Há um dito popular que diz: “Morrer é fácil, difícil é fazer rir”. Isso porque as pessoas nem sempre riem das mesmas coisas, então o trabalho do comediante é difícil e tem de ser muito bem preparado a fim de conquistar o público a que se destina. O objetivo do comediante é fazer rir, sendo considerado um profissional essencial e polêmico simultaneamente. Essencial porque a vida sem uma pitada de humor e uma certa leveza fica muito pesada; polêmico, devido ao momento no qual vivemos do denominado “politicamente correto”, no qual é preciso pensar em tudo que se diz para não ofender ninguém e ser “cancelado”.

A standup comedy (espetáculo de humor no qual o comediante faz sua performance de pé, sem acessórios ou caracterizações) chegou ao Brasil na década de 1960 e vem conquistando o público. Diferentemente de outros gêneros artísticos, na standup o comediante não tem piadas prontas nem um roteiro genérico. Geralmente faz uso de temas do cotidiano e muitas vezes de sua própria história de vida.

Neste sentido, Afonso Padilha é considerado atualmente um dos principais comediantes do país e viaja com seu show solo e com o grupo 4 Amigos do qual é integrante juntamente com Thiago Ventura, Dihh Lopes e Márcio Donato.

Padilha iniciou na comédia no ano de 2010 e também é humorista, roteirista e escritor. Faz parte do time de profissionais do humor que escreve, interpreta, improvisa e produz seu próprio espetáculo, e além do mais possui livros publicados.

De acordo com a pesquisadora Isabel Ermida, o humor literário “consiste em situações pontuais que, curiosamente, assumem contornos muito semelhantes aos das anedotas”. Esta literatura possui como elemento principal o riso, sendo repleta de crítica, sarcasmo e ironia, que não apenas faz sorrir como também nos faz refletir e algumas vezes a nos questionar por que estamos rindo.

Muitas vezes é por meio da literatura de humor que pensamos sobre assuntos considerados tabus. O humor está presente na literatura considerada de massa e entretenimento quanto na alta literatura, por que então não fomentar mais sorrisos?

A estreia de Afonso Padilha no universo literário foi com o livro infantil lançado no ano de 2020, intitulado “Papai, cadê o vovô?”, em versão física e digital. A obra conta a história do pequeno Pepeu que pergunta para o pai sobre onde está o vovô paterno, que nunca apareceu. O pai de Pepeu, que foi criado apenas pela mãe, tem que contar por onde anda o avô. Quem acompanha o trabalho do humorista conhece a questão da ausência de seu pai, que foi comprar cigarro e nunca mais voltou, tema de muitas de suas piadas. Muitas vezes é através da literatura de humor que refletimos sobre assuntos considerados mais sérios, como neste livro que aborda o tema do abandono paterno e a maternidade solo, porém de forma leve e divertida. O livro também é uma declaração de amor e gratidão de um filho que foi criado somente pela mãe, uma situação vivida por milhares de pessoas no Brasil, mas que nunca desistiu de seus filhos. Uma obra para crianças e adultos que gostam de histórias engraçadas, mas com um enredo sério, retratadas de maneira lúdica, didática e emocionante.

Já em seu segundo livro “Não tá compensando ficar isolado”, lançado exclusivamente no formato de digital, escrito durante o período de isolamento social da pandemia de Covid-19, Padilha expõe crônicas de temas relacionados a quarentena e a própria pandemia. As crônicas foram inspiradas no escritor Luís Fernando Veríssimo, do qual é fã de longa data, e que também influenciou seus textos de standup. Segundo Padilha a leitura e a escrita são seus grandes diferenciais e o ajudam a alavancar sua carreira como comediante. “Nunca fui uma pessoa naturalmente engraçada, como Thiago Ventura, ou o Murilo Couto. Então pensei que teria que trabalhar muito mais. Desde novo na comédia, sempre tive o hábito de escrever e foi uma coisa que me deu destaque no meio, então acredito que se eu não tivesse feito tanto, criado tanto, não teria o mesmo reconhecimento que tenho hoje” (Correio Braziliense, 2020).

Seu terceiro livro foi publicado no ano de 2021, o segundo de crônicas, em formato físico chamado “O Evangelho segundo um humorista” pelo selo independente Banca do Minhoca. O livro é uma espécie de apanhado de cenas, esquetes, crônicas e textos humorísticos baseado no Velho e Novo Testamentos da Bíblia. Nele Padilha utiliza como referências as histórias mais conhecidas do imaginário popular, em novas situações e/ou outros pontos de vista diante das histórias já existentes. Este pode ser considerado um tema ousado, entretanto, segundo o autor, a intenção não é profanar a fé, o sagrado ou a religião, mas sim dar um novo olhar, mais bem-humorado, as histórias daquele que é considerado talvez o maior influenciador que já existiu na humanidade, Jesus Cristo. O livro já vendeu mais de 10 mil exemplares, algo a ser comemorado por ser um livro lançado de forma independente e de humor.

Padilha não pensa em parar por aí, ainda pretende lançar outro livro infantil e um no formato de prosa, que segundo ele, é um grande desafio. Para ele publicar é uma oportunidade que os comediantes têm de mostrar seus respectivos trabalhos, tendo em vista que grande parte dos textos que escreve para seus shows fica de fora do conhecimento do público que o acompanha e também é uma chance de atingir um novo público, o de leitores de comédia. Pode ser considerado um influenciador literário, contribuindo quem sabe para a formação de novos leitores, em função de ter o costume de postar em seu Instagram (@oafonsopadilha) os livros os quais lê mensalmente. Afonso é um bibliófilo, possui uma biblioteca com um acervo considerável em sua casa e diz que a leitura o ajuda muito a aumentar seu repertório para a construção de novas piadas. De fato, o ato da leitura transforma a forma de pensar e enriquece o nosso conhecimento, gerando uma capacidade imensurável de criar o inimaginável. Então, que o humor abençoe, amém.

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