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O calendário diz 26 de maio de 2018. Um sábado de sol tímido e vento suave acena para o Rio de Janeiro. A natureza faz o seu papel e o dia amanhece muito mais do que agradável. Meu compromisso está marcado para as dez horas da manhã, portanto, há tempo hábil para outras atividades. “A Era das Máquinas exige que você trabalhe como um relógio. A diferença não vai estar no mundo, mas em você”, minha mente tergiversa antes de aceitar que precisa passar no supermercado.

Nas ruas, o fluxo de carros está reduzido. Desde segunda-feira, dia 21, os caminhoneiros decidiram entrar em greve, bloqueando e paralisando as rodovias em todo o país. Os manifestantes reclamam dos reajustes frequentes e da imprevisibilidade no preço dos combustíveis, principalmente do óleo diesel, exigindo também o fim da cobrança de pedágio por eixo suspenso e do PIS/Cofins sobre o diesel. Há outras reivindicações na pauta, mas a grande mídia brasileira – agindo abertamente a favor de sistemas políticos e econômicos – inventa a sua própria voz para o movimento.

Com o bloqueio das rodovias, o país atravessa um desabastecimento radical, nunca antes experimentado. Não há combustível, nem comida para atender a demanda, insumos hospitalares e mais nada. O país inteiro está completamente parado. A televisão, a internet, o rádio e os jornais anunciam o fim do país, o Walking Dead, o apocalipse da Terra Brasilis. De tudo isso, eu e mais de 207 milhões de habitantes já estávamos informados. No entanto, eu não tinha informações concretas sobre como as pessoas estavam se comportando diante da Crise do Diesel. Bem, pelo menos até esta maravilhosa manhã de sábado, quando eu e meu marido decidimos ir ao supermercado mais próximo de casa.

Há um número razoável de pessoas no estabelecimento. Algumas delas, da mesma família, levam dois carrinhos lotados de compras. Estou na seção dos grãos e ouço a disputa de duas mulheres por quatro sacos de cinco quilos de arroz.

– É meu! Eu vi primeiro.

– SINHÔRA, SOLTA ISSO. EU PEGUEI ANTES! – grita a mais jovem, com a perna no gesso.

– Eu já disse que vou levar. Eu, hein? Chega aí achando que pode tudo, minha filha!

Dou uma espiada nos carrinhos das duas gladiadoras: lotados até a borda. Mais gente com mais carrinhos lotados. Um senhor de aproximadamente oitenta anos, com muita dificuldade para se locomover, pega mais de dez garrafas de água. Quando um conhecido do ancião pergunta a razão de toda aquela quantidade, a resposta é digna de um profeta de Canudos:

– Isso aqui tudo vai afundar. Vai tudo ser engolido pelo mar de gente desesperada.

Em menos de meia hora, presencio outra disputa acirrada por iogurtes em promoção  – provavelmente próximos do vencimento e anunciados pelo locutor do mercado com o eufemismo “para consumo rápido” – e vejo a área de frutas e verduras ser deglutida pantagruelicamente. Quando uma mulher, indignada porque não conseguiu pegar seu cacho de bananas, pergunta exasperada para o funcionário “por que eles não racionam a quantidade por cliente, para que todos possam ter direitos iguais”, escuta de um homem que também estava na disputa pelas bananas que “cada um que salve o seu e cuide de si”.

Saio do supermercado achando que estava no set de gravações do filme “O Nevoeiro”, baseado na obra do escritor de terror e thriller Stephen King. Confesso ter ficado um pouco decepcionada ao perceber que estava mesmo nas ruas cheia de fuligem do meu bairro.

Ao retornar para casa, eu e meu marido solicitamos um táxi pelo serviço de aplicativos. O pedido é atendido e somos guiados ao nosso destino. No caminho, ouvimos as lamentações de um motorista enfadado, que não suporta mais “esse país arruinado, de povo estúpido, medíocre, e que permite que um presidente como esses, esse (*** – por respeito a você, leitor, que não ganhará nada com o conhecimento dessa palavra, melhor censurar)… Tudo culpa dessa gente, que ainda por cima permite que circule Uber!”.

Não sem certo espanto, vejo a crise política, econômica e social do país ser atribuída à atuação do Uber e fico me pergunto como a conversa descambou para esse assunto. Enquanto o taxista reclama aos berros, volto minha atenção para um programa de rádio que fala sobre o peso do divórcio para os filhos. Ao telefone, dando um depoimento melancólico, está um garoto de dezoito anos falando sobre a ausência do pai e de como isso afetou seu desenvolvimento, fazendo com que ele se tornasse uma espécie de “protetor” para o seu irmão mais novo.

Enfim, chegamos ao destino final: praia de Copacabana. Temos um encontro nas imediações e estamos quinze minutos adiantados. Nas ruas, pessoas caminham despreocupadas e aproveitam o sol, o cheiro do mar, a malemolência tão característica da cidade. Nas portas dos prédios, velhos conhecidos perguntam como está a situação dos hortifrutis.

– Tem quase nada com preço bom, vai logo! – escuto ao passar por duas pessoas.

Participamos do nosso encontro e, antes do meio dia, vamos para a estação de metrô mais próxima. A imagem me surpreende: está completamente vazia. Uma ou outra cabeça posa para uma foto isolada na estação General Osório. Vazia como o prenúncio de um apocalipse zumbi.

Depois de descer em Botafogo, pegamos uma integração até o Jardim Botânico e, após almoçar em um lugar bastante aprazível, caminhamos até a Lagoa Rodrigo de Freitas. Apesar do horário, o sol está morno, o vento com toque gelado faz a respiração sair melhor. Há pessoas passeando, correndo, fazendo piqueniques, andando de bicicleta… A luz do sol beija a lagoa. A copa das árvores brinca de esconde-esconde com os raios solares e com o vento. A imagem da água, da serenidade – apesar do caos – e da vida que respira seduz a minha mente. Sinto uma paz tremenda caminhando ali; a mesma paz que sinto ao dar voltas na praça Xavier de Brito, conhecida como “Praça dos Cavalinhos”, na Tijuca, ou percorrer as ruas do centro da cidade, tão cheias de histórias magnéticas – algumas oficializadas e outras não.

Na Lagoa, um lugar de beleza e paz, lágrimas tristes e sem alarde também desceram dos meus olhos em 2017, quando presenciei a homenagem aos PMs mortos no Rio de Janeiro. Uma série de placas de cor preta, em sinal de luto, com dizeres de lápides de cemitério, enfileiram-se com os nomes dos policiais mortos. Hoje, quando olho para o lugar das homenagens, pensando em tantas outras que ocorrem pelo país e outras que deveriam ocorrer, tenho certeza de que a situação do Brasil, para além de um “reality show para ser transformado na próxima Venezuela” – expressão que ouvi de um professor -, possibilita que nós, como povo que sente, vive e transforma, sejamos capazes de reagir aos problemas, ou enxergando-os como um abismo profundo, cujo único caminho é se atirar de olhos fechados, lamentando o nosso destino de “coitadinhos”, ou encarar as dificuldades como um portal de mudança e renovação.

O período eleitoral está chegando. E aí, o que vamos fazer? Qual será a nossa escolha enquanto povo? Pular ou lutar? Chorar ou mudar? Aceitar ou revolucionar?

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