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Deseja ver suas lembranças? É o que me pergunta o facebook. Sempre oscilo entre mergulhar nas memórias ou fugir delas. Meio termo para mim é lugar tipo o triângulo das bermudas, escondido entre a fuga e a intensidade dos desejos: se existe, nunca encontrei.

Fui olhar as lembranças do facebook e me deparei com a capa de um livro “O conto da Aia”, de 06 de agosto de 2018. Um dos posts mais lidos e comentados do meu facebook: 16 comentários!! Não riam de uma não-influenciadora como eu, menciono esses dados para entenderem como minha praia não é gerar conteúdo e lacrar nas redes, mas sim dividir leituras e reflexões que acredito que possam trazer interesse e crescimento a quem quiser me ler.

O mais interessante é: nenhuma dessas curtidas ou comentários é a que me trouxe a esse texto, e sim uma mensagem inbox do Chico de Paula, editor da Biblioo, dizendo simplesmente algo como: gostei do seu texto, quer incrementar (reescrever) para publicarmos na Biblioo? E aqui estamos, há dois anos, falando de livros, leitura e as reflexões provocadas por elas.

Quando Chico me convidou eu estava no início de um projeto de passar 30 meses lendo apenas mulheres, e fui compartilhando as capas dessas leituras no facebook, com pequenas reflexões. Também falei sobre essa escolha de leitura numa reportagem do Chico, aqui pra Biblioo e no medium, no início e na metade do caminho (15 meses). Uma dessas capas era o livro já mencionado que me trouxe ao primeiro texto.

Nesses dois anos de Biblioo, escrevi sobre livros de Amara Moira, Geni Guimarães, Chimamanda Adichie, sobre quadrinhos, fiz até lista de natal e meti o bedelho até sobre peça de teatro. Confesso que escrevi menos do que gostaria, mas me dediquei profundamente a cada um desses textos.

No dia do convite, tremi. Fiquei agitada, não sabia como reagir a algo assim. Adoro escrever, mas publicizar fora da minha bolha de 10 pessoas que me seguem (quando muito) era algo novo e assustador. Ainda é.

Aceitei o desafio desse sempre meu veterano, com quem troquei reflexões e projetos ideológicos com ânimo, apesar de tão poucas vezes. Levei quase um mês inteiro, mas escrevi sobre a intensidade do “Conto da Aia”, que me impactou tanto na época, mas cujas reflexões hoje estão tão diferentes. E, como coincidência não vem a cavalo, esse parece ser o assunto que envolve o (meu) momento atual. E, por conta disso, vocês ganham mais um texto.

Recebi uma mensagem, minutos depois de compartilhar a capa no facebook, dizendo basicamente o seguinte: que estava assistindo uma série que indiquei, chamada #BlackAF e que surgiu uma questão que queria conversar comigo: no episódio 6 há uma crítica a “The handmand’s tale”, título do original que foi traduzido no Brasil como “O conto da Aia” e essa crítica também aparece no seriado “”Dear white people” (ou “Cara gente branca”). A pessoa não viu o post-lembrança no facebook. Coincidências?

Lourence Alves, historiadora-doutora-cozinheira-mãe-grandeamiga que enviou a mensagem acima mencionada, me disse: “A crítica demonstra o racismo das feministas brancas na medida que se chocam com episódios que já aconteceram com mulheres negras por anos durantes os períodos de escravidão nas Américas, mas o choque só vem quando retratado com mulheres brancas. Eu não vi a série toda. Mas o pouco que vi me incomodou e não tava entendendo o porquê. Por isso queria saber sua opinião sobre essa crítica”.

Esse é o nível de provocação que recebo de amigas queridas, a quem sou grata, e que me tiram de certa zona de conforto.

Não assisti a série, pois soube dela depois que li o livro e depois dele eu não teria estômago pra visualizar em cenas representadas, com pessoas reais, o que imaginar foi tão doloroso. Nem para reler.

A pergunta dela me tirou da zona de conforto porque, quando li o livro, eu não tinha avançado tanto no debate antirracista e sabia ainda menos de história do que eu pensava (e sempre soube que era pouco).

Hoje, penso que a história do livro é tão impactante porque parece ser a única opção de vida possível para essas mulheres, e acho que também pelo impacto da privação capitalista.

[Alerta de spoiler]

O “feminismo branco” é entendido por nós no sentido em que a preocupação passa pela retirada de conquistas capitalistas (conta de banco, patrimônio privado), direito de trabalhar numa atividade produtiva escolhida para transformar-se em escravas domésticas usadas para reprodução.

Atualmente, concordo sim com boa parte das críticas em relação a isso: quantas escravizadas foram estupradas, usadas para reprodução sem direito de escolha, privadas de ter bens pessoais e do direito de ir e vir? Tantas, inúmeras. Algumas mulheres ainda hoje, se olharmos politicamente para alguns cenários.

Por que essas histórias impactam tão pouco e uma ficção como “O conto da Aia” nos impacta tanto? Não é uma competição de sofrimento, mas por que olhamos para esse cenário como um futuro de horror e não validamos o passado como uma história de horrores? Então, acho a crítica válida, porque centra-se nessa desumanização dos corpos negros. O impacto do horror só nos atinge quando se refere a corpos brancos.

Enquanto eu estava envolvida apenas com feminismo e as aulas sobre isso sem a metodologia de observar as questões de raça na compreensão da realidade, mesmo com muito cuidado e competência da professora em trazer questões sobre raça e feminismo negro, eu estava – como ainda estou – engatinhando nos saberes antirracistas, na história, e no conhecimento sobre minhas próprias ancestrais.

Não me sinto totalmente segura para falar nem de feminismo negro, nem de mulherismo africana, motivo pelo qual vocês não me veem escrever muito sobre isso. Há muito o que ler, estudar e entender. É preciso respeito. Obviamente que também não estou aqui dizendo que essa história não é impactante, ou que não seria um problema ou um cenário de horror para qualquer uma de nós, de quaisquer cores, lugares, crenças ou níveis de estudo.

Estou apontando para algo que nunca deveria sair do nosso horizonte de olhar: que quem somos e o que acontece na nossa vida, naquele momento, influencia nossa visão, nosso modo de ler, sentir e apreender (a leitura e o próprio mundo). O que somos: mulheres negras, brancas, não negras, homens… e também o que sabemos, seja em teoria, seja em experiência de vida.

O livro “O conto da Aia” me impactou num nível que talvez não impactasse hoje e acho que tem sim muita relação com a retirada de privilégios, mas o livro é muito bem escrito. Entretanto, a Octavia Butler, sobre quem também já escrevi pra Biblioo, traz uma questão muito mais impactante e “O peso do pássaro morto”, da Maya Angelou nos lembra como esse tipo de violência é cotidiana para mulheres negras.

Em termos comparativos, “Kindred” pode ser um bom contraponto para o “Conto da Aia” numa dobradinha para debater passado x futuro. O medo das pessoas brancas é sempre sobre futuro, porque elas não temem o passado – o nosso passado. Essas pessoas conhecem seu passado, sua história e não tiveram um passado doloroso de privações e violências.

O passado não os assombra, o que os assombra é o que eles podem, no futuro, perder. ou ainda, a violência dos seus antepassados se voltarem contra eles. O que nos assombra enquanto povo preto é o retorno a um passado doloroso e ainda não superado ou reparado. Vejo a sombra do passado de pessoas negras desde suas criações artísticas até seus sonhos e traumas. Já os brancos escrevem sobre seu medo do futuro em inúmeros livros de futuros distópicos.

Repito: Quem somos influencia nosso modo de ler, sentir e apreender a leitura e o próprio mundo. Todos os dias.

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