e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde trabalhou por 28 anos.

“Quando cheguei no Rio de Janeiro o curso de biblioteconomia ainda funcionava nos porões da Biblioteca Nacional. Quem me ajudou muito, no começo da minha carreira, foi o Mário Luz na seção de referência e a Nazaré Montojos na seção de catalogação da BN. Eu trabalhava com ela em projetos do Instituto Nacional do Livro. No começo eu não sabia nem se um livro estava de cabeça pra baixo porque eu era tão leiga, mas a Nazaré foi uma ótima professora”, destaca.

No serviço de referência da Biblioteca Nacional não tinha computador, relembra Nilce. Nessa época os pedidos eram feitos por cartas vindas de vários lugares do Brasil. “Quando eu encontrava uma ficha escrito ‘Porto’, no local de publicação, eu pegava e completava para ‘Porto Alegre’ porque eu não sabia que ‘Porto’ era de Portugal, então eu completava [risos]. Depois tive que refazer tudo. Coisa de iniciante”, recorda com bom humor.

Apaixonada pela profissão, Nilce lembra que à época o curso de biblioteconomia da UFC, que ainda não era reconhecido pelo MEC (o que aconteceria somente em 1973), era uns dos melhores, ofertando, por exemplo, disciplinas como filosofia, sociologia, história da arte além das especificas da área. “A matéria que ensinava a fazer layout de biblioteca também era muito interessante”, diz.

Maria Nilce trabalhou por 28 na UFRJ. Foto: arquivo pessoal

As dificuldades da sua época foram superadas em grande parte com o advento do Internet e da automação, acredita Nilce. “Imagina se o atendimento hoje ainda fosse feito através de cartas?”, indaga. “Na minha época você tinha que pesquisar nos livros ‘Who is Who’ que quer dizer ‘quem é quem’. As pesquisas eram muito difíceis e hoje tudo é mais fácil”, destaca. Mas para ela, não basta tecnologia à disposição para ser um bom bibliotecário ou uma boa bibliotecária, é importante também gostar de ajudar as pessoas e de ensinar. “Se não gostar de lidar com pessoas e atender ao público fica complicado”, alerta.

De volta à Nathalice

A trajetória de Nathalice não foi muito diferente da da mãe. Na época da graduação, ela fez estágio em vários lugares como Clinica São Vicente, Biblioteca Nacional, Petrobrás e Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). “Todas essas experiências foram essenciais para descobrir o que realmente eu mais gostava na ‘biblio’. Nessa época de estágio é muito engraçado, né? Você vai para as famosas chopadas e todo mundo sempre vem com aquela pergunta: ‘Você estuda o que?’ ‘Biblioteconomia!’. ‘Ecomonomia?’ ‘Não! Biblioteconomia!’. ‘Biologia?’ ‘Não! Biblio-teco-nomia!’. ‘Ah! Não sabia que tinha faculdade disso. O que você estuda? Como guardar livros na estante?'”, se ressente.

“Realmente depois dessa pergunta você para, pensa e dá uma vontade de desistir, mas você respira fundo e lembra do nosso papel social que é fundamental para a sociedade. Muitas das vezes a pessoa que te pergunta isso teve o mesmo problema que você na escola e não teve acesso a uma biblioteca. As vezes fico imaginando como poderia ter sido diferente a vida de vários amigos meus do colégio público se tivessem frequentado uma biblioteca com um bibliotecário e não uma sala de leitura para castigo”, sonha.

Mesmo tendo optado pela biblioteconomia, Nathalice não esqueceu da sua antiga paixão, a natureza, começando ainda na graduação um processo de aproximação da sua atual carreira com os temas de meio ambiente e da sustentabilidade. Quando se formou, ela foi contratada pelo Funbio, onde teve uma aproximação ainda maior com a área ambiental.

“Para aprofundar meus conhecimentos, eu fiz especialização em gestão ambiental no PNUMA/UFRJ e depois fiz o mestrado profissional em biblioteconomia na UNIRIO. Hoje faço parte do Grupo de Pesquisa Bibliotecas Públicas da UNIRIO e do Grupo de Trabalho da FEBAB de Bibliotecas Públicas, além de trabalhar numa biblioteca especializada em ciências navais”, orgulha-se ela que atualmente desenvolve pesquisa na área de desenvolvimento sustentável em bibliotecas.

A mãe também avalia os caminhos profissionais seguidos por Nathalice como sendo positivos. “A área que ela escolheu é muito importante para o futuro da humanidade, pois o meio ambiente e a sustentabilidade são fundamentais para que as próximas gerações tenham uma boa qualidade de vida. A biblioteconomia não pode deixar de lado essas discussões e hoje fico muito orgulhosa quando vejo que alunos de graduação e metrado estão citando seus trabalhos, não só no Brasil, mas também pesquisadores de outros países”, orgulha-se.

Se Nathalice alguma vez teve vontade de desistir? “Sim, com certeza. Principalmente nos primeiros semestres introdutórios. Foi realmente chato, mas depois que eu consegui o meu primeiro estágio na Embrapa Solos e comecei a aplicar a teoria na prática, com a ajuda da minha primeira chefe, Claudia De Laia, tive a certeza que era isso que queria pra minha vida. Outros fatores que me ajudaram a não desistir foram: a Elisa Machado ter me aceitado como orientanda, os 14 encontros de estudantes de biblioteconomia que participei, além da existência do Marcinho do cachorro-quente. Toda vez que a aula estava chata ou quando ficava em dúvida se realmente era isso que eu queria passava lá para comer, beber e trocar uma ideia com ele. Marciologia faz parte da minha trajetória”, lembra com saudades.

Nathalice e Nilce, companheiras na vida e na profissão. Foto: arquivo pessoal

“Com certeza a biblioteconomia é uma ótima profissão porque as bibliotecas são necessárias em todos os lugares. Ampliando mais o conhecimento de vocês na nossa área, vocês irão perceber que o bibliotecário pode estar em qualquer lugar que se trabalhe com a informação e não necessariamente na biblioteca, ou seja, as opções são diversas tanto para quem quer trabalhar na área privada como na esfera pública”, aconselha.

“A realidade de hoje é que estamos em um momento delicado no país e com certeza será difícil para qualquer área e não somente para a biblioteconomia”, avalia Nathalice. “Por esse motivo é que temos que nos unir e procurar ampliar o nosso trabalho ainda mais para ajudar a atender as pessoas que realmente precisam da informação e que dependem dela para ter uma melhor qualidade de vida”, projeta.

“E se a minha mãe não fosse bibliotecária eu teria chegado até aqui?”, questiona-se, respondendo em seguida: “Provavelmente não!”. “Eu gostaria de agradecer a minha mãe por tudo que ela fez por mim. Você é uma guerreira e sempre fez o possível e o impossível para que não faltasse nada para a gente além de sempre me apoiar em tudo e me incentivar a ser uma mulher independente. Te amo demais da conta! Obrigada também por sua dedicação à biblioteconomia e tenho certeza que o seu trabalho ajudou muito no desenvolvimento da ciência dentro da UFRJ. Você sempre foi um exemplo de profissional para mim e se não fosse por você eu não chegaria aonde cheguei. Se dependesse da escola eu não teria vivenciado o espaço da biblioteca e com certeza não seria bibliotecária”, pondera.

“Poderia ser uma dentista, fisioterapeuta ou nutricionista como a minha mãe sugeriu, mas com certeza não seria feliz como sou hoje. Nada contra essas profissões, muito pelo contrário pois são importantíssimas. De certa forma eu prefiro trabalhar com a mente do que com o corpo. Organizar e dar acesso a informação para pessoa certa, no momento certo, poder para mudar o rumo da ciência e da vida de uma pessoa que realmente precisa. Nós bibliotecários somos agentes de transformação social. Nunca se esqueçam da importância da nossa profissão”, finaliza.

E se a filha sente orgulho da mãe, o que dirá da mãe em relação à filha. “Minha filha é maravilhosa além de ser uma profissional dedicada, estudiosa e uma pesquisadora com visão de futuro”, destaca.

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