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Foi com incredulidade que li o artigo “Como menino pobre apaixonado por Carmen Miranda se transformou no ‘maior ladrão de livros raros do Brasil’”,  escrito por Carlos Juliano Barros e publicado pela BBC Brasil no dia 6 de outubro de 2017. E por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque a matéria foi escrita, com conhecimento dos editores, por um dos coautores do documentário sobre a vida do ladrão que sequer omite o fato de ser amigo do mesmo. Pelo teor, autor e ocasião, é indiscutível o fato de que se trata de uma peça publicitária mal disfarçada de jornalismo. Sem qualquer preocupação editorial da BBC Brasil em contextualizar os eventos.

Como pesquisador de obras raras, que frequentemente precisou recorrer ao acervo da Biblioteca Nacional, é inconcebível pensar qual o propósito de publicar um artigo dessa natureza, permitindo que o autor construa a bel prazer uma visão romântica e, sobretudo, falsa, do criminoso – que hoje está finalmente cumprindo uma pena de 12 anos de cadeia pelos crimes que se conseguiu comprovar.

Que fique claro: Laéssio Rodrigues de Oliveira não é a “Menina que Roubava Livros”, personagem do romance de Markus Zusak, recentemente transformado em filme; nem é o jovem Flávio Fernando de Oliveira, que roubou livros da biblioteca municipal de Itápolis.

Ao contrário desses dois últimos, Laéssio não roubava livros para ler, nem por causa da sua condição depauperada: ele é um vigarista condenado. O chefe de uma quadrilha de ladrões que destruiu parte significante da memória brasileira, proibindo, talvez para sempre, que inúmeros cidadãos tenham acesso à sua própria memória cultural.

“Cartas Para um Ladrão de Livros”, longa-metragem que retrata a vida de Laéssio, concorre na Mostra Competitiva de Documentários do Festival do Rio 2017. Imagem: divulgação.

Os livros eram tirados de instituições públicas e levados, por dinheiro, para a mão de colecionadores privados no Brasil e na Europa. Mas o “amor” de Laéssio pelos livros não parava por aí: além de roubar volumes, Laéssio se especializou em arrancar páginas com gravuras de livros para vendê-las separadamente, destruindo os exemplares.

Não foram poucas as vezes que cruzei por obras vilipendiadas por Laéssio e sua gangue, ou por outros da mesma laia. Entre livros rasgados e volumes que já só existem no catálogo, como fantasmas, muitas são as obras que nenhum brasileiro voltará a ver. Algumas delas, únicas e irrecuperáveis, trocadas por uma vida de muito luxo e pouca cultura.

Além disso, a ação de ladrões como Laéssio faz com que as instituições tornem mais difícil o acesso às suas coleções por verdadeiros amantes de livros: aqueles que os lêem e os preservam. E quem tem a perder com isso, obviamente, é a sociedade, que ultimamente anda refém de uma sanha inquisitorial que talvez só possa ser curada com uma boa visita a uma biblioteca. Para ler.

A mera sugestão de Laéssio, corroborada em seu documentário biográfico, de que roubar livros não é um ato “violento” e, por isso, é menos grave e quiçá digno de elogio, é grotesca. A corrupção, a princípio, também não é violenta, e é por isso tolerável? Se aceitarmos esse raciocínio, no país violento em que vivemos, o que afinal ainda nos separa da barbárie?

Um grande amigo foi presidente da Biblioteca Nacional do Peru, que também foi atacada por uma horda de ladrões. Recentemente, em um evento internacional, ele me confessava a tristeza de ver a campanha que conduziu para recuperar os livros daquela biblioteca estava caindo no esquecimento. Mal imagina ele que, no Brasil, conseguimos pior. Estamos romantizando a destruição do nosso próprio patrimônio. E contra isso, não se ouve nada.

Qualquer pessoa informada sobre Laéssio e seus crimes sabe que o pedido de livros que ele enviou à Biblioteca Nacional não passou de um ardil para promover seu filme (cuja qualidade é discutível, tendo em vista a matéria tendenciosa e os baixos artifícios necessários para promovê-la) que, como se já não bastasse, foi financiado com dinheiro público através da ANCINE e co-produzido pela Globo Filmes: locupletemo-nos todos.

Da minha parte, não esperem os ladrões que eu assista ao filme e lhes dê ainda mais dinheiro, ou qualquer verniz de legitimidade.

Confiei que o mínimo que a BBC Brasil poderia fazer por este equívoco indesculpável, honrando sua tradição de veículo plural, seria comprometer-se a contar essa história, não apenas pela perspectiva do seu debochado algoz e sua campanha de marketing, mas também ouvindo as outras partes envolvidas: os leitores privados de livros; os pesquisadores que têm seus objetos de estudo destruídos; os heróicos bibliotecários que nadam contra a maré para preservar os acervos nacionais; as leis e o sistema legal, que combatem esse crime; e a própria sociedade, que fica ainda mais pobre, ainda mais irracional, na medida em que se esquece de si mesma. E em um momento tão crucial.

*Este post foi originalmente enviado como uma carta à BBC Brasil e, na ausência de uma resposta, o autor decidiu torná-la pública.

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