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Vivemos em um país com muitos festejos, muita tradição e vários motivos para comemorar. De Norte a Sul do país, são muitas as formas de festejar alguma data comemorativa; seja de âmbito religioso, seja no âmbito secular. A nossa maior festa sem dúvida é o carnaval, e neste artigo nos atentaremos ao carnaval festejado na cidade do Rio de Janeiro, um dos mais famosos e frequentados do Brasil.

As Escolas de samba do Rio de Janeiro são conhecidas internacionalmente. Em quase todos os continentes, pessoas já ouviram falar de Portela, Mangueira, Vila Isabel, Estácio de Sá, Beija-Flor, Salgueiro, Mocidade, Tijuca, dentre outras. As Escolas arrastam verdadeiras multidões de amantes do samba e fanáticos torcedores durante todo o ano em eventos em suas próprias quadras/sedes, mas é no período do carnaval que as emoções afloram e a disputa propriamente dita começa.

São muitas as Escolas de samba que desfilam na cidade do Rio durante o carnaval. Este período pode ser compreendido entre sexta e terça, em pontos espalhados pela cidade, como por exemplo: Avenida Marquês de Sapucaí, no Centro, e a Estrada Intendente Magalhães no bairro de Campinho, subúrbio da cidade. As Escolas estão dividas em pelo menos três grupos, a saber: Grupo de Acesso B, organizado pela Associação das Escolas de Sambas do Rio de Janeiro, em que as mesmas desfilam na Intendente Magalhães; Grupo de Acesso A, organizado pela LIERJ – antiga LESGA -, em que as Escolas a ela filiadas desfilam na Marquês de Sapucaí; e o famoso, pomposo, milionário Grupo Especial, que é organizado pela LIESA, e suas agremiações desfilam igualmente na Sapucaí.

Por muitos anos os desfiles das Escolas de Samba eram realizados na Avenida presidente Vargas, umas das principais artérias do Centro da cidade. Iniciavam-se na famosa e lendária Praça XI, e terminavam próximo à igreja da Candelária – igualmente famosa e lendária, principalmente no período da Ditadura Militar. As agremiações ficavam horas na avenida mostrando os seus enredos, seus sambas antológicos, e principalmente brincando o carnaval. Quem nunca ouviu uma história do saudoso Natalino, mais conhecido como seu Natal da Portela?! Ou do seu Agenor de Oliveira, popularmente conhecido como Cartola?! Conta-se que antes de um desfile da Portela, seu Natal bateu o pé e afirmou com todas as letras que a Portela só entraria na Avenida quando todos os papeis picados fossem recolhidos… Daí surgiu a tradição que dura até hoje, dos garis varrerem o chão da avenida depois do desfile de cada agremiação. As curiosidades não acabam por aqui, mas optou-se por trazer apenas essa.

Como mencionado acima, muitas são as Escolas de Samba que participam do carnaval carioca. Algumas nem existem mais nos dias atuais, mas a grande maioria permanece movida pelo amor e dedicação ao carnaval. Em depoimento gravado para o livro Pioneiros do Samba do MIS – Museu da Imagem e do Som -, em 1992, Acelino dos Santos, carinhosamente conhecido pela alcunha de Bicho Novo, que por muitos anos foi mestre-sala do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá, disse: “Com dezesseis anos, em 1925, fundei, junto com amigos, a Escola de Samba Cada Ano Sai Melhor. A partir daí, comecei a me dedicar realmente a dançar, a ser mestre-sala e a ser aplaudido dentro da Praça Onze. Em 1926 já formávamos um grupo bastante grande na Praça. Desfilavam a Mangueira, a Portela, a Em Ccima da Hora, a Deixa Falar, a União de Vaz Lobo, e outras”.

Das Escolas que o “Bicho Novo” mencionou, muitos só reconhecerão as famosas e detentoras de 39 título juntas: Mangueira e Portela. A Deixa Falar hoje é Estácio de Sá, a Encima da Hora ainda desfila, mas e a União de Vaz Lobo?! Confesso que fiz uma pesquisa em minha biblioteca particular, ou seja, uma pesquisa rasa, mas não encontrei nenhum registro dessa Escola em nossos dias. Entretanto, a Estácio de Sá e a Encima da Hora, que já participavam dos desfiles de Escolas de Samba no carnaval de 1926, continuam vivas, mas com um agravante: estão longe dos holofotes e lentes da grande mídia.

Desde tenra idade ouço falar de Escolas de Samba e de grandes nomes relacionados a elas. Como a maioria dos fluminenses, eu também tenho a minha agremiação do coração e sofro, choro, me alegro e comemoro com ela. Lembro-me dos carnavais dos anos 1990, em que os desfiles começavam às 18h e só acabavam na manhã seguinte. Muitas Escolas desfilavam na Marquês de Sapucaí no carnaval, e muitas eram do Grupo Especial. Numa pesquisa feita no site da Liga Independente das Escolas de Samba – LIESAS -, de 1990 a 2000, as escolas de sambas que desfilavam no Grupo Especial variaram de 18 a 14 escolas (tiveram anos em que desfilaram 15; 16 escolas). As transmissões começavam no fim da tarde e varavam a noite inteira. Quem passava os desfiles na íntegra era a extinta Rede Manchete de Televisão, sendo que  a Rede Globo só transmitia os desfiles depois de encerrar a sua programação normal. Muitos carnavais se passaram, a Rede Manchete não existe mais, os direitos de transmissão pertencem exclusivamente à Rede Globo de Televisão, as Escolas que desfilam hoje no Grupo Especial são apenas 12 (desde 2008) e os desfiles agora começam às 21h.

No carnaval do ano passado, fiz questão de assistir a todos os desfiles das Escolas de Samba, no palco do espetáculo: Sambódromo. Vi Escolas de Samba do calibre de Estácio de Sá, Em Cima da Hora, Caprichosos de Pilares, Tradição, Paraíso do Tuiuti, Império Serrano, Viradouro, Porto da Pedra, Acadêmicos do Cubango e tantas outras lutarem entre si para conquistar o título e a tão sonhada vaga para o Grupo Especial. Essas Escolas estão chanceladas pela LIERJ (sucursal da LIESA), e tem em seu regulamento a triste realidade de apenas uma ascender ao grupo de elite do carnaval carioca e três caírem para um grupo inferior, o acesso B.

A parceria privado e público (LIESA/GLOBO/RIOTUR) transformou o carnaval do Rio em espetáculo; algo positivo devido à visibilidade que esta festa passou a ter em âmbito nacional e internacional, mas me incomoda muito ter doze Escolas de Sambas apenas desfilando no Grupo Especial, quando já tivemos dezoito. Vejo nessa parceria um problema quando, por exemplo, Escolas tão tradicionais do carnaval carioca como Estácio, Em Cima da Hora, Império Serrano, Tradição, Caprichosos de Pilares se apequenarem cada dia mais, acostumando-se a desfilar no Grupo de Acesso. Entristece-me ver uma Escola que entra para defender o título faltando fantasias em várias alas permanecer no grupo da elite e uma que fez um desfiles plasticamente perfeito voltar ao indesejado Grupo de Acesso.

Infelizmente as Escolas de Samba viraram empresas e não mais agremiações. Isso fica claro quando o dinheiro fala mais alto, não importando, por exemplo, se a Escola tem tradição ou não no carnaval; fica a que tiver o poder aquisitivo maior.

A festa virou espetáculo, o povo nem sempre tem acesso às arquibancadas, camarotes, cadeiras. O carnaval perde um pouco da sua espontaneidade, tudo ficou ensaiado, coreografado, chato. Mas o amor pelo carnaval não acaba, a vontade de ver sua Escola campeã só entende quem torce por uma. Os mandatários das agremiações, os burocratas do poder público e os manipuladores da grande mídia passarão, o carnaval ficará!

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