Por Silane Souza, jornal A Crítica

Aos 21 anos, a pedagoga Luana Nogueira, 28, recebeu o diagnóstico de que estava com a visão tubular, um sintoma do glaucoma bastante grave, em que apenas a visão central é percebida. Adaptar-se a nova vida e continuar os estudos não foi fácil, sobretudo porque as instituições de ensino superior não estavam preparadas para proporcionar a acessibilidade que precisava. Mas quem disse que ela desistiu? Pelo contrário, recorreu a Biblioteca Braille do Amazonas (BBAM) e, hoje, cursa a segunda graduação.

Livros em braille (sistema utilizado universalmente na leitura e na escrita por pessoas cegas), falados e digitalizados, além de filmes com audiodescrição são obras disponíveis na biblioteca as pessoas com deficiência visual. O espaço oferece ainda atividades de lazer e entretenimento, tais como festas comemorativas, espetáculos teatrais e musicais, sessões de filmes, todos com audiodescrição, contação de histórias e cursos do Sistema Braille, de Sorobã, informática e de música de teclado e violão.

Luana relata que a biblioteca foi fundamental para o seu aprendizado porque encontrou no local os livros falados e também aprendeu o Sistema Braille. “Foi através do acervo da Braille que adquiri conhecimento para elevar o meu nível de cognição e conclui o curso de pedagogia. Hoje faço psicologia e continuo frequentando a Braille. Vejo que as instituições de ensino superior não se preocupam em promover acessibilidade inclusiva como a Braille vem fazendo há muito tempo”, aponta.

A Biblioteca Braille do Amazonas foi implantada em 8 de novembro de 1999, no prédio da Biblioteca Pública do Estado. Em 4 de abril de 2008 foi ampliada e transferida para o bloco C do Centro de Convenções (Sambódromo) e, desde então, funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Atualmente, ela conta com um acervo de 50.466 volumes, distribuídos em: 984 obras em braille; 4.702 livros falados (em MP3); 44.676 livros digitalizados; e 104 filmes com audiodescrição.

De acordo com o gerente da Braille, Gilson Mauro Pereira, além de Manaus, existem 12 unidades da biblioteca instaladas em oito municípios do interior (Parintins, Maués, Barreirinha, Urucurituba, Careiro da Várzea, Itacoatiara, Presidente Figueiredo e Nova Olinda do Norte). E no Brasil, foram implantadas sete bibliotecas que são assistidas pela Braille, nas cidades de Imperatriz (MA), Santarém (PA), Palmas (TO), Porto Velho (RO), Vitória (ES), Fortaleza (CE) e Rio Branco (AC).

Frase

“É a inserção social verdadeira, romper as barreiras e fazer com que todos sejam iguais. Que tenhamos as mesmas oportunidades independentes das limitações”. Robério Braga – secretário de Cultura do AM

Saiba mais

A Biblioteca Braille do Amazonas faz parte da Rede de Leitura Inclusiva administrada pela Fundação Dorina Nowill para Cegos de São Paulo. Ela recebe doação de livros de diversas organizações do País, os quais reproduz em braille, audiolivros (MP3) e digitais (e-book) e distribui gratuitamente para as bibliotecas do interior do Estado e as demais instituições assistidas por ela.

A Braille ocupa um espaço físico com salas, equipamentos e um acervo com livros de diferentes áreas do conhecimento. No local, dois painéis chamam a atenção e não são elementos apenas decorativos. Ambos têm por objetivo servir como material didático. Trata-se de painéis com informações sobre textura e cores. Tem ainda dois estúdios para gravação de livros, um deles com vozes de voluntários.

Acanners de voz, impressora em Braille, leitores de tela, sintetizadores de voz, entre outras ferramentas tecnológicas também compõem o cenário. A biblioteca ainda coordena o vestibular da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) possibilitando, desta forma, de maneira adequada à preparação e a participação dos deficientes visuais no processo seletivo para a Universidade.

“Estamos de portas abertas para qualquer município que deseja participar da nossa Rede de Leitura Inclusiva. O nosso objetivo é levar mais cidadania para as pessoas do interior também. Levar a mesma política de inclusão social que a Secretaria Estadual de Cultura oferece em Manaus a todos os municípios amazonenses”, salienta Gilson Mauro Pereira, gerente da Biblioteca Braille do Amazonas.

Iniciativa rendeu prêmio nacional

Neste mês, o case sobre a “BBAM: educação, cultura e acessibilidade”, ganhou notório reconhecimento nacional ao conquistar a prata no “Prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia”, da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), na modalidade Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social – Empresa. O prêmio foi entregue no último dia 16, durante o Congresso Nacional de Recursos Humanos e Gestão de Pessoas (CONARH) 2016.

Em números

3.483.985 é a quantidade de pessoas com deficiência visual em todo o Amazonas, sendo que, 8.214 são cegas, 113.045 tem média visão, e 530.003 baixa visão, de acordo com o Censo 2010.

Blog

“Há 17 anos ainda não se falava tanto em acessibilidade e a SEC já estava promovendo isso com a criação da BBAM, um trabalho pequeno, mas bem estruturado. Na época, eu era gerente do Museu da Imagem e do Som (Misam) e a Vera Lúcia Ferreira era a diretora e nós tínhamos que ver um prédio da secretaria que estava fechado para saber como ele poderia ser aproveitado. Quando chegamos lá havia uma sala escura onde tinha muito livros, achávamos que eram enciclopédias, mas quando pegamos alguns e trouxemos para fora vimos que eram livros em braille. Falamos para o secretário Robério Braga, que imediatamente quis dar uma destinação aquelas obras. Depois de oito meses ele me chamou para assumir a BBAM era uma coisa pequenininha, mas ele queria ampliar. Em 1999 e 2000, fui enviada a vários lugares para ver quais eram as ideias e as novas novidades para que adaptássemos na nossa biblioteca, impulsionando a Braille a ser o que é hoje”. Ana Christina Estevam – primeira diretora da BBAM

Iniciativa através  da coleção de livros

O secretário estadual de Cultura, Robério Braga, conta como foi o surgimento da Biblioteca Braille do Amazonas. “O desembargador André Araújo organizou, em Manaus, há muito anos o Instituto Montessoriano Álvaro Maia, uma escola para atender crianças com deficiência, que tinha uma coleção de livros grandes com textos em Braille. Com o tempo a escola fechou e os livros foram levados para a Biblioteca Pública e eu sabia disso. Quando entrei na secretaria em 1997 mandei procurá-los para dar continuidade ao trabalho do desembargador”, relata.

Mas quando as obras foram achadas, conforme Robério, a coleção estava quase sem condições de uso em razão disto ele resolveu implantar uma biblioteca braille e começar de novo o trabalho iniciado pelo desembargador André Araújo. Só que com novas tecnologias. “Já tinha a máquina para escrever em Braille, a possibilidade de fazer audiolivros e as pessoas com deficiência visual tinham cada vez mais vontade de aprender. Fizemos o Balé de Cegos, a orquestra Grupo de Percussão de Surdos e fomos fazendo por seguimento e desenvolvendo uma série de atividades”.

Robério destacou que fomos o primeiro teatro do Brasil e América Latina a trabalhar com audiodescrição na ópera graça a parceria com a Vivo e até hoje o cego assisti o espetáculo ouvindo a música no fone de um lado do ouvido e a descrição da cena no outro. “Todo espetáculo tem uma área específica para eles com tradução para libras e audiodescrição para surdos e cegos. Mas trabalhamos com várias frentes na arte, lazer, entretenimento, estudo, literatura, cinema, teatro, dança, música. Na cultura não tem limitações e o que precisa fazer para inclusão social desse público eu faço”.

“A Biblioteca Braille é meu querubim”, completa o secretário estadual de Cultura. Conforme ele, é apaixonado pelo que faz, mas de todo o trabalho que fez dois considera vitais. “Um é a Biblioteca Braille e o outro é o programa de Restauro de Patrimônio Histórico, onde profissionais são treinados para restaurar livros, documentos, telas, pinturas, esculturas, monumentos, entre outros. É a inserção mais completa e a possibilidade de preservação de patrimônio”, evidenciou Robério Braga.

Serviço

O quê: Biblioteca Braille do AM

Onde: Centro de Convenções (Sambódromo)

Quando: de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h

Valor: gratuito

Informação: 3622-0869 e/ou pelo e-mal: braille@culturaamazonas.am.gov.br

 

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