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Os livros são para ler.
A cada livro o seu leitor.
A cada leitor o seu livro.
Poupe o tempo do leitor.
A biblioteca é um organismo em crescimento.
(Sirkali Ramamrita Ranganathan)

 

Por muito tempo discutimos que o acesso à informação simplesmente não basta. Começo a relativizar isso. É claro que não é só o acesso, mas a mística e o ritual de dar acesso, que ‘aprisiona’ para sempre o leitor. Para gostar de ler deve-se ser iniciado no processo. Para quem já teve os primeiros passos marcados irreparavelmente pelo vírus da literatura, vai ter mais possibilidades de compreender uma possível volta ao estado de leitor – às vezes apenas temporariamente afastado pelos afazeres do cotidiano. Mas para quem até o início da idade adulta não foi cooptado ainda a situação é mais difícil, exige mais avaliação e ritual. Claro que sem falar nos que sequer o sabem fazê-lo nessa fase! A esses, a atenção é de muito mais complexidade.

Vejo os exemplos sempre muito inteligentes no Corujão da Poesia, Universo da Leitura e da Música, projeto do meu amigo João do Corujão, professor da Universo em Niterói, e que funciona em bares e livrarias do Rio, São Gonçalo e Niterói na forma de saraus. Os relatos mais impressionantes pelo aparentemente simples gesto de “libertação dos livros” comovem a muitos em cada sessão. Abandonar um livro é um gesto de amor, de extrema sensibilidade e uma profissão de fé. Abandonar um livro é uma oração para – como gostaria [São] Ranganatham – que o livro encontre o seu leitor e o seu leitor o seu livro. Só aí já lidamos com duas leis da Biblioteconomia das mais importantes. São taxistas, entregadores de pizzaria, garçons e tantos outros mais ou menos óbvios que se encantam com os prazeres da literatura e que vão sendo aprisionados para sempre no doce vício de ler; e mais ainda o de ler a poesia.

Novas experiências tecnológicas

Existe outro projeto impressionante, ao qual desejo conhecer mais a fundo, que é One Laptop per Child (OLPC). Os relatos são impressionantes e é um orgulho saber que desde 2005 entidades Brasileiras dão apoio e viabilizam os projetos dessa iniciativa, como podem ver nessas referências:

OLPC Brazil – Universidade Federal Fluminense

OLPC – Brasil

Contam a história de muitas situações para nós inusitadas como, por exemplo, de uma comunidade na Etiópia onde foi deixada uma caixa com tablets e instruções com adultos para que os mesmos fossem carregados pelos painéis solares. Ninguém nunca tinha visto um aparelho eletrônico antes e em minutos depois que a equipe do OLPC saiu da Aldeia as crianças já sabiam ligá-los. Os números são impressionantes e eu adoraria testá-los.

“Em minutos desde a sua chegada, os tablets foram abertos e ligados pelas próprias crianças. Depois de aproximadamente uma semana, 47 aplicativos estavam sendo usados por dia. Após a segunda semana as crianças estavam jogando para ver quem dizia mais rápido o alfabeto”, disse Nicholas Negroponte, dono da empresa que já distribuiu 3 milhões de laptops para crianças em 40 países*.

As conclusões do fundador da companhia são, para mim, um pouco extremas; a sensação de que não haveria razão para professores nos processos de aprendizagem e que as crianças ensinariam a si próprias.

Negroponte explica que “a mensagem é muito simples: crianças podem aprender muitas coisas por si mesmas. Mais do que lhes damos crédito. Curiosidade é algo natural e todas as crianças a tem, a menos que ela lhes seja arrancada, o que ocorre frequentemente na própria escola. Fazer e compartilhar coisas são as chaves. Ter massivas bibliotecas com material explicativo como as modernas enciclopédias e livros didáticos é bom. Mas esse acesso será menos significante do que construir um mundo onde as ideias são modeladas, descobertas e reinventadas em nome do aprendizado através do fazer e da descoberta”*.

Não discuto a possibilidade de que isso ocorra, mas o quanto podemos ensinar melhor se, de uma forma mais consciente, mudarmos a atitude e a postura no ensinar? O problema com o aprendizado tradicional é que junto com o conhecimento tenta-se ensinar modos de ser, de viver, regras de convívio, de moral e ética que nem sempre favorecem a criatividade. São matérias, com caráter disciplinar, que talvez devessem ser posteriormente ou paralelamente incentivadas e discutidas da mesma forma que os primeiros contatos com o alfabeto e a programação de computadores. Na verdade são novos rituais que precisamos implementar, com clareza do que estamos produzindo e o que – e se – realmente desejamos reproduzir.

Essas iniciativas tão interessantes levam-me a crer que estamos deixando muitos burocratas no comando de coisas simples! A viabilização do acesso à informação é o que devem fazer, o resto é com as próprias pessoas. Nossa tarefa como bibliotecários, professores e mediadores de informação é proporcionar o ritual adequado para ‘cooptar’ – assim de modo meio subversivo, mesmo aliciar – os vários tipos de usuários, o que coloca nossa atenção em estudos de usuário e técnicas básicas de referência, de ensino-aprendizagem e de documentação, com foco no usuário e seus modos de aprender/ler, para proporcionarmos exatamente o que nos diz Ranganathan: poupe o tempo do leitor.

Afinal, em tempos de concorrência desleal em que tantos apelos à sensorialidade da experiência e à baixa exigência de refino na experiência sensorial, vídeo, música, TV, cinema produzem uma satisfação cada vez mais fácil, com pouca necessidade de elaboração e alto desempenho dos sentidos mais externos. Para concorrer com esse apelo e com uma crônica falta de tempo, talvez uma experiência mística, mágica, ritualizada e teatralizada do ato de ler, de escrever e se exprimir pode levar a uma elaboração maior e uma atenção aos sentimentos e formação mais intelectual da pessoa. Por isso os Saraus, as rodas de rima, as experiências como Rap e o Funk, retomam a tradição de repentistas e se lançam num dos aspectos da socialização que é o enfrentamento e a competição. Inserir aspectos transformadores de cooperação nesses processos pode ser uma estratégia de melhor aproveitamento de algumas dessas experiências.

Livros, laptops e tablets são para o uso

 

É preciso pensar a biblioteca como um lugar não de apego ao livro ou do livro patrimônio econômico, pois como diz a primeira lei de Ranaganathan: “os livros são para ser usados” – e eu a estendo aos laptops e tablets. A biblioteca é um lugar de relações humanas e rituais de trocas de saberes, onde o principal instrumento são os suportes de informação e sua riqueza ao que o suporte transporta é justamente a Cultura e seus canais de preservação da memória coletiva, dos registros da história, da possibilidade de reconhecimento e atualização imediata dessa ligação psicológica, sincrônica e fantástica que se estabelece entre leitor e autor através da mediação dos suportes. Essa visão parece-me muito mais próxima ao que o próprio Ranganathan nos apontava para a condição da biblioteca como um “organismo em crescimento”. Em crescimento, de natureza viva e autossustentável, do ponto de vista da continuidade do ato de ler ao ato de escrever e novamente recorrer à leitura, e ensinar ao jovem, e seguir perpetuando o ciclo que nos leva a ao crescimento geral da biblioteca, da literatura e das sociedades.

*NEGROPONTE, N. EmTech Preview: Another Way to Think about Learning. TechMIT, 2012. 

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