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Desde que surgiu ano passado, o novo Coronavírus virou destaque e assunto principal em todo o mundo. Uma verdadeira guerra, em que já se perderam milhares de vidas e milhões seguem sendo infectados. No Brasil, com a primeira morte anunciada em março, a situação segue alarmante com números de mortes e infectados ainda em patamar alto. Dentre os impactos mais perversos desse cenário, estão os efeitos sobre a educação. As escolas seguem fechadas, quase 6 meses após o início das medidas de isolamento social.

A pandemia escancarou a grande desigualdade da educação no país, colocando em xeque as opções da educação remota para manutenção do ano letivo. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no Brasil, 4,8 milhões de crianças e adolescentes, na faixa de 9 a 17 anos, não têm acesso à internet em casa. Eles correspondem a 17% de todos os brasileiros nessa faixa etária. Esse quadro se refletiu na mobilização para adiamento do Enem. É notório que a maioria dos adolescentes nas escolas públicas não têm condições de acesso à educação nessa modalidade, que requer equipamento e internet de qualidade. Mas a educação é um direito garantido por lei, está no artigo 205 da Constituição Federal, com ou sem pandemia.

O Enem é o principal meio dos jovens pobres ingressarem na Universidade, junto com o ProUni e o Fies garantem oportunidade de ingresso em quase todas as instituições de ensino superior do país. O urgente e necessário adiamento do Enem mobilizou estudantes e instituições sociais de todo o país, preocupados em garantir o mínimo possível de dignidade e direitos igualitários. Essa luta ganhou mais força em um cenário político, cultural e social degradado pela falta de empatia e solidariedade aos milhares de jovens impedidos de estudar.

Jovens nas Bibliotecas Comunitárias da Rede Sou de Minas Uai. Foto: Daniela Praça

As bibliotecas comunitárias se somaram a essa luta, que ganhou grandes proporções nas redes sociais. Atuando em territórios de periferia, sabemos a importância do acesso dos jovens à educação e da preparação para o exame nacional. Dentro de nossas bibliotecas, muitos jovens buscam na leitura um diferencial para o exame e têm acesso aos livros indicados para as provas. Algumas bibliotecas, inclusive, possuem parceria com vestibulares comunitários e professores de ensino médio.

A RNBC organizou a participação das bibliotecas nessa mobilização através de seu Grupo de Trabalho de Incidência em Políticas Públicas, formado de pessoas de todas as redes locais, com o objetivo de lutar, garantir e dialogar sobre os direitos e deveres no âmbito do livro, leitura, literatura e bibliotecas. As diretrizes de uma educação de qualidade estão em consonância com o trabalho realizado nas bibliotecas comunitárias. Cultura e educação andam de mãos dadas e há muitas bibliotecas mantidas por instituições que têm como programa principal, creches e atividades educacionais.

Jovens nas Bibliotecas Comunitárias da Rede Sou de Minas Uai. Foto: Daniela Praça

Com a pandemia, o Grupo de Trabalho precisou se reinventar, tendo que abandonar as ações de forma presencial para utilizar as redes sociais, criando espaços antes pouco explorados. O Enem foi uma das primeiras propostas de ação que o GT assumiu como prioridade para marcar uma posição de apoio aos estudantes no diálogo com partidos e governantes. Foi criada uma ação coordenada de todas as redes de bibliotecas para publicação de postagens em suas redes sociais das hastags da campanha, mobilização de leitores, participação em petições on line. Nos juntamos ao movimento que levou o Adia Enem ao assunto mais comentado e replicado na internet.

Nessa primeira experiência de ação online, a maior do GT nesse novo contexto, tivemos sucesso. Conseguiu-se o tão importante adiamento das provas e um respiro para os jovens que sonham em ingressar na faculdade. Entretanto, o acesso à tecnologia de qualidade, que é um dever do Estado e um direito desses jovens, não está garantido. Continuamos mobilizados para outros embates, como a lei emergencial de cultura, o Fundeb, a taxação do livro. Na periferia e nas áreas de alta vulnerabilidade, onde estão localizadas as bibliotecas comunitárias, continuamos buscando preencher todos os espaços para abertura e/ou andamento das discussões que permitam enfrentar as dificuldades sociais, culturais e tecnológicas. Somos pessoas construindo com outras pessoas alicerces para um país e um mundo melhores para todos.

*Este texto contou com a colaboração de Maurício Paiva, mediador de leitura, auxiliar de biblioteca e gestor de projetos do Centro Cultural Corrente do Bem em Santa Luzia (MG). Realiza também trabalhos sobre empoderamento digital com jovens com uma parceria com a ong RECODE. É integrante da Rede Sou de Minas Uai e do Grupo de Incidência Política da RNBC. 

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