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Em meio ao caos da pandemia da COVID-19, em que as estatísticas mostram que as maiores vítimas no Brasil são pessoas pobres e negras, tomamos ciência todos os dias de casos de racismo e preconceito no país nos telejornais ou nas redes sociais. Atrocidades, como os assassinatos de crianças negras, como a Agatha e o João Pedro (6 e 14 anos, respectivamente), mortos por policiais, são noticiadas diariamente.

Essa é a mesma violência gratuita empregada contra rapazes negros em shoppings do Rio de Janeiro, por equipes de segurança dos estabelecimentos, muitas vezes, compostas por policiais em seus horários de folga. Segundo o IPEA, a cada três assassinatos, dois são de pessoas negras. O racismo estrutural brasileiro também se evidencia na clara sentença da juíza do Paraná em que condena um rapaz com a justificativa da cor da sua pele.

São tantas notícias ruins que percebemos o quanto é difícil ter a pele mais escura neste país onde a escravidão foi tardiamente proibida e onde ainda tem raízes profundas. O problema não é só ser preto, mas ser preto e pobre, o que acaba sendo quase uma redundância, pois são ínfimos os casos da população preta pertencentes a classe A e B da sociedade.

Neste mês, tomamos ciência de uma conquista da cultura negra. Após quase quatro anos de luta judicial, o acervo sagrado afro-brasileiro enfim sairá do Museu da Polícia Civil, onde permanecia confiscado há mais de 40 anos, para integrar o acervo do Museu da República.

A ação de transferência pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro se deu a partir de uma campanha “Liberte nosso sagrado”, realizada em 2017 e composta por vários segmentos da sociedade. Mais informações no artigo “Patrimônio sagrado permanece no Museu da Polícia Civil”, publicado por mim aqui na Biblioo em 2017.

Nas redes sociais, o deputado estadual Flávio Serafim (PSOL/RJ) divulgou e comemorou a conquista, afirmando: “Esse é um gesto simbólico de respeito ao povo negro e representa uma importante vitória da luta contra o racismo em nosso estado”. Realmente é uma vitória de respeito às origens da formação ao povo brasileiro e o acervo deve ser tratado e ficar em exposição como memória e história.

Em tempo, no dia 11 de agosto aconteceu mais uma tragédia anunciada e que afeta diretamente a cultura afro-brasileira. O histórico casarão, localizado no Largo de São Francisco da Prainha, na cidade do Rio, pegou fogo, havendo a destruição do imóvel e sem vítimas fatais. No local funcionava o restaurante Casa do Nando, que servia comidas típicas africanas e uma bela feijoada.

Além disso, havia sempre uma programação cultural afro-brasileira no local. Em um grupo na rede social, profissionais e admiradores do patrimônio histórico nacional alertam que há outros casarões na região que estão correndo um sério risco de acontecer o mesmo, pois são imóveis antigos com pouco ou nenhuma conservação. No facebook, o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), emitiu uma nota de solidariedade à Casa do Nando:

“Hoje o dia amanheceu triste para todos que tem a Pequena África como um símbolo de resistência na cidade do Rio de Janeiro. Um terrível incêndio comprometeu todo o histórico casarão onde funcionava a Casa do Nando. Um local onde muitos de nós tivemos a oportunidade de construir e ressignificar as nossas resistências, sempre com muita alegria e esperança. A Equipe CEAP manifesta o seu total apoio neste momento difícil. Estamos de portas abertas para o que pudermos auxiliar e ajudar na reconstrução do espaço. Vamos juntos superar todos os desafios e reedificar a nossas forças, de forma coletiva, em prol da Casa do Nando. Para contribuir, acesse https://vaka.me/1279344

O local conhecido como “Pequena África” inclui a região portuária e os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo na cidade do Rio de Janeiro. Durante o século XIX, milhares de africanos desembarcavam e eram comercializados para serem escravizados. Depois da escravidão, muitos passaram a morar na região formando uma comunidade negra, berço do samba carioca.

A Pequena África ganhou mais notoriedade a partir de 2014, quando foram encontrados vestígios arqueológicos da presença africana. A partir disto, a UNESCO incluiu, em 2017, o Cais do Valongo como um dos Patrimônios Culturais da Humanidade e, desde então, tem sido um importante ponto histórico e turístico da cidade. Mais informações, clique aqui.

É triste saber que milhares de africanos foram arrancados da sua terra para serem escravizados e sacrificados pela elite brasileira da época. Muitas décadas se passaram e ainda sabemos de casos de pessoas que vivem em situações análogas à escravidão. Muitos negros são condenados à morte devido as atrocidades de militares que beira a barbárie, como no caso da família negra, que estava no carro, e foi alvejada por 80 tiros de fuzil por soldados do Exército Brasileiro.

Neste caso, foram assassinados o pai na frente de seu filho de 7 anos e um ambulante que tentou ajudar a família. Os brasileiros negros são vistos por alguns políticos como criminosos ou vagabundos vide os moradores dos Quilombos, que são constantemente agredidos por calúnia, difamação e injúria.

Eles sentem na pele a falta de política pública. E mesmo diante das mortes antigas e atuais, a sociedade preta ainda tem que lutar diariamente não só pela sua existência, mas também para não ter a memória apagada de seu povo, seja através da valoração de um acervo ou através de um conjunto arquitetônico.

Finalizo com uma citação de Ângela Davis: “Em uma sociedade racista, não ser racista não é o bastante. É necessário ser antirracista.” E completo com uma outra frase de autoria desconhecida: “Não precisa ser negro para lutar contra o racismo. Só precisa ser humano.”

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