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Kirsten Kappert-Gonther é médica, especialista em psiquiatria e psicoterapia, atua na coalizão Bündnis 90/Die Grünen ((Aliança 90/Os Verdes), tendo sido eleita para o Parlamento Alemão (Bundestag) em 2017. No parlamento as suas pautas cruzam com todos os meus temas de interesse para o projeto “Bibliotecas em Memoriais”, além de ser porta voz de outros temas sociais importantes na Casa. 

E na cultura, que é o tema da entrevista de hoje, em parceria com a Biblioo, ela traz uma perspectiva interessante sobre as bibliotecas como locais de conexão social, diversidade e suporte para saúde mental, além de seu posicionamento em uma questão bastante efervescente na biblioteconomia alemã: a abertura das bibliotecas aos domingos. 

Como membro do Comitê Cultural do Bundestag, eu inicio fazendo uma pergunta geral: Por que você considera que as bibliotecas são importantes? 

As bibliotecas são um lugar de encontro consigo mesmo, com as mídias, com os livros, com a literatura, com poemas, com jornais, que naturalmente significam algo para você e são uma forma de alimento espiritual.

E elas também são também um ponto de encontro para pessoas de origens sociais muito diferentes, e um espaço com pouca restrição de acesso, um local onde ninguém tem que justificar o “por que eu vou à biblioteca, quando posso ir à biblioteca?” é claro, estar lá e usar tudo o que existe, sem custo extra. 

Isso significa que é também um espaço onde não se faz distinções sociais.

Que papel desempenham as bibliotecas em um contexto de crise como o atual, com a  quarentena e o coronavirus?

Neste tempo de pandemia, nós percebemos que precisamos muito mais do que alimento físico, e sim que nós também precisamos de alimento espiritual e cultural. E percebemos muito a falta do encontro direto, da ida à biblioteca também como um espaço, como um local de encontro. 

As bibliotecas na Alemanha fizeram um excelente trabalho porque, embora elas tivessem de ser fechadas, elas disponibilizaram os seus serviços digitais e também se expandiram. E então se viu como era a oferta de bibliotecas era necessária, porque ela é uma instituição muito requisitada.

Na cidade de Bremen, por exemplo, havia a maravilhosa situação em que você poderia procurar digitalmente um livro, um DVD, qual revista você gostaria de ler, e então esse material era embalado em uma bolsa e colocado lá, e a certa altura o usuário poderia ir pegá-lo.

E isso foi excelente. Nós vimos que toda a área de empréstimo digital ainda precisa ser desenvolvida, e que os pontos de acesso para ela ainda precisam ser aprimorados. Mas, também notamos o quanto sentimos falta deste espaço de encontro.

E isso é igualmente importante para mim, para enfatizar que as bibliotecas são muito mais do que apenas um lugar onde a mídia é armazenada e também mais do que apenas um lugar para empréstimo, mas que elas são lugares de encontro, algo como um mercado moderno onde todos se reúnem, de acordo com o princípio da inclusão. E que não existam diferenças, mas que todos venham como são, com  as a suas próprias necessidades.  

E foi muito importante quando terminamos o lockdown, que nos foi permitido voltar a abrir as bibliotecas. É claro que com regras de higiene e controle sanitário. Como o que agora estamos cumprindo aqui durante essa entrevista, o que é correto e adequado para o controle de infecções. Mas o fato de ter sido dito que as bibliotecas são lugares tão necessários e fez com que elas tenham de reabrir mais rapidamente.

Em uma entrevista com a bibliotecária Bárbara Lison (que você confere nesse link aqui, na Biblioo) ela me explicou a estrutura das bibliotecas na Alemanha, que tem um caráter fortemente descentralizador. Então, como podemos encontrar um equilíbrio entre propor melhorias e progresso para as bibliotecas através do Parlamento e, ao mesmo tempo, preservar a autonomia e a capacidade dos Estados? Quais são os limites e as possibilidades na proposição de uma política nacional para as bibliotecas?

Nós temos o federalismo na Alemanha, e isso significa que nossos 16 estados federais têm todos direitos iguais, e depois há também o Bundestag, que é o parlamento nacional. As bibliotecas são de responsabilidade dos respectivos estados federais. 

No que diz respeito ao equipamento, sobre onde e como existirão as bibliotecas, as autoridades locais têm algo a dizer sobre isto. E essa também é a coisa correta a fazer, pois é a ideia básica do federalismo, que nem tudo é igual em todos os lugares.

E também é importante ter uma biblioteca, uma paisagem adaptada à região e às necessidades regionais, que são específicas e especiais. Mas, ao mesmo tempo é necessário, importante e útil, também [atuar] do lado do Bundestag, pois o parlamento nacional enfatiza a importância das bibliotecas e a importância de se fazer declarações sobre essas bibliotecas. 

Mas, mais do que dizer: “Oh, que bom que ainda existam bibliotecas”. Elas não são um luxo, mas sim uma necessidade. As bibliotecas são a base dos serviços de interesse geral, e gostaríamos que cada criança, cada idoso e cada cidadão da Alemanha tivesse acesso às bibliotecas, a este ponto de encontro nas bibliotecas do qual já falamos.

E eu e meu partido e [minha] coalizão (Bündnis 90/Die Grünen) gostaríamos que este local de encontro estivesse disponível para as pessoas também aos domingos. E isso na Alemanha tem uma situação diferenciada.

Ao contrário dos países vizinhos na Europa, as bibliotecas públicas aqui não podem abrir no domingo. E eu acho que isso é errado, porque é um desequilíbrio em relação a outras instituições culturais. As pessoas vão naturalmente ao teatro, ao cinema, ao museu aos domingos. E isso é bom, porque temos tempo e disponibilidade no domingo.

Também para pais com filhos pequenos, para pessoas que, por exemplo, são sozinhas e solitárias e precisam de um lugar onde possam se encontrar. É por isso que achamos importante disponibilizar a infraestrutura da biblioteca também aos domingos.

O que se opõe a isto na Alemanha, no entanto, é que a Lei de Horários de Trabalho, que é uma lei federal e esta é uma lei muito importante, uma boa lei, porque é uma lei de proteção para os trabalhadores e regula quando fazer pausas e quando dormir o suficiente.

E também regulamenta que aos domingos um grande número de lojas, estabelecimentos e instituições estejam fechados. E também regulamenta que as bibliotecas públicas na Alemanha estejam fechadas aos domingos, ao contrário de todas as outras ou muitas outras instituições culturais.

Para mudar isto, a Lei de Horário de Trabalho deve ser modificada, e isto é modificar essa legislação federal. E eu gostaria que nós, ao ponderarmos os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, que são sim muito importantes, também ponderássemos sobre as necessidades da população. 

E que tivéssemos acesso às bibliotecas aos domingos, ao acrescentarmos uma exceção à Lei de Horário de Trabalho. Se há uma exceção para hospitais, para bombeiros, para museus, para teatros, mas não há exceções para bibliotecas públicas. E eu digo… as bibliotecas públicas são tão importantes para todos nós, para nossa democracia, para nossa saúde mental, para nossa educação, que nossas bibliotecas devem abrir aos domingos. 

E para isso devemos incluir essa mesma exceção na Lei de Horas de Trabalho, e isso é algo de caráter mais federal. 

Você acha que as bibliotecas podem apoiar a cultura de lembrança?

As bibliotecas, naturalmente, dão suporte à toda forma de memória, mesmo que apenas porque a literatura disponibilizada exista uma exibição que seja disponibilizada, por exemplo, imagens e gravações sonoras. Estas são coisas que naturalmente tratam de épocas anteriores, do passado. Ou porque são originais daquela época, ou porque são literatura ou também não-ficção, literatura científica, que lidam com esse passado.

E a cultura da memória não é nada estática. Não é  possível se dizer “essa é a nossa cultura agora, e é assim que ela permanece para sempre e eternamente”, mas ela é algo que também está em um estado de mudança. E nós somos uma sociedade de imigração há algum tempo. O que é bom, é certo e nos enriquece. E é claro, em uma sociedade que é composta por tantas pessoas, uma cultura de lembrança também deve se desenvolver e evoluir. 

Ter acesso à esses materiais nos dá essa grande oportunidade, e para isso, naturalmente, precisamos ter acesso garantido. Acesso do público, por um lado, à literatura científica, mas também à poesia, ficção, romances e biografia, para o material visual, as antigas transmissões de televisão, as transmissões de rádio e para torná-las acessíveis a todos. 

É isso que é especialmente bom nas bibliotecas – que você não tem que mostrar uma carteira de identidade e dizer “eu tenho esta ou aquela educação, ou eu tenho esta e aquela experiência, mas todos e todas são bem-vindos”.

Mesmo que tenha sido escrito no passado, que significa algo para nós hoje, e depois se desenvolve ainda mais, por exemplo, pensando sobre isso ou falando sobre isso um com o outro, falando sobre isso com gerações diferentes. E isso, naturalmente, é também cultura da memória. A cultura da lembrança não se trata apenas de levantar e comemorar em um memorial, mas em uma animada troca de lembranças, onde a lembrança é criada.

Confira abaixo a entrevista concedida ao Canal Bibliotecas em Memoriais”, da bibliotecária Patrícia Oliveira: 

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