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Embora estejamos em plena e profícua era da informação, cuja capacidade de analisar fatos, em comparação com o passado, é quase que instantânea, um sem número de indivíduos ainda prefere acreditar na primeira versão que lhes é apresentada, e o pior, desacreditam em fatos comprovados, alegando que determinada pessoa seria incapaz de fazer tal coisa. Eis o paradoxo dos cidadãos da pós-modernidade: podem sair da caverna, mas preferem escutar quem está dentro dela (parafraseando o mito da caverna).

“O mundo anda tão complicado”, já bem cantara Renato Russo, em mais um clássico da Legião Urbana. Realmente, o mundo anda bem complicado, mas é por culpa tão somente dos atores sociais, e suas necessidades de defender o indefensável. Eu poderia falar de muitos assuntos neste texto, sem ao menos precisar mudar a introdução do mesmo: poderia falar das queimadas na Amazônia e no Pantanal, e a letargia do governo federal para agir; cabia falar do vice-líder do governo no senado, que fora encontrado com dinheiro na parte terminal do aparelho digestivo, dentre muitos outros temas, entretanto, falarei da questão insuportável da sociedade defender estupradores, culpabilizando à vítima.

Infelizmente estamos acostumados a ouvir o noticiário, e não raro surge uma denúncia de violência contra a mulher. Este ano, de maneira assustadora pra mim, ouvimos diversos relatos durante a “quarentena”, sobre mulheres que foram agredidas por quem deveria somar com elas, ou seja, seus maridos/parceiros/companheiros etc. Também ouvimos (infelizmente) notícias sobre estupros coletivos, o que gera uma revolta gigantesca pela dupla covardia do ato em si.

Na última semana, uma notícia do mundo futebolístico agitou às redes sociais e mídias tradicionais. O fato em questão foi que o Santos Futebol Club anunciou que estava contratando o jogador Robinho, mais um que fora revelado na lendária Vila Belmiro. Acontece que esse jogador foi acusado de participar de um estupro coletivo na Itália, e não só isso, já fora condenado a nove anos de prisão na primeira instância. Sua defesa recorreu, e ele pode continuar em liberdade até o fim do processo.

Diante da repercussão do caso, os patrocinadores do Santos se posicionaram e pediram uma posição oficial do Clube. As empresas alegaram que se o peixe confirmasse o contrato com o jogador, retirariam suas marcas como patrocinadores. Até aqui, pode-se dizer que as empresas estão preocupadas com seus nomes, e a possível imagem negativa que podem ter, diante da repercussão do caso nas redes sociais. Mas, e o Clube? Será que não há uma única pessoa lá dentro que se preocupou com isso, ou acreditaram que estando no Brasil, logo o alarido iria passar, haja vista o caso do goleiro Bruno que foi acusado de sequestrar e matar a mãe do seu filho, e que hoje joga em um time do Acre, e do goleiro Jean, ex-São Paulo, que foi acusado pela ex esposa de agressão, e que hoje joga normalmente no Atlético Goianiense?

O fato de banalizarmos enquanto sociedade à violência doméstica, não nos isenta de cumplicidade com os agressores. Sim, a sociedade que acha normal o homem bater em mulher é tão culpada quanto o agressor! Quando se faz piadas com este tipo de situação, dizendo que “quem sabe ela não mereceu mesmo uns tapas”, os delegados de polícia perpetuam a dilacerante pergunta para as vítimas: “o que foi que você fez para ele te bater?”. Nesta mesma toada acontece quando a situação é sobre um outro tipo de violência, comumente conhecida como estupro. Certamente você já ouviu alguém falar a famigerada frase: “mas você viu a roupa com que ela estava vestida? Quem se veste assim pede este tipo de tratamento!”

As sociedades ocidentais (e ouso dizer que não só elas) foram criadas com ideais vindos de outrora, um desses consiste na filosofia patriarcal. Trocando em miúdos, a tal filosofia patriarcal se sustenta na desigualdade de condições entre homens e mulheres. Diferente das relações sociais estabelecidas nas sociedades coletoras de antes da revolução agrícola, em que havia cooperação e harmonia entre os entes de diferentes sexos, na filosofia patriarcal tudo era voltado para viver em submissão ao patre familis. As grandes religiões monoteístas também se pautaram na perspectiva da filosofia patriarcal, deixando às mulheres em uma condição subalterna, para não dizer humilhante.

É nesta condição imaginada para a mulher que nossa sociedade foi criada. Yuval Noah Harari, no livro “Sapiens”, chama o que entendemos como natural na relação entre os entes sociais, de hierarquias imaginadas criadas, ou seja, a dominação do homem sobre a mulher não é algo natural, mais um mecanismo criado por homens para a glorificação do próprio homem. Bourdieu, no livro “A dominação masculina”, nos mostra que a força da ordem masculina dispensa justificativa, quer dizer, o homem não precisa provar nada, ele já nasceu homem!

Infelizmente a tal filosofia patriarcal permanece no imaginário social, e exerce uma força coercitiva sobre todos os agentes sociais (relembrando Émile Durkheim). Ao entender que uma mulher pode ser violada sexualmente, independente do estado em que ela se encontra, os agentes sociais do sexo masculino evocam sem vocalizar, que o homem pode fazer o que lhe aprouver, com consentimento ou não. Essa prática tacanha revela mais de quem a exerce do que quem é vitimado!

O jogador Robinho, ao tomar ciência da repercussão constrangedora que sua contratação rendeu, começou a atacar a quem ele acreditou ser o epicentro das acusações. Primeiro falou da Rede Globo, repetindo o bordão muito vocalizado pelos “guardiões do Crivella”, depois, em entrevista ao grupo Uol, disse que “infelizmente existe o movimento feminista”.

Ao ouvir isso eu logo pensei: o feminismo é uma forma de luta emancipatória empregada por mulheres, visando acabar com as injustiças impostas a elas durantes séculos. O feminismo não “ensina” mulher a não gostar de homem, pelo contrário, o feminismo visa jogar luz em questões desiguais, em que a mulher é sempre a vítima primeira de sistemas criados por homens em vistas a promoção do homem. O feminismo não tem culpa alguma se infelizmente ainda existe pessoas que acreditam que o homem é superior a mulher, pelo simples fato de ter nascido homem. Vivemos em uma sociedade que perpetua o falocentrísmo!

Não obstante em ter dito inverdades sobre o feminismo, em áudios que foram divulgados durante a semana, o jogador sempre evocava o nome do deus cristão, uma tática bem usual no Brasil, seja por políticos, artistas e a sociedade em geral. Participar de um estupro coletivo, em que a vítima, segundo relatos, encontrava-se embriagada, e depois, numa perspectiva de “limpar a barra”, usar o nome do deus cultuado no cristianismo revela bem a hipocrisia reinante na sociedade.

A questão que se revela a mim neste episódio (e em tantos outros) é que precisamos refundar a sociedade sobre outros pilares. Não dá mais para aceitar que práticas feudais de tratamento de seres humanos ainda acorram em nossos tempos. A violência contra mulher não é mais tolerada, assim como o racismo e tantos ouros tipo de injustiças. É preciso educar meninos e meninas para a igualdade. Já passou da hora de termos educação sexual nas escolas, para evitar que homens se sintam no direito de violentar corpos femininos, sejam adultos e em formação (crianças). Que a justiça se faça neste caso do Robinho, e se for comprovado que ele tem culpa, que ele pague por ela, e aprenda a lição. Respeita as minas!

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