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Por Cauê Muraro do G1 de Paraty

De um lado, o elogio pelo número de mulheres, elas são quase metade dos convidados (17 autoras de um total de 39 participantes). De outro, a crítica pela completa ausência de escritores negros (e mais especificamente escritoras negras) entre os anunciados para os debates.

Antes mesmo começar, o que acontece na noite desta quarta-feira (29), a 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ganhou, ao mesmo tempo, aplausos e observações negativas.

Sobre as críticas, o curador do evento pelo terceiro ano consecutivo, Paulo Werneck, diz reconhecer a lacuna. “Fica como uma falha da programação, que nós reconhecemos e nos engajamos em resolver”, diz em entrevista ao G1 por telefone.

“Assim como resolvemos a questão das mulheres, na medida da nossa possibilidade. Mas não podemos resolver sozinhos.” Ele observa que faltam negros não só no palco, mas também na plateia da Flip.

Giovana Xavier, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou uma carta-aberta (clique aqui para ler) para expressar sua “indignação frente a ausência de autoras negras” na programação da Flip. O texto foi divulgado após a entrevista com Werneck. O G1 procurou a assessoria da festa literária e acrescentará seu posicionamento sobre o manifesto assim que o receber.

Mano Brown, Paulinho da Viola e Elza Soares recusaram
O curador da Flip lista os nomes (tanto da literatura e de outras áreas, como é tradição no evento) que recusaram o convite. Um deles foi Mano Brown, do Racionais MC’s. “Tivemos uma conversa que durou quatro meses, envolveu muitas pessoas que trabalharam com ele, quase conseguimos”, lamentou Werneck. Outra tentativa foi Paulinho da Viola: “Fiquei no pé dele pela segunda vez consecutiva, mas não deu”. A cantora Elza Soares também passou perto.

“Mandei o convite oficial a todos eles, por carta, e recebi resposta negativa. Então é isto: a programação é resultado dos convites que são aceitos”, justifica Werneck.

De acordo com ele, outras recusas vieram da célebre escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie; da escritora senegalesa Fatou Diome; do jornalista e ensaísta americano Ta-Nehisi Coates, autor do elogiado “Entre o mundo e eu” (uma “carta” ao filho em que da violência contra a população negra nos EUA); do astrofísico americano Neil deGrasse Tyson; da escritora e dramaturga francesa de origem senegalesa Marie NDiaye; e do premiado arquiteto Diébédo Francis Kéré, de Burkina Faso.

Flip acusada de ‘Arraiá da Branquidade’
Na carta de Giovana Xavier, da UFRJ, divulgada dois dias antes do início da Flip 2016, a acadêmica cita sua “indignação frente a ausência de autoras negras” na programação. Ela diz ser uma das criadoras da campanha #vistanossapalavraflip2016.

“A não procura de palnos a, b, c diante destas supostas recusas [de autores negros] relaciona-se à falta de compromisso político da Flip com múltiplas vozes literárias nacionais e internacionais”, escreveu no texto.

“Este silenciamento do nosso existir em uma feira que se reivindica cosmopolita, mas está mais para Arraiá da Branquidade, insere-se no passado-presente de escravidão, no qual a Mulher Negra é representada, vista e tratada como um corpo a ser dissecado.”

‘Sangue negro nas ruas de pedra de Paraty’
Ao falar na entrevista ao G1 sobre a baixa quantidade de negros entre o público da Flip, Paulo Werneck se lembra de um dos astros da edição de 2015, o escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, já cotado para o Nobel de literatura.

Em vários momentos de sua estadia em Paraty, Thiong’o elogiou a cidade mas repetiu que escravos africanos que carregaram as pedras do calçamento do centro histórico (“sangue africano, sangue negro foi derramado para criar esta beleza”). O autor também comentou ter visto poucas pessoas negras circulando pela região.

“A própria plateia da Flip tem essa mesma característica do Brasil”, compara Werneck. “O país ainda está democratizando seu universo de leitura. A universidade brasileira, há pouco tempo, começou a ter uma nova cara, e acho que esse movimento vai chegar na Flip – na plateia da Flip. Mas é um processo em que temos de trabalhar juntos para que seja superado.”

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