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No final do século XIX e começo do XX, Melvil Dewey desenvolveu um importante labor profissional sendo considerado um dos bibliotecarios mais influentes do mundo. No entanto, seu comportamento a respeito das mulheres em sua vida privada foi absolutamente reprovável, inclusive em um tempo no qual era mal visto que as mulheres denunciassem um assédio, fazendo com que ele fosse excluído em grande medida da profissão e até expulso da Associação Americana de Bibliotecas, uma organização que ele havia co-fundado.

Melvil Dewey, criador do Sistema de classificação bibliográfica que leva seu nome – Dewey Decimal Clasification -, revolucionou a maneira que as bibliotecas catalogam e classificam seus livros e publicações periódicas. Antes de existir essa classificação, praticamente cada biblioteca tinha seu próprio sistema, algumas inclusive colocavam os livros nas estantes por tamanho. A Classificação Decimal Universal (CDU), o sistema de classificação bibliográfica que utilizamos hoje nas bibliotecas europeias [e também brasileiras], provém do sistema de Classificação Decimal de Dewey, um e outro se diferenciam em poucas coisas, fundamentalmente que Dewey utiliza sempre 3 cifras; não existe o número 2, por exemplo, para religião, e no lugar de 2, se coloca 200; e também que o número quatro se ocupa da literatura, e no CDU, foi modificado o número colocando a literatura no número 8, deixando livre o 4 para um futuro desenvolvimento.

De Melvil Dewey também devemos o clássico ficheiro de madeira com puxador de aço para as fichas clássicas de biblioteca, que também foram uma invenção sua. Além disso, foi cofundador da American Library Association (ALA) em 1876, de modo que no ano 1906, se viu obrigado a deixar de participar ativamente. Quais foram as causas?

O problema de Dewey tinha a ver com as mulheres. Em 1887, Dewey fundou a School of Library Economy at Columbia College, na qual 90% de seus estudiantes eram mulheres. Durante muito tempo havia o rumor que além da informação básica como nome, idade e antecedentes, Dewey exigia que colocassem nas fichas de ingresso o tamanho dos seios de suas futuras estudantes. Ainda que esse rumor não seja certo, ele pedia fotos, mas tal pedido é só parte de uma longa história de um comportamento mais que reprovável.

Melvil Dewey em 1888 com os alunos da School of Library Economy at Columbia College, New
York City. Imagem: divulgação

Foram muitas mulheres que o denunciaram por assédio ao longo de sua vida. Duas de suas assistentes que viviam na mesma casa o denunciaram por toques indevidos. Alguns companheiros de trabalho também comentaram essa inclinação do ilustre bibliotecário, e em 1905, em uma viagem patrocinada pela American Library Association a Alaska, quatro mulheres o denunciaram por assédio não desejado, quando em 1906, se viu obrigado a renunciar à ALA e a vários outros cargos devido as várias acusações de assédio sexual e anti-semitismo.

Também é dito que o sistema de classificação decimal que se atribuiu a Melvil Dewey, na verdade foi idealizado por Adelaide Hasse, e que Dewey atribuiu o mérito a si próprio e ofereceu a ela que não reclamasse sua invenção com um novo trabalho com melhor salário na Biblioteca Pública de Nueva York, além disso, também a fez participar de um novo projeto, que segundo parece, terminou sendo um encontro privado com intenções pouco profissionais, segundo comentava Adelaide a suas colegas quando falava sobre a ofensa do comportamento de Dewey.

Apesar de que tal comportamento afetasse sua carreira profissional e muito de seus amigos se afastaram dele, Dewey não mudou seus hábitos depredadores. Em 1920, Godfrey e Marjorie, o filho e a nora de Dewey, se mudaram ao lar que todos compartilhavam, até que Marjorie se sentiu incomodada com o comportamento de seu sogro com ela e abandonaram o lar paterno. Em 1930, surgiram mais acusações de assédio sexual quando a ex-datilógrafa de Dewey o acusou de agredir-lhe, inclusive de beijar-lhe contra sua vontade em um táxi. Ainda Dewey, que tinha então 79 anos, inicialmente se defendeu das acusações como chantagem, no entanto, pagou 2.147 dólares – o equivalente a mais de 30.000 dólares da atualidade – para silenciar o caso.

“Durante muitos anos, as bibliotecárias tinham sido a presa especial do Sr. Dewey em uma série de ultrajes contra a decência”, argumentou em uma carta de 1924 Tessa Kelso, diretora da Biblioteca Pública de Los Ángeles e uma das críticas mais diretas de Dewey. Tessa Kelso ajudou a organizar un grupo de mulheres para que testemunhassem de maneira confidencial contra Dewey. Durante essa investigação, saiu à luz que Dewey supostamente havia assediado até a sua própria nora. Dewey negou as acusações, afirmando que Kelso e as outras mulheres eram “solteironas” que queriam arruinar sua carreira e, lamentavelmente, a investigação foi abandonada.

Afortunadamente, as coisas estão mudando, hoje em dia o site da Associação de Bibliotecas Americanas (ALA, sua sigla em inglés) proporciona um centro de intercâmbio de materiais para qualquer pessoa que sofra um assédio, incluindo o assédio sexual no lugar de trabalho. Se bem que faltam muitos temas ainda para resolver. A AFL-CIO encontrou que em 2014, as mulheres que trabalhavam como bibliotecárias em tempo integral tinham um salário médio anual de 48,589$, comparado con um salário de 52,528$ dos homens. Também informou que só 17,2% dos bibliotecários eram homens, mas eles ocupam 40% dos postos de diretores de bibliotecas nas universidades.

*Publicado originalmente no site Universo Abierto sob o título “La oscura historia sobre abusos sexuales de Melvil Dewey, el padre de la Biblioteconomía moderna“. Tradução de Tatiani Meneghini.

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