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Eu quero com este texto me dirigir ao Partido dos Trabalhadores, comumente chamado de PT. Me dirijo a esse partido em particular, pois sempre fui simpático a ele, e por alguns bons anos me senti pertencente as suas fileiras. Mesmo não sendo filiado ao partido, eu era um convicto eleitor desde os meus 16 anos de idade, quando orgulhosamente tirei o meu título de eleitor para ajudar eleger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.

A ti, PT, quero entregar esta carta, que nada mais é do que um desabafo. Sim, PT, desabafo de quem muito acreditou em você, e que há tempos não se sente representado por ti. Escrevo, PT, para te lembrar como eras; como agias; como seus membros falavam e como uma boa parte da população brasileira se sentia representada por você. Mas as coisas mudam e contigo não foi diferente.

Lembro-me, PT, dos discursos arrebatadores nos anos de 1990, em que figuras importantes da e para a política nacional, e que eram filiadas a você, falavam de esperança, de um país melhor para todos nós, de uma possível divisão igualitária de renda, de um novo amanhã. Lembro-me de como era enfático ao criticar o governo da oposição, e cobrar melhorias nos salários, educação, saúde… Como falava com propriedade e criticava a economia neoliberal implantada pelo governo de FHC, e trava debates calorosos no parlamento nacional!

De forma inesperada, você, PT, manteve a política econômica implementada no país pelos governos que tanto criticou, neste caso os governos dos ex-presidentes Fernando Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso, ambos emissários da política neoliberal que chegou ao nosso país no início da década de 1990. Ao subir a rampa do Palácio do Planalto, PT, você manteve esta mesma política econômica, o que causou desconforto a muitos dos seus filiados.

Sei que fizestes boas coisas neste país, PT, e já expressei isso em outras oportunidades, e em outros meios que pude me expressar. Não sou injusto e nem posso deixar de dizer que milhões de brasileiros saíram da zona da pobreza; que milhões de estudantes conseguiram ingressar em uma universidade; que milhões de pessoas hoje têm a sua casa. Como mencionei acima, já testemunhei esta verdade e até faço aqui um mea culpa, para não ser comparado com um ingrato que só vê tragédias.

Dito isto, PT, volto a minha crítica. Critico você, PT, pois não tem cabimento termos 16% de taxas de juros e 60% do Produto Interno Bruto (PIB) destinado para amortecimento da dívida. Dívida essa que você sugeriu por muitas vezes não pagar, pois a dívida real era bem abaixo do que os juros impunham. Como pode, PT, no seu tempo de governo, fazer com que o Itaú e o Bradesco tivessem lucros estratosféricos em cada ano que se encerrava?! Os banqueiros deste país nunca lucraram tanto, PT, como lucraram de 2003 até os dias atuais.

Como pode, PT, você que tem o nome de Partido dos Trabalhadores, querer aprovar leis que atentam contra os trabalhadores?! Você que tanto bateu em Fernando Henrique Cardoso por conta da reforma da previdência em 1995, quer hoje mudar esta mesma previdência, de modo que os jovens de hoje corram o risco de nunca poderem se aposentar na vida, pois você quer aumentar o tempo de trabalho/contribuição, fazendo com isso que o trabalhador demore mais tempo para se aposentar. Logo você, PT, fazendo isso?!

Causa-me desgosto, PT, ver certas atitudes que tomou em nome da tal governabilidade. Com este fim, você simplesmente rasgou a sua história de lutas juntos com os trabalhadores, para se deleitar nos coffee breaks da vida e as mordomias que os ambientes palacianos lhes proporcionava. Negou as suas bases, cooptou líderes de movimentos sociais com cargos em ministérios e secretarias, tirou das ruas o povo que sempre a usou paras as suas lutas e reivindicações.

E as suas alianças, PT, como posso começar falando delas?! Você apertou a mão de um marginal procurado pela Interpol (pelo menos foi até a semana passada), em nome de apoio para se manter no governo, homem que você bradou nos microfones mostrando a sua corrupção e que foi alvo de seus mais refinados impropérios. Se você não lembra de quem estou falando, PT, eu lhe digo o nome: Paulo Maluf, famoso desviador de dinheiro da prefeitura de São Paulo e por você tão criticado e combatido no passado. Seu líder maior, PT, foi até a residência deste senhor em busca de apoio e pouso para os fotógrafos em um caloroso aperto de mãos; não obstante, seu jovem soldado, que era líder estudantil na época dos caras pintadas, também apertou a mão do famigerado Maluf. Que vergonha PT!

No Rio de Janeiro, PT, a sua tragédia foi maior. Nos últimos 10 anos, você resolveu assumir o compromisso de eleger figuras do PMDB para o governo do estado e para prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Tudo isso é claro, para cumprir a sua aliança com esta quadrilha, que já acontecia em âmbito nacional. Em detrimento de políticos que nasceram em seu seio, PT, mas que se descontentaram com suas práticas e foram e/ou fundaram outros, você lutou para eleger para governador o proximus como é conhecido na famosa lista da Odebrecht, mas para nós o tão conhecido Sérgio Cabral; contra o até agora honrado Marcelo Freixo, você ajudou na campanha do Nervosinho, o famoso prefeito do Rio que não gosta de pobres e nem da cidade de Maricá, que para ele é uma “cidade de merda”. Ah, este também recebeu a alcunha na famosa lista da famosa empreiteira. E como são as coisas, né, PT?! Hoje sabe quem vai lhe dar o empurrão da beira do precipício… adivinha!

Na educação e cultura, tenho lá minhas críticas, PT. Ao mesmo tempo em que criou algumas universidades federais neste país você, PT, ajudou a privatizar a educação, criando neste segmento, o mesmo processo que já acontecia na saúde. Ou seja, para a educação, como na saúde, a iniciativa privada ganhou força e crédito do governo, fazendo que a cada dia surgisse uma faculdade privada neste país, sem com isso termos a certeza de que os diplomas que sairão dali terão validade junto ao MEC. Ao invés de investir nas universidades que criou, você as deixou sucatear. Com isso, PT, tivemos duas grandes greves na sua gestão e, dizem nos corredores, vem a terceira por aí!

Na cultura outra tragédia! Nunca se fechou tantos museus federais na cidade do Rio, por exemplo, quanto se fechou na gestão do PT. É vergonhoso saber que o Museu Nacional, que fica em um casarão do século XVI, na Quinta da Boa Vista no Rio, e que viveu a família real por muitos anos, ficou fechado por falta de verba. Como assim, Brasil?! Um país que paga bilhões de reais a bancos e credores da dívida, não tem alguns milhares para dar manutenção a museus? É trágico, PT, mas tudo isso aconteceu na sua gestão.

O governo da política neoliberal, que foi do ex-presidente FHC, fez mais pela reforma agrário do que os governos do Partido dos Trabalhadores. Dói constatar isso, mas é a mais crua realidade. Veja no que você se tornou, PT! Onde você se encontra, partido? A luta não cessou; há muito que conquistar ainda. Que pena que você voltou seu olhar para a sua antiga base agora, pois precisa cada vez mais dela para barrar um covarde processo de impedimento que o seu caro companheiro PMDB está colocando em curso. Que pena, PT, que só agora você voltou a enxergar a comunidade LGBTT, os camponeses, o povo do MST, os sem teto, os indígenas, as mulheres, os negros…

Desejo-lhe sorte, PT, e que você encontre o caminho de volta logo. Tenho maior respeito pela sua história e de como lutou para chegar ao poder, mas acredito que pode ser diferente e você precisa mostra isso. Já usei no peito a sua estela, com orgulho, sem medo. Hoje eu lavando a bandeira de outro astro, que tomou pra si o que você já foi um dia.

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