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Mas não emergirá de graça. Sem esforço. Sem educação intelectual e sensível. Sem aprender a dominar instintos egoístas de autopreservação. Sem aprender a resistir ao canto da sereia do imediatismo e do consumismo. O melhor de nós cobra de nós sair da zona de conforto e pular de cabeça na zona do conflito. Aprender a viver com aquele mal estar da civilização – somos finitos, a natureza nos transcende e, sim, fracassamos miseravelmente no percurso da realização das nossas intenções.

O oposto é tão verdadeiro quanto: o pior de nós habita em nós.

“Dentro de mim há dois cães: um deles é cruel e mau; o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ganha a briga é aquele que eu alimento mais frequentemente.” (Conto Cherokee)

Chegamos a 2021 tão falíveis quanto ingressamos em 2020. Evocando por um “novo normal”, como se o que havia antes da pandemia da Covid 19 pudesse ser considerado “normal”, quase como sinônimo de bom. Bom para quem? Bom para quantos? Bom por quanto tempo?

Somos feitas(es/os) de células e de histórias. Biologia e cultura amalgamadas.

“Morremos. Pode ser esse o sentido da vida. Mas fazemos linguagem. Pode ser essa a medida de nossas vidas”. (Toni Morrison)

Há séculos mitos de todos os cantos do mundo revelam narrativas sobre o potencial humano para superar o individualismo e fronteiras de contextos internos e socioculturais, empreender uma jornada de iniciação e retornar para compartilhar o conhecimento aprendido sobre qual a “chave do tamanho” para superar os desafios inerentes à superação da lógica do salve-se quem puder para a lógica do um por todas(es/os) e todas(es/os) por um!!! 

Penso nos contos e mitos como oráculos arautos da nossa potência para princípios e práticas de humanidade que finalmente sobreporão a barbárie praticada por nossa espécie nos instantes dos dias em todos os cantos do mundo, fazendo valer a ideia de justiça social há tanto tempo perseguida. 

O antropólogo Joseph Campbell dedicou sua vida a estudar os mitos, rituais e as religiões que têm constituído o arcabouço de crenças revelando o que trazem de profundamente comum ao longo da aventura humana na Terra. Mesmo considerando o que há de específico em cada cultura inserida num dado tempo e contexto históricos, ou como ele escreveu: “servem tão somente para denotar os acidentes da geografia, da data de nascimento e da renda… O ascetismo dos santos medievais e dos iogues da Índia, as iniciações dos mistérios helenísticos, as antigas filosofias do Oriente e do Ocidente são técnicas para levar a consciência individual a retirar a ênfase das vestes”. Despir-se de papéis. Eis o mote. Não somos este ou aquele, somos seres humanos envolvidos na experiência de sentir a vida em profundidade.

Campbell trabalha com a ideia do Monomito como unidade nuclear de todas as narrativas humanas, um termo que encontrou no livro “Finnegans Wake”, do escritor irlandês James Joyce:

“Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes”.

“Os mitos são pistas sobre a potencialidade humana”, ele diz.  Vivemos num tal grau de colapso do imaginário, asfixiadas(es/os) num ritmo walking dead na busca obsessiva por uma ideia de sucesso e supremacia individualistas que mal podemos imaginar e sem imaginar não teremos a menor chance de aprender e apreender nossas melhores potências. 

Logo no prefácio de “O homem de mil faces”, como uma prece, Campbell escreve:

“A esperança que acalento é a de que um esclarecimento realizado em termos de comparação possa contribuir para a causa, talvez não tão perdida, das forças que atuam, no mundo de hoje, em favor da unificação, não em nome de algum império político ou eclesiástico, mas com o objetivo de promover a mútua compreensão entre os seres humanos. Como nos dizem os Vedas: ‘A verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes’”.

Não se trata de biblioterapia. Não partilho da convicção da “cura pelos livros”. Mas concordo com a ideia de Freud de que literatura deveria ser entendida como um tema de saúde pública, porque promove uma experiência individual profunda com a psique humana, onde “Sua Majestade o eu, herói de todo sonhar acordado, bem como de todos os romances”

E falo de potência e não de soberba. Potência e não poder, que disso este mundinho já está muito bem servido. Potência para ser e compartilhar não poder para subjugar.

Uma educação para o sensível é urgente. Uma educação que promova experiências significativas, leituras significativas, entrelaçamento entre a ciência e o simbólico, que há milênios e de vozes vindas de todos os cantos do mundo anunciam que o pior e o melhor de nós está em nós. Que o melhor de nós pode vencer desde que apoiadas(os) e cientes que nossa vida no aqui e no agora é nossa eternidade possível, a eternidade da espécie humana, ao fio da qual nossa vida vem sendo tecida. E isso não é ficção, é transcendência humana.

Está faltando cilindros de oxigênio para manter vivas as pessoas internadas com Covid 19 em Manaus. E eu escrevo. Milhares de pessoas estão sem emprego devido ao fechamento de empresas. E eu escrevo. A violência não dá trégua. E eu escrevo. Milhares de estudantes não tiveram a menor chance de participar de aulas on line por falta de internet, de computador, de condições mínimas de estudo em suas casas e mesmo assim e em meio a um novo surto da pandemia da Covid 19 foi mantida a prova do ENEM que aprofunda a desigualdade e diz com todas as letras para estas vidas que elas não contam. E eu escrevo. Milhões de pessoas morrem de fome no mundo enquanto milhões são utilizados para minerar asteróides no cosmos. E eu escrevo. Milhares de crianças são vítimas de maus tratos. E eu escrevo. A Amazônia está em chamas. E eu escrevo. Mulheres e população LGBTQ+ são assassinadas. E eu escrevo. A população negra e indígena é diariamente massacrada. E eu escrevo. Há negacionismo e negacionistas sobre a pandemia da Covid 19, sobre o racismo praticado no miúdo dos dias, sobre o feminicídio, o infanticídio, o assassinato das florestas …..E eu escrevo. Eu escrevo. 

Eu escrevo amparada nesta ideia de humanidade possível trazida pelas histórias míticas e simbólicas que chegam até nós, mas não a toda a gente. Eu escrevo para compartilhar com você que há, sim, em nós, a possibilidade de uma humanidade expandida, que não se aquietará enquanto o melhor de nós não estiver plantado no mundo. Mas não virá de graça. Sempre foi e sempre será resultado de um amplo esforço coletivo no miúdo dos instantes da vida. E uma vez em rede seremos sempre oposição à ideia da subjugação do ser humano por outro ser humano e da natureza pelo ser humano. E não virá sem que esteja claro que há um direito inalienável, que é base para praticamente todos os direitos: o direito à palavra.

“Muitos dos que militam em favor de maior justiça social escolheram o livro, a leitura e a biblioteca como meio de dar poder a quem não tem poder, o poder de falar da escrita, a possibilidade de ser ouvido” (Geneviéve Patte).

Eu escrevo porque não podemos desistir. Eu escrevo e eu leio. Leio em rede. Leio mediada pela internet. Leio em grupo. Estou em dois atualmente. Com a Rosana, a Gisele, a Katia, a Wellita, a Maria Paula lemos “O enraizamento” da escritora e filósofa francesa Simone Weil, tecendo afetos e fortalecendo convicções sobre como deitar raízes em nós, em nossas relações e em nosso trabalho para pôr de pé vida digna, justa e plena para todas as gentes. E com a Vera, a Dilma e a Luciana estávamos e continuaremos lendo Clarissa Pinkola Estés, psicóloga junguiana, poeta e escritora norte-americana, na partilha de uma conversa íntima para clarear nossos porões e iluminar a potência dos afetos. 

Estas leituras e partilhas têm sido parte fundamental do que tenho feito para suportar e superar a asfixia destes tempos em que a barbárie reduz nossas potências e nos põe em prostração. Minhas salva vidas seguem sendo as pessoas queridas e aguerridas que me acolhem e resgatam e o universo simbólico que anuncia desde sempre que o caminho é árduo mas não estamos, nunca estivemos e jamais estaremos sós na jornada de atingirmos a beleza e grandeza potencial que habita em nós.

Nos nossos dias, a comunidade é o planeta e não a nação com seus limites, eis porque os padrões da agressão projetada, que antes serviam para coordenar o grupo voltado para si mesmo, hoje podem apenas dividi-lo em facções. A ideia de nação, com a bandeira servindo de totem, serve hoje de elemento engrandecedor do ego infantil, e não de elemento aniquilador da situação infantil… O herói moderno, o indivíduo moderno que tem a coragem de atender ao chamado e empreender a busca da morada dessa presença, com a qual todo o nosso destino deve ser sintonizado, não pode – na verdade, não deve – esperar que sua comunidade rejeite a degradação gerada pelo orgulho, pelo medo, pela avareza racionalizada e pela incompreensão santificada. ‘Vive’, diz Nietzsche, ‘como se o dia tivesse chegado’. Não é a sociedade que deve orientar e salvar o herói criativo: deve ocorrer precisamente o contrário. Dessa maneira, todos compartilhamos da suprema provação – todos carregamos a cruz do redentor – não nos momentos das grandes vitórias da tribo, mas nos silêncios do nosso próprio desespero”.

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