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Dona Maria nasceu na cidade de Capela, no interior de Sergipe. Ela trabalhava desde os três anos de idade na roça com seus pais, que eram analfabetos. Ela e os seus oito irmãos não tiveram o direito de aprender a ler e escrever. Para essa família restou a sina de trabalhar sol a sol para garantir um pedaço de carne seca com farinha nesse imenso latifúndio que é o Brasil.

O ser humano ainda no ventre materno se encontra envolto em muitos enredos, muitos sonhos são gerados junto com a criança e muitas histórias formuladas por seus pais e parentes. Ao nascer, começa o seu diálogo interno e externo com o mundo e a partir das suas cognições, passa a tecer as suas próprias fabulações.  E assim o ciclo de roteiros oníricos vai se perpetuando na raça humana.

As fabulações e abstrações tomam forma por meio de textos escritos e vivenciados em diferentes plataformas, como o livro, e-books, blogs, sites e outras redes sociais. Todos os dias nossas casas são invadidas por filmes, novelas, seriados, comerciais, tudo criado a partir de um roteiro escrito pelos inúmeros dramaturgos.

Mesmo não sabendo ler e escrever, após ficar viúva aos 16 anos, dona Maria se mudou para a Bahia e lá se casou de novo e do seu ventre nasceu apenas um filho. Mas do seu coração muitas outras crianças nasceram. Ao todo em sua família teve 21 filhos de criação. Todos os seus filhos aprenderam a ler e escrever. Mesmo sem entender bem dos direitos, e até mesmo tendo alguns deles negados, esta mulher conseguiu intuir em seu coração que a leitura era algo importante e “empoderador”, apesar da palavra não estar tão em moda na época. O presente que seus filhos mais ganhavam eram livros, e não raro, Maria pedia que eles lessem para ela suas histórias.

A leitura e escrita não podem ser um privilégio de poucos, mas um direito garantido para todos. Quem lida com a escrita e a leitura passeia pelo universo das abstrações, conectividades, conhecimento e interações. Universo basilar para a construção do convívio social, do reconhecimento de direitos e deveres e para a construção de consciências mais colaborativas e menos individualistas.

Ana Paula Carneiro, da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, realiza contação de história para crianças. Foto: divulgação

No Brasil há um grande número de programas e projetos de incentivo à leitura por meio de ações comunitárias, iniciativas privadas, e ainda de maneira insuficiente, pelo poder público. Este tem o dever de criar uma política de Estado que garanta o direito à leitura, estruturante para o acesso a outros direitos, ao contrário de políticas de governo, que podem ser desmontadas a cada mandato que assume o poder.

Nesse sentido, a Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE) que está tramitando no Senado pode vir a dar conta dessa lacuna nas políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e biblioteca e ainda seguir como fio condutor dos planos municipais e estaduais. Por reconhecer essa importância, a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias – RNBC faz parte do movimento de incidência política para a aprovação do PL 7.725/2017.

As redes de bibliotecas comunitárias que integram a RNBC realizam todos os anos um seminário local para discutir questões pertinentes às políticas públicas da área. E traz nesse bojo representantes das cadeias produtiva, mediadora e criativa, nos âmbitos municipais, estaduais e federais, com o objetivo de ampliar o debate nas cidades atendidas por essas bibliotecas e fomentar o aumento de novos parceiros que possam vir a abraçar a causa da leitura como Direito Humano.

Dona Maria se encantou há três anos, mas uma de suas filhas tem o orgulho de escrever esse texto e de dizer em todos os lugares em que chega sobre os seus pertencimentos. Sou Ana Paula Carneiro, mediadora de leitura da Biblioteca Comunitária Sete de Abril, articuladora da Rede de Bibliotecas Comunitárias de Salvador e integrante da comissão de PMAS (planejamento, monitoramento, avaliação e sistematização) da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias. Encontrei o meu lugar para lutar pela garantia de um direito que é de todos os humanos seres.

Viva a Leitura como Direito Humano!

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