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De antemão, informo aos/às cientistas e intelectuais fundamentalistas arraigados/as fortemente ao pensamento cartesiano que, esta narrativa de opinião, para que não venha a cair no simplório ou no achismo, termo este frequentemente utilizado no ambiente acadêmico para deslegitimar o modo de pensamento do/a outro/a, a referida estrutura discursiva textual se pautará em autoras atuantes do feminismo negro, bem como em autores conhecidos do campo da sociologia, tentando, na medida do possível, transpassar a linha colonial do pensamento hegemônico verticalizado.

A partir das reflexões e das produções intelectuais das autoras Djamila Ribeiro, no livro O que é lugar de fala? (2017), Grada Kilomba, no livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano (2019) e Lélia Gonzales no famoso artigo Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984), tratar-se-á da categoria do/a outro/a em sentido epistêmico, enquanto marcador analítico para discutir uma dada realidade social, fato ou fenômeno.


De acordo com o pensamento complexo, ou paradigma da complexidade, do sociólogo Edgar Morin (2005), a ciência (durante anos) não se atentou aos fenômenos complexos que a envolvem, provocando o que o autor considera ser o pensamento simplificante. Essa simplificação do conhecimento, retira do sujeito suas múltiplas possibilidades interculturais do saber em diálogo com outras narrativas tais como as indígenas e as de matriz africana por exemplo, e tem se desdobrado em modos mutilantes de pensamento, na qual a complexidade, em termos de visibilidade das outras epistemologias, tem sido invisibilizadas.


Pensando sob o prisma do conhecimento complexo, este texto pretende traçar a discussão sobre os seguintes problemas reflexivos:

1) No processo de submissão de artigos em periódicos científicos, normalmente com grande fator de impacto, o que justifica a exigência de que o primeiro/a autor/a possua titulação mínima de doutor/a?

2) Quando não possuidor/a do título de doutor/a, quem tem o direito de escrever e, sobretudo, de publicar sua produção intelectual em um periódico científico?

3) Quais os macrocosmos libertam esses periódicos das imposições externas e fazem com que apenas reconheçam suas próprias determinações internas?

Corroborando o pensamento de Bourdieu (2004), para além de suas resoluções, essas perguntas trazem à tona o debate acerca do quanto o campo legitima, estrutura e tenciona relações hierárquicas e jogos de poder e, consequentemente, provoca a criação da categoria da outridade na qual este/a outro/a ocupa o lugar do Não-Ser científico/a.


Ainda de acordo com de Bourdieu (2004), os agentes e instituições estão inseridos em um universo no qual os mesmos produzem, reproduzem e disseminam a arte, a literatura ou a ciência. Esse universo também é um mundo social, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas.
Nas palavras do autor, o campo científico “[…] é um mundo social e, como tal, faz imposições, solicitações, etc., no entanto, relativamente independentes das pressões do mundo social global que o envolvem”. (BOURDIEU, 2004, p. 21).


Em suma, todo campo científico compreende um campo de forças e este, por sua vez, comporta relações de dominação e, ao mesmo tempo, cria um campo de lutas para conservar ou transformar esse campo de forças.
Nesse sentido, é importante destacar que os periódicos científicos se constituem em agentes (indivíduos ou organizações) que criam espaços e, efetivamente, os espaços só existem pelas relações objetivas entre os/as agentes que nesse núcleo se encontram.


Além desses espaços, cada agente possui uma função determinada no campo e constrói relações objetivas no seu interior que são constitutivas do próprio campo em questão.


A tese levantada, portanto, é de que a exigência do primeiro/a autor/a enquanto doutor/a se concentra numa relação de poder, ou seja, num campo científico, mas, sobretudo, é tangenciada pelas concepções coloniais em que um agente do império cognitivo científico dita quem deve e quem não deve publicar naquele periódico, provocando, consequentemente, a imposição da Outridade (KILOMBA, 2019).


De acordo com Lélia Gonzales (1984), transpassando as dinâmicas de gênero, esse/a outro/a é sempre esse/a infantilizado/a. A autora informa que ‘infan’ é aquele/a que não tem fala própria, ou seja, é a criança falada em terceira pessoa. Nós, os/as não doutores/as (Não-Ser), somos considerados/as, em muitos os casos, como esse/a infantilizado/a, não podendo falar e publicar em determinados periódicos científicos, por não possuírem titulação de doutor/a e, consequentemente, não ser considerado/a digno/a de estar e fazer-se presente naquele ambiente de divulgação científica.

Nessa estrutura de poder, assumimos constantemente o nosso ‘não-lugar’ da subalternidade de conhecimento científico diante das exigências de periódicos que, a partir de seus microcosmos internos, se libertam das pressões do exterior. Em termos práticos, o/a outro/a se manifesta não apenas numa dada marcação social interseccionalizada por gênero, raça e classe, mas, como informa Beauvoir (2019) em seu livro O Segundo o Sexo, o/a outro/a é sempre o inessencial, o objeto, já que o sujeito só existe se opondo, colocando o/a outro/a como coisa.

Como adverte Djamila Ribeiro (2017), se esse/a outro/a é tratado/a como objeto, logo lhe é negado/a o seu lugar de fala. Se não possui lugar de fala, consequentemente, não cumpre sua função de sujeito (KILOMBA, 2019) e, se este/a, por sua vez, não é considerado/a como sujeito, lhe é negado/a sua humanidade, pois a função social se desdobra na função epistemológica. Concordando com Kilomba (2019), quando é atribuído/a esse lugar de não sujeito, é negado as três funções que compõem o espectro do ser sujeito: social, subjetivo e político. Se somos negados/as em nossa capacidade de produção científica, e nesse caso, enquanto primeiro/a autor/a que não é doutor/a, nos é negado/a nossa função epistemológica. Se não temos tal função, não temos voz e, se assim o somos, o que nos resta é sermos esse/a outro/a num campo científico que produz, reproduz e dissemina relações de Outridade e relações hierárquicas de opressão, tendo em vista que quem legitima tal exigência de doutorado é o campo científico, ou seja, a comunidade científica.

Por fim, cabe aqui dizer que os microcosmos que permeiam as dinâmicas externas e internas do campo científico são diversas e é preciso analisar sob a perspectiva estruturada e profunda. Como já informado, o que aqui se delineou são divagações reflexivas sobre esse império cognitivo científico, muitas vezes estruturados pela concepção colonial, patriarcal, capitalista e racionalista solipsista da comunidade científica, em cujo interior constantemente se desdobram nas relações de Outridade, desse/a outro/a colocado/a nesse não-lugar.

Convido todos/as/es a refletirem e discutirem comigo sobre as divagações reflexivas aqui colocadas, comentem, caso queiram, sobre o que acharam da temática pautada.

Espero que todos/as/es estejam bem.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.

BOURDIEU, Pierre. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Unesp, 2004.

GONZALES, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista
Ciências Sociais Hoje, Rio de Janeiro, p. 223-244, out. 1984. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf. Acesso em: 15 março. 2021.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019. p. 33-46.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.
RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? São Paulo: Letramento, 2017.

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