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Por Mariana Filgueiras de O Globo

As tardes no entorno da Praça Tiradentes são como em muitas esquinas cariocas. Camelôs vendem chicletes e pentes de plástico, moradores de rua dormem nas escadas do Teatro João Caetano, estudantes uniformizados atravessam os sinais correndo. Mas, se qualquer um deles quiser usar wi-fi, consultar livros ou se deixar atravessar por uma exposição de arte, basta cruzar o portão do grande edifício neoclássico que fica escancarado logo ali à frente, na Rua Luís de Camões.

— Deixar a porta aberta, com um funcionário simpático apto a explicar tudo o que oferece o equipamento, para qualquer pessoa que queira entrar. Qualquer pessoa. Essa foi uma das primeiras coisas que aprendi aqui. A arte tem que ser uma extensão da rua — explica a diretora do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (CMAHO), Izabela Pucu, niteroiense de 36 anos, que há dois anos assumiu o comando e mudou radicalmente a instituição, prestes a completar duas décadas no mês que vem.

As mudanças não se resumem a deixar o Hélio Oiticica de portas abertas. Desde que chegou, Izabela o revirou como um dos clássicos parangolés do artista que batiza o espaço. Tirou entulho do corredor, catalogou obras escondidas no acervo, reformou uma instalação fixa do artista americano Richard Serra que estava danificada. Convidou artistas para residências no local. Bolou cursos e seminários, e também convenceu professores de arte de seis universidades a dar aulas lá, para estimular a circulação de estudantes (num auditório que ela montou com TV e caixas de som cedidas por parcerias).

A diretora fez tudo sem dinheiro, já que não dispõe de orçamento para investir no equipamento municipal.

— Agora batalhamos por verba para reformar o terraço do prédio, que poderia virar uma nova ala para residências — pondera Izabela, mostrando o espaço, que poderia integrar o calendário de celebrações dos 20 anos da instituição, entre abril e dezembro, com exposições, saraus e cursos. — Hoje, a ideia de que um centro cultural é só um local de exibições não se sustenta. É preciso ter outras interfaces com o público.

A batalha pela abertura “ampla, geral e irrestrita” é quase física: num dos episódios mais delicados que enfrentou na sua gestão, em abril deste ano, Izabela chegou a ser ameaçada durante um debate entre artistas da exposição “ComPosições Políticas”, da qual assinava a curadoria, e militantes do movimento negro, que organizaram um ato em frente ao Centro em repúdio às obras da “Expo mostruário”, do artista Rafael Puetter, o Rafucko, consideradas racistas por eles.

Izabela convidou manifestantes para debater com participantes no auditório, mas os que não conseguiram entrar invadiram o espaço pela janela, causando confusão, seguida de intenso debate nas redes sociais. Rafucko havia criado produtos alusivos à violência do estado contra a população negra e colocado as peças à venda. Acabou rechaçado por ativistas, contrários à mercantilização de objetos que aludiam ao sofrimento dos negros.

Acho que cometemos erros nesse episódio, principalmente de interlocução, mas tudo isso faz parte do processo que estamos estabelecendo aqui: confrontar a arte com a sociedade — diz Izabela, citando o crítico Mário Pedrosa, um dos seus gurus: — Mário faz as perguntas certas, e trabalho até hoje respondendo a elas: “Qual problema central das artes? É sua participação na sociedade”. Ele convoca o artista para fora do seu isolacionismo de base. A arte é uma força instituinte da sociedade.

Na quarta, às 16h, o Centro inaugura duas mostras: “Jogos do Sul”, com curadoria de Alfons Hug e Paula Borghi, que propõe um contraponto ao modelo olímpico, em obras de Paulo Nenflidio e Paulo Nazareth, entre outros; e “Relandscape/Repaisagem”, de Ivan Henriques, com curadoria da própria Izabela.

Filha de militantes políticos niteroienses, aos 15 anos, em vez de ir para a Disney, como a maioria das amigas, Izabela foi para Cuba. Retornou à ilha depois de se graduar em Artes Visuais, na Uerj, para complementar a formação. De volta ao Brasil, deu aulas, trabalhou no Paço Imperial e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, até receber o convite para dirigir o CMAHO.

— Quando cheguei, tive carta branca para recriar a instituição, que estava em franca decadência, e que chegou a funcionar sem gestor. A ideia, para mim, era revolução ou nada.

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