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A Biblioteca de Foucault já nasce como uma obra de referência, título indispensável para um novo entendimento da Biblioteconomia no Brasil. A imagem da biblioteca como lugar de silêncio, pontualidade e quietude pode parecer inquestionável, quase autoevidente. Mas, como foi demonstrado por Michel Foucault, toda atividade que faça a mediação entre saberes e sujeitos guarda atrás de si um sistema de relações de poder responsável por determinar a sua dinâmica.

O livro escancara as ambições de controle que animam parte da biblioteconomia tradicional: estabelecer quais livros merecem constar do cânone, que leitores podem ter acesso a eles, como as obras precisam ser lidas. Mas a revelação desse sistema não é em nada alarmista. Conhecer o dinamismo que subjaz à prática biblioteconômica implica, antes, assumir o compromisso ético-estético-político de tornar as bibliotecas espaços acessíveis, inclusivos, acolhedores, pluralistas, construtivos.

Daí o livro constituir-se de “reflexões sobre ética, poder e informação” ou, mais concretamente, de 22 crônicas-manifestos que a um só tempo radiografam a condição da leitura e dos livros no Brasil atual e propõem medidas para enriquecer a produção e a disseminação de informação no país. A autoria de tais provocações é do bibliotecário Cristian Brayner, mestre em Biblioteconomia, doutor em Literatura, pós-doutorado em História e ex-diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura.

Os capítulos da obra – à exceção do primeiro, que consiste em uma entrevista – têm seus assuntos-chave revelados já pelos títulos: liberdade, poder, neutralidade, cooperação, opressão, violência, ética, luta, felicidade, amargura, celebração, medo, beleza, coragem, ignorância, caráter, verdade, gratidão, respeito, progresso, empatia. Trata-se da adaptação de palestras, artigos e discursos recentes do autor, incrementados por alguns escritos inéditos.

Se os temas parecem inesperadamente abstratos para um livro de ciência da informação, este espanto prova o êxito de uma das primeiras intenções de Brayner: colocar sob suspeita a premissa de que a biblioteconomia pode ser praticada como pura técnica, sem nenhum diálogo com a teoria social. A desmitificação mais urgente a se empreender é a do pressuposto segundo o qual a biblioteca é um lugar neutro.

Bem ao contrário, a seleção e a disposição do acervo, a atitude dos bibliotecários ante os leitores, a aparência dos prédios e do mobiliário, todos esses elementos submetem os profissionais da informação ao constante risco de se portarem como censores. Ao mesmo tempo, a função concede a tais trabalhadores a oportunidade de serem disseminadores dos saberes plurais, e situa as instituições da cultura na posição estratégica de subversoras da ordem estabelecida, com as exclusões sistêmicas que esta institui e fomenta.

Cristian Brayner acredita no poder da leitura tradicional de libertar dos preconceitos. Ele reitera aquele clamor de Edson Nery da Fonseca – um dos fundadores da biblioteconomia no Brasil – para que houvesse “bibliotecários pós-graduados”, isto é, bem instruídos e de aguçada consciência crítica. Além de estar ele próprio entre os profissionais desse tipo (o que se reflete na erudição e beleza de sua prosa), Cristian atenta às implicações desse ideal: conclama por seu turno que os profissionais da informação se encarem como praticantes de uma vocação, mais que de um ofício.

Vocação, diga-se de passagem, nem um pouco trivial: trata-se de mediar a sociedade e o conhecimento considerado canônico. O uso eticamente adequado desse poder consistirá em diversificar tanto um polo como o outro, e em tornar as bibliotecas algo mais do que locais de consumo e adestramento: fazê-las locais de encontro, descobertas, invenção. Locais que enriqueçam a formação dos sujeitos que compõem a democracia, num movimento inverso ao da burocracia, cuja natureza é bloquear o avanço democrático.

Em plena era da informação, não é exagero dizer que o direito ao uso das bibliotecas integra o direito à cidadania; por outro lado, as bibliotecas não podem ignorar que só haverá a demanda por seu uso se elas se mostrarem acolhedoras. Como todas as instituições da sociedade, cada biblioteca é relevante, mas nenhuma é em si indispensável: necessita sempre criar e demonstrar o seu valor. A leitura d’A Biblioteca de Foucault é o início ideal para todos os profissionais empenhados em responder a esse desafio.

Sobre o autor

Cristian Brayner é graduado em Filosofia, Biblioteconomia, Tradução, Direito e Letras (Língua e Literatura Francesas). Venceu, com sua dissertação de mestrado em Ciência da Informação, o Concurso Latino Americano de Investigación em Bibliotecología, Documentación, Archivistica y Museología Fernando Báez (Eudeba, 2008). Ganhou o Prêmio Casa de las Américas com a obra Devotos e Devassos: representação dos padres e beatas na literatura anticlerical brasileira (Edusp, 2014), fruto de seu doutorado em literatura e práticas sociais. Foi bibliotecário do Superior Tribunal de Justiça e diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Ministério da Cultura. Atualmente é bibliotecário da Câmara dos Deputados. Dedica-se ao estudo das políticas públicas de livro, leitura, literatura e bibliotecas.

Ficha técnica do livro

Capa do livro “A Biblioteca de Foucault – Reflexões sobre ética, poder e informação” de Cristian Brayner. Imagem: divulgação

Título: A Biblioteca de Foucault – Reflexões sobre ética, poder e informação

Autor: Cristian Brayner

Prefácios: Marcos Galindo e Aquiles Alencar Brayner

Posfácios: José Fernando Modesto da Silva e João Cezar de Castro Rocha

Coleção: Biblioteca Humanidades

Editora: É Realizações Editora

Preço: R$ 59,90

Nº de páginas: 288

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