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Quando a morte do ator Chadwick Boseman foi noticiada, senti grande pesar, assim como na morte da atriz Chica Xavier, grande atriz brasileira que nos deixou também em decorrência de complicações por câncer no dia 08 de agosto deste fatídico ano e que tão pouco se comentou a respeito. Por esse motivo, eu não consegui escrever nos primeiros dias e quando escrevi, não consegui publicar. Mas, sobre luto, e diante de uma pandemia, infelizmente não nos faltam ocasiões para refletir. 

É difícil explicar para quem não é uma pessoa negra conectada à cultura e às sensibilidades o vínculo ancestral entre todo o povo. Choramos, às vezes copiosamente, por pessoas que nunca conhecemos no sentido tradicional. Eu, que não sou de chorar e mal aprendi a viver o luto, chorei de soluçar pelo menino João Pedro e por outras violências, tantas. 

No entanto, em algumas culturas, a morte é apenas uma mudança de plano para a ancestralidade e há muita beleza nesse olhar, proveniente das muitas culturas africanas que têm sido resgatadas e ressignificadas no Brasil e em outros territórios da diáspora. Diáspora, pra quem não conhece o termo, se refere à população de descendentes fora de seu território de origem e tem sido muito utilizada por estudiosos de cultura dos descendentes dos povos sequestrados de África na ocasião da escravização. 

“Diz um dito africano que, quando morre um ancião, morre uma biblioteca. Ouso completar dizendo que, quando parte um jovem consciente, vai-se um leitor ávido destas bibliotecas-humanas e também um bibliotecário, alguém capaz de cuidar dos tesouros que a sabedoria produziu. É uma quebra brusca na corrente de humanidade da qual todos e todas fazemos parte. Sim, você partiu cedo”, lamentou a escritora Eliana Alves Cruz. 

Chadwick Boseman é um ator que merece ser lembrado e reverenciado, sim. Seu falecimento, em 28 de agosto, impactou boa parte do mundo e das pessoas que assistiram “Pantera Negra”. Por ser um filme de herói, que não é meu tipo favorito, portanto, não me causou o mesmo incômodo de grande parte do público fã e nem os receios sobre sua continuidade. Pantera Negra é, sem dúvida, um divisor de águas e me impactou pessoalmente também, mas penso que como toda mega produção continuará com qualquer outro ator, certamente também talentoso. 

Tantas versões de filmes de super-heróis foram feitas, e para representar os heróis tiveram tantos atores diferentes, por que só “Pantera Negra” não poderia continuar com outro ator? Seriados famosos mudaram os atores e mantiveram os personagens, como “Um maluco no pedaço”(The fresh prince of Bel Air, no original), que alterou a atriz da personagem principal Tia Vivian entre temporadas e isso até se tornou piada, e do seriado Sense8, da Netlix, cujo personagem Capheus, também um dos principais, passou a ser representado pelo magnífico Toby Onwumere na segunda temporada, apenas para citar alguns.

A quem interessa inviabilizar a continuidade de “Pantera Negra”? Ou, talvez apenas gerar movimentação em torno desse “medo”? Mais que os muitos posts e fotos em homenagem a Chadwick, notícias e prêmios, além de oportunismos de caçadores de likes que se utilizam dessas notícias, o que me espantou mesmo foram as acusações sobre seus amigos, em luto, não se manifestarem nas redes. O que me levou a refletir na dificuldade das nossas culturas ocidentais em viver e compreender o luto. E o silêncio necessário a alguns ao vivenciá-lo

A atriz Lupita Nyong’o, amiga e parceira de Boseman em “Pantera Negra”, publicou apenas 10 dias depois de sua morte, uma nota de pesar. Veja a homenagem oficial aqui. Ou a tradução do G1 aqui. O luto, no silêncio ou em festa, com privacidade ou publicidade, com imagem, música, texto ou discurso,  deve ser respeitado por todos.

Uma jovem escritora que sigo e que prefere não ser publicizada sobre isso, escreveu em sua rede que deveríamos estudar mais representatividade e nos repensar. “O povo chorando pelo ator de pantera negra (o que respeito), mas sem perceber que agosto levou grandiosos atores nossos, pretos diaspóricos brasileiros que nunca tiveram todo o glamour e palco que artista gringo (mesmo os pretos) acessam. Wakanda forever, mas e o BR?”, questionou.

Pois é, e o Brasil? 

Luana Xavier, atriz, apresentadora, roteirista e influenciadora, escreveu em suas redes uma homenagem musical para a avó, a atriz Chica Xavier, também falecida em agosto último:

“Amor de longe. Benzinho. É favor não me querer. Benzinho. Dinheiro eu não tenho. Benzinho. Mas carinho eu sei fazer até demais. Fui de viagem. Passei em Barreiras. Avisa meus companheiros. Sou eu Manoel de Isaías. Na ida levei tristeza. Na volta trouxe alegria. Passei pela Quixabeira. Mané me deu uma carreira. Que até hoje corria. Tu não faz como um passarinho. Que fez um ninho e avoou. Mas eu fiquei sozinho. Sem teu carinho. Sem teu amor. Alô meu Santo Amaro. Eu vim lhe conhecer. Eu vim lhe conhecer. Sambá Santamarense. Pra gente aprender. Pra gente aprender. Tu não faz como um passarinho. Que fez um ninho e avoou. Mas eu fiquei sozinho. Sem teu carinho. Sem teu amor…” (Quixabeira- @carlinhosbrown )”. Sete dias sem meu amor maior”.

Particularmente, acho que deveríamos ter tido mais textos sobre Chadwick Boseman e muito mais sobre Chica Xavier, suas vidas e sua obras. Mas o povo preto estava em luto e a branquitude não se importa. Dá uma olhada aí na quantidade de coisa que esses dois fizeram!! Eu vi muita televisão, mas não lembrava que era esse tanto assim de coisa que ela fez. 

Isso tem a ver também com os papéis secundários ou muito similares delegados a pessoas pretas, mas isso é papo pra outro texto. Acho, também, fundamental falarmos mais sobre luto, e compreender que os processos de cada um são diferentes, mas rememorar ou falar do que dói, o que faltou, também é parte do luto.

Como profissional da informação que sou, gosto de reunir informações relevantes de modo a facilitar o acesso a quem interessar possa. Sendo assim, segue uma lista dos textos mais interessantes sobre Chadwick Boseman e sobre Francisca Xavier Queiroz de Jesus, a Chica Xavier, segundo a minha curadoria. 

Obs.: A Chica merecia textos melhores, mas ao menos as fotos e vídeos compensam o que pouparam em textos à sua altura. Sua obra fala por si. 

Filmes de Chadwick Boseman

Ano – Filme – Papel

  • 2004 – Date – New Yorker (Creditado como Chad Boseman)
  • 2006 – Ladylike – Male Lead
  • 2008 – The Express – Floyd Little
  • 2013 – 42 – Jackie Robinson
  • 2014 – Get On Up – James Brown
  • 2014 – Draft Day – Vontae Mack
  • 2016 – Deuses do Egito – Tot
  • 2016 – Capitão América: Guerra Civil – T’Challa / Pantera Negra
  • 2016 – Mensagem do Rei – Jacob King.
  • 2017 – Marshall – Thurgood Marshall
  • 2018 – Pantera Negra – T’Challa / Pantera Negra
  • 2018 – Vingadores: Guerra Infinita – T’Challa / Pantera Negra
  • 2019 – Vingadores: Ultimato – T’Challa / Pantera Negra
  • 2019 – Crime Sem Saída – Andre Davis
  • 2020 – Da 5 Bloods – Norman Earl “Stormin’ Norman” Holloway

[Fonte da lista dos filmes: Wikipedia]

Póstumo

  • 2020 – A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom)
    [Previsão de lançamento, 18/12/2020]

Papéis na televisão de Chica Xavier

Ano-Título-Papel

  • 1968 – Legião dos Esquecidos – Donana Paixão
  • 1969 – A Cabana do Pai Tomás – Lica
  • 1973 – Os Ossos do Barão – Rosa
  • 1975 – Cuca Legal – Raquel
  • 1975 – Senhora – Rosa
  • 1975 – O Grito – Lázara
  • 1976 –  Saramandaia – Maria das Dores
  • 1977 – Nina – Escolástica
  • 1978 – Dancin’ Days – Marlene Antunes da Silva
  • 1979 – Marron Glacê – Filomena (Filó)
  • 1980 – Coração Alado – Carmem
  • 1981 – Os Imigrantes – Biá
  • 1981 – Jogo da Vida – Joana
  • 1983 – Louco Amor – Denise
  • 1984 – Amor com Amor Se Paga – Judite
  • 1985 – Tenda dos Milagres – Magé Bassã
  • 1985 – O Tempo e o Vento – Laurinda [19]
  • 1986 – Sinhá Moça – Virgínia (Bá)
  • 1987 – Carmem – Mãe de Santo
  • 1988 – Chapadão do Bugre – (sem nome)
  • 1988 – Fera Radical – Júlia
  • 1990 – Fronteiras do Desconhecido – Odé Deoyn
  • 1990 – Lua Cheia de Amor – Hermée
  • 1992 – As Noivas de Copacabana – Rosa
  • 1993 – Renascer – Inácia de Jesus Galvão
  • 1994 – Memorial de Maria Moura – Maria
  • 1994 – Pátria Minha – Zilá de Paiva Rangel
  • 1995 – Cara & Coroa – Dinda
  • 1996 – O Rei do Gado – Madre Gema
  • 1997 – Por Amor – Chica
  • 1998 – Dona Flor e Seus Dois Maridos – Dinorá
  • 1999 – Chiquinha Gonzaga – Inácia
  • 1999 – Força de um Desejo – Rosália
  • 1999 – Sandy & Júnior – Mabel
  • 2000 – Aquarela do Brasil – Celeste
  • 2001 – A Padroeira – Feiticeira
  • 2002 – O Quinto dos Infernos
  • 2002 – Esperança – Nhá Rita
  • 2004 – Um Só Coração – Isolina
  • 2005 – Carandiru, Outras Histórias – Rosa
  • 2005 – A Lua me Disse –  Dionísia da Mata
  • 2007 – Amazônia, de Galvez a Chico Mendes – Irina
  • 2007 – Duas Caras – Mãe Setembrina Caó
  • 2010 – A Vida Alheia – Eurídice (ep: “Abandonados”)
  • 2012 – Acampamento de Férias – Dona Laila
  • 2012 – Cheias de Charme – Cleonice

Papéis no cinema de Chica Xavier

Ano – Título – Papel

  • 1962 O Assalto ao Trem Pagador – (Sem nome)
  • 1973 Um Virgem na Praça – (Sem nome)
  • 1975 Uma Mulata Para Todos – (Sem nome)
  • 1978 A Deusa Negra – (Sem nome)
  • 1979 Lefar-Mu – (Sem nome)
  • 1983 Inocência – Maria Conga
  • 2001 A Partilha – Bá Toinha 
  • 2006 Só Deus Sabe – Mãe de Santo
  • 2010 Nosso Lar – Ismália

[Fonte da lista: Wikipedia]

Estejam bem, onde estiverem! 

  • Chadwick Aaron Boseman: 29 de novembro de 1976 — 28 de agosto de 2020 (43 anos)
  • Francisca Xavier Queiroz de Jesus: 22 de janeiro de 1932 — 8 de agosto de 2020 (88 anos) 
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