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“E se eu fosse puta” foi um dos primeiros livros que li quando decidi ler mulheres por alguns meses. Um livro que, não fosse dentro desse projeto de leitura com o qual me presenteei, possivelmente teria sido adiado inúmeras vezes para depois de autores premiados e de autoras conhecidas. Teria sido uma lástima e uma grande perda pessoal e intelectual, cultural e humana.

Pessoal, porque ler esse livro me mostrou que, apesar da luta, muitos dos preconceitos sociais que nos são impostos persistem em nós, que é preciso estar alerta a isso e porque mudou meu modo de ver a prostituição, em especial as travestis prostitutas. Intelectual, porque me deu a possibilidade de pensar a partir de novos “lugares”, pensar sobre outras formas de criação e pensar em novos modos de vida.

Cultural, porque me apresentou um conjunto de fatos sobre uma sociedade dentro da nossa sociedade que eu não conhecia, uma cultura paralela. E humana, porque a criação literária, como ficção, é tomada pelas experiências de qualquer escritor ou escritora e também nesse livro isso ocorre, nos permitindo olhar com humanidade para pessoas que aprendemos a “desumanizar” desde que somos socializadas, na mais tenra idade.

“Elas” (travestis, putas, prostitutas cis ou trans) são como nós, são algumas de nós em condições diferentes, profissões, possibilidades e trajetórias diferentes. Mas aprendemos a dizer “elas” como se houvesse algo embutido nessa palavra, como se devesse significar outra coisa, como se fôssemos diferentes.

“Definitivamente, agora eu era outra e disposta a pagar o preço, quer dizer, cobrá-lo, ganhar pelo que soube aprender, pelo desejo que me coube atiçar.”

Primeiro, fui instigada pelo título depois que vi algo na internet sobre a autora. Não lembro se um texto ou um vídeo, mas vi que a Amara Moira (que eu nunca tinha ouvido falar) escreveu um livro cujo título me deixou muito curiosa, pois adoro títulos provocativos (e a capa é linda!). Uma busca rápida na internet me mostrou uma baita promoção (Yey!).

Começa com um prefácio escrito pela Indianara Siqueira, atual vereadora. É um texto muito rico, que vale de introdução ao assunto e um bom tapa na cara, suave na escrita, mas preciso e necessário para quem ainda tem preconceitos sobre a prostituição.

Começa assim: “Eu sempre falava: ser travesti tudo bem, puta jamais”. E, assim, percebemos a crueldade do preconceito ao ver que ele também afeta até mesmo quem viveu ou vive nessa profissão.

Em seguida, há um conjunto de tiras de Muriel, personagem da quadrinista Laerte, que se traveste aos poucos durante as histórias e que teve a “função de auto-representação por um período”, segundo a autora e quadrinista.

O livro parte de relatos que estavam em diários de Amara e no seu blog, de mesmo nome, mas fica bem claro que alterações ficcionais foram feitas, que houve cuidado na linguagem e na mudança de estrutura para que se tornasse um bom texto literário.

“- Mas a gente ganha pra isso?

– Você quinhentos porque é homem; travesti é mais oitocentos.

– E a gente faz o quê?

– Sexo, oras: tudo igual ao nosso dia a dia, namoradinhos, mas bem safadjeenhos.

Foi assim que minha namorada, uma travesti requisitadérrima pra pornôs (…) me convidou pra participar dum filme. Eu, lá pelos meus 20 anos, um menininho tonto, tentando viver na transição dela a que eu sequer me permitia imaginar pra mim, aceitei”.

Fiquei pensando como não é possível reduzir um texto desse a um diário ou relato de experiências. O ponto de partida para a criação literária é múltiplo e devemos aceitar isso, quer conheçamos sua origem, quer não.

“E se eu fosse puta” é um livro muito sério, mas divertidíssimo. Verdades e hipocrisias da nossa sociedade são jogadas na cara o tempo todo, às vezes até dói, mas é uma dor boa, e nos tira risadas se não insistirmos na hipocrisia. Quem gosta de uma boa sacanagem também vai curtir as histórias picantes de certas personagens que a gente tem quase certeza que conhece.

São personagens muito reais e muito comuns, com aquelas sujeirinhas sórdidas que todo mundo quer espiar sob o tapete da sociedade moral, “correta” e “respeitosa”. Também é um prato cheio para entender as gírias da comunidade LGBTs e das prostitutas que trabalham nas ruas. É riquíssimo.

Tem de tudo: drama, ingenuidade, descobertas, crise existencial, sexo bom e ruim, medos, preconceitos, formas de se relacionar, muito senso de humor e muita coragem para encarar a vida. Fala de auto-estima, auto-descoberta e amizade. Depois desse livro, a gente nunca mais encara a vida da mesma maneira e aprende muitos modos de driblar os próprios preconceitos.

“Dois níveis então de foda-se: não só me fazer como também dizê-lo, gritar minha condição, escrever sobre a rua ao mesmo tempo que a vivo”.

Outra coisa que achei interessante no livro é o modo como vários pontos de vista das mesmas história aparecem. Por exemplo, uma versão em que Amara conta como percebe um acontecimento atualmente, depois de superar tantas coisas, e capítulos à frente, em que diz como deve ter acontecido na época, com todas as crises e medos da situação. Isso acontece com todos nós e é bem interessante ler isso de modo literário, tão bem executado.

Acho que paro por aqui, porque escrevendo esse texto percebi que são muitas as possibilidades a explorar esse livro e não caberia aqui sem cansá-los. Mas leiam. Textos curtinhos, como se fossem crônicas da vida nem tão privada de Amara e que tornam a leitura fácil, junto a uma escrita leve e divertida.

Se o prefácio da Indianara introduz, o posfácio da Monnique Prada arremata o conjunto, falando direto com os transgressores politicamente corretos, ou seja, que não desrespeitam pessoas, não por respeitarem os direitos delas, mas porque não pega bem não aceitar as pessoas hoje em dia, então algumas fingem.

Só tem coisa boa nesse livro. Depois me conta o que achou.

Título: E se eu fosse puta

Autora: Amara Moira

Editora: Hoo Editora

ISBN: 978-85-699-3114-0

Ano: 2016

Páginas: 210

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