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“Escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento de porque se tornou impossível escrever poemas”. A afirmação de Adorno é uma reapropriação da questão proposta pelo poeta pré-romântico alemão Holderlin na elegia “Pão e vinho”: “para que poetas em tempos de indigência?”.

Sim, para que poesia, crítica, filosofia e ficção em tempos de penúria, miséria e reinado do hediondo? Pergunto agora em pleno limiar do século XXI. Acaso a poesia (pensada aqui na forma mais abrangente possível) pode ainda existir quando a vida perdeu o sentido diante de atos que se alimentam do ódio para anular ou nos fazer duvidar de qualquer beleza que possa advir da humanidade? Que resta aos poetas e à poesia nesses tempos embrutecedores, que demolem palmo a palmo qualquer possibilidade de esperança na humanidade? Acordamos todos os dias com notícias assombrosas que parecem nos dizer: “Bem-vindos ao futuro do pretérito, ou melhor, bem-vindos ao futuro pretérito”.

A máquina do tempo parece que só sabe nos transportar aos tempos remotos, quando as crenças nos deuses é que gerenciavam o cotidiano dos homens, e tudo resvalava para aceitação do horror porque os deuses queriam sangue. Tanta maldade travestida de escrita sagrada. Boa-nova para quem e para quê? Todos os dias acordamos ainda de ressaca das feridas de ontem, e já novas erupções irrompem: um atentado ali, um sequestro acolá, um golpe aqui, malas e malas de um dinheiro que deveria estar a serviço da vida e da esperança de muitos.

Todos os dias caem alguns dos nossos direitos conquistados através do suor e do sangue de muitos. Todos os dias ferem a Constituição se utilizando justamente da palavra e dos credos. Supostamente em nome da fé, imorais legislam em favor de si e dos seus. Supostamente em nome da democracia, imorais promovem uma desforra nas coisas do povo, enquanto o povo parece anestesiado ou hipnotizado pelo olho maldito que, quando devia anunciar e denunciar essas atrocidades, resolve lançar pílulas e mais pílulas de excitação e falsa alegria.

Diariamente, justiceiros têm perpetrado o horror ao caçar as bruxas do século XXI. Esses senhores e senhoras vestem roupas com cores de sua nação, e galopam ensandecidos contra o que consideram um mal para as famílias de bem, aos crentes e às escolas. Por isso, invadem escolas para vigiar e punir professores que insistem em formar sujeitos pensantes e reflexivos; invadem galerias de arte para dizer quais obras devem ser expurgadas por ferir a moral e os bons costumes; invadem peças de teatro, capturam imagens, deturpam-nas, e lançam-nas nas redes sociais para que uma horda de infelizes possam julgar, condenar e decretar o fim da arte; invadem terreiros de cultos afro-brasileiros e, com tacos onde está escrito o nome “diálogo”, obrigam babalorixás e yalorixás a quebrar seus altares, desfazendo suas guias e aniquilando seus símbolos de ancestralidade.

É tempo de justiceiros que não têm moral e formação para fazer o que fazem. E é tempo de juízes que se utilizam de seus diplomas e togas para, junto com a imprensa, forjar verdades e legitimar a manutenção e atuação de bandidos nos poderes da União. Para que poetas em tempos de barbárie, me digam? Para que ficção e poesia nesses tempos em que a realidade não se cansa de engravidar e parir o hediondo que é mais horrível que os castigos que os amaldiçoados recebem em cada um dos anéis do inferno de Dante? Os demônios, se existirem, somos nós, e o inferno é agora e aqui mesmo.

Acaso a filosofia e a poesia podem alguma coisa contra isso? Se essas duas forças da palavra não se levantarem contra a maldade, quem poderá fazê-lo? Por que filosofia e poesia, do alto de mais de dois milênios, insistem em manter crepitando a chama da reflexão? Não será justamente porque o homem está sempre à beira do escabroso? Não será justamente porque a humanidade é um perigo para si mesma? Em tempos de crise, poesia e filosofia devem falar do que senão da crise? Poesia e pensamento não são soníferos, nem devem funcionar como fonte de alienação. Os poetas e os pensadores são guardiões de uma linguagem que deve acordar os homens para as mazelas do seu tempo.

Livro “Para que poetas em tempo de terrorismos?”, do professor (UFRJ) e poeta Alberto Pucheu, publicado pela Azougue Editorial.

Duas obras lançadas recentemente provam o valor da reflexão em momentos críticos de ataque. E respondem à questão de Holderlin, Adorno e a nossa agora. O primeiro livro, Para que poetas em tempo de terrorismos?, do professor (UFRJ) e poeta Alberto Pucheu, lançado pela Azougue Editorial. O segundo livro, Constelares: reflexões, do professor Marcelo Peloggio (UFC), publicado pela Editora Porto de Ideias. Ambos partem de duas propostas lançadas pelos pré-românticos, o que prova que a história sempre gira em espiral e a produção das revoluções de um tempo servem de ponto de partida para outras revoluções.

Livro “Constelares: reflexões”, do professor Marcelo Peloggio (UFC), publicado pela Editora Porto de Ideias.

Já o título do livro de poemas de Pucheu conversa ao mesmo tempo com os séculos XVIII e o XXI, colocando lado a lado penúria e terrorismo, e apelando para a necessidade de um revolta maior que aquela perpetrada pelos imbecis que dizem ser arautos da verdade, quando não passam de defensores do obscurantismo e do que ele vomita, a saber: a fetichização do nacionalismo, o fascismo, o preconceito racial, a revolta contra as discussões sobre gênero etc. Não à toa, a capa do livro parece ser um daqueles cartazes feitos com papel pardo em oficina realizada durante uma das manifestações em defesa da democracia e contra a corja de canalhas que depôs uma presidente e assaltou o poder.

Se a poesia não convidar os homens a se rebelarem, quem poderá fazê-lo: a igreja, a escola, os sindicatos? A mim parece que todas essas instituições estão encurraladas, quando não estão sendo usadas para cercear corpos e calar suas vozes. Em nome de Cristo, têm-se restaurado o maldito tribunal da inquisição. Em nome do saber, têm-se dito por aí que escola (e também universidade) não é lugar para se discutir nem política, nem gênero, nem qualquer assunto que não diga respeito a conhecimento. Leia-se conhecimento como “informação” apenas.

Mas para que conhecimento que só gera acúmulo e não reflexão? Em nome do dinheiro ou do futuro, têm-se professado uma fé na revanche das próximas eleições, ou na necessidade de se entregar nas mãos das empresas privadas o que não gera lucra, a saber, as estatais. No poema que dá título ao livro, uma pancada:

na disputa entre o estado e o terrorismo,
na conciliação do estado com as empresas
pelo lucro do capital acima de tudo,
na sobreposição do templo com o banco
dispondo a cada momento da fé ou do crédito
de todo exército com as armas em sua defesa,
na definição do dinheiro (que já foi chamado
de homem) como o único animal que bombardeia,
fico com as pessoas comuns, quaisquer,
com os rios, os bichos e as matas, com os que sentem
na pele até não serem mais capazes de sentir.
terrorista, hoje, é o outro, o que, coisificado, escapa
às diversas escalas, maiores ou menores,
da época do pau de selfie que vivemos,
terrorista, hoje, repito, é o outro, o inferno
do outro, o outro enquanto inferno, terror. 
[1]

Pucheu fala do seu tempo, na linguagem do seu tempo, exercício crítico que têm feito seja como professor, crítico literário ou como poeta. Esse apelo, e a forma de dizê-lo, mostram que não se encerra a função de crítica para fazer poesia, assim como não se fecha a porta do poeta para abrir a do ensino. Na pergunta “Para que poetas em tempos de terrorismos” deve-se substituir a palavra “poetas” por “professores”, “críticos”, “militantes”, “religiosos”, “alunos”, “pais”, “filhos”. Todos esses sujeitos não deixam de cumprir inúmeros papéis sociais e políticos. E é urgente que o assumam, pelo seu bem e pelo bem da coletividade. Com o poema “O golpe”, o leitor é confrontado com a passividade do homem agindo com indiferença diante do absurdo:

saio na rua e tudo me parece normal
como se nada tivesse acontecido,
a banca de jornal está aberta, a padaria
continua a vender pão com manteiga
na chapa e café quente
para os que ainda estão saindo
para o trabalho ou chegando nele,
as pessoas continuam pegando seus ônibus,
atravessando as roletas, abrindo as janelas,
falando sobre a zika e outros assuntos
menos graves como a tintura para os cabelos
ou o formato do botão da camisa,
os operários da obra em frente ao meu quarto
continuam a chegar nos horários previstos,
eles trabalham com afinco enquanto o vigilante
ouve seu rádio em uma estação a.m.
qualquer, há pais e mães que evitam o tema
nos jantares de família para falarem
do último casaco que foi comprado
para a chegada do inverno ou da cor
do esmalte ou do resultado do jogo
de cartas ou de futebol de ontem,
porque nunca quiseram aprender
a lidar com as diferenças existentes,
preferindo recalcá-las em nome
do que chamam a cada dia de amor
(a maior felicidade do mundo),
acrescentando a frase contraditória
ao dizerem que política não se discute, […] [2]

Pelo trecho em questão, surge um problema: o poeta estaria mesmo refletindo sobre passividade ou omissão? De indiferença também se mata e se morre. E parece que o poema questiona justamente quem tem coragem de dizer diante do golpe: “O problema não é meu, foram vocês que escolheram um golpista como vice”. Ou ainda quem simplesmente deixou de bater panelas, de gritar que não pagaria o pato, de bradar contra os corruptos. É que a indiferença é a matéria predileta daqueles que se formaram na escola da hipocrisia.

De hipócritas que batem no peito e dizem amar o país, esse território está cheio; e esses não só não se importam com o avanço do abismo entre pobres e ricos, com o desmonte do serviço público, com a entrega das empresas às empresas estrangeiras, com os treze milhões de desempregados, como se mantêm na defensiva: “Não fui eu, não compactuei com isso, não me meto nisso”.

O livro de Peloggio parte de ruminações, fragmentos, luminescências nos moldes das poéticas de Schlegel e Novalis. Anedotas, chistes e finas ironias compunham as reflexões daqueles alemães como compõem as máximas do livro de Peloggio. Não se trata de uma ruminação qualquer, pois é justamente a poética do fragmento que lança luzes sobre um pensamento que precisa ser digerido lentamente até explodir, tal qual o brilho de uma estrela que vemos da Terra e que já nem existe. Ou, como Novalis mesmo disse em “Pólen”: “Amigos, o chão está pobre, precisamos espalhar ricas sementes/Para que nos medrem colheitas apenas módicas”. Estrela ou pólen? As constelações-reflexões de Peloggio são seis: Sirius, Canopus, Toliman, Arturo, Vega, Capella. Cada uma projeta inúmeras luzes que nos fazem encarar nosso próprio estado de penúria, nossos corpos sem brilho, nossas mazelas. “Pós-modernidade”, “pobre de direita”, “do chamado ‘coxinha’”, “Fascismo”, “Fanatismo” são algumas das reflexões desconcertantes do livro.

Querendo ou não, o leitor é desafiado a pensar. É como se cada luminescência fosse um espelho que mostrasse ao leitor os fantasmas que ele insiste em acalentar, como quem nina uma criança ensimesmada. Por isso, o texto de epígrafe é certeiro: “Faz bem mirar-se no espelho de vez em quando e dizer com franca sinceridade: ‘- Nossa, mas que idiota.’” E página após página, reflexão após reflexão, Peloggio vai nos mostrando temas caros da contemporaneidade que alguns de nós evitamos olhar detidamente por medo de reconhecer ali que somos seres deploráveis em muitas situações. Encaremos, por exemplo, um trecho da reflexão III cujo título é “Os bestializados do golpe”:

Os bestializados jamais constituíram uma farsa coletiva; em verdade, eles designam a mais pura tragédia […] Nos restaurantes, nos bares, nas universidades, nas repartições fala-se de tudo: de cerveja artesanal, de colega de trabalho, de namoro, dos zodíacos… de golpe mesmo… nada! Nada está acontecendo! A tragédia está dada. Ou melhor, nunca saímos da tragédia porque não chegamos a conhecê-la de fato… (2017, p. 17).

Ou a reflexão XIX, que denomina “Pobre de direita”, verbete do Brasil do nosso tempo: “É o sujeito plenamente convicto do seu lugar no mundo” (p. 21). E, por último, a reflexão XLVI, “Sobre manadas e rebanhos”: “Não é atribuição de padres e pastores formar rebanhos, e sim interlocutores; rebanho é coisa de tocador de gado” (p. 28).

Pucheu e Peloggio são dois professores universitários que ministram aulas de literatura e fazem da sala de aula um espaço onde a literatura não só é provocada a empreender uma pergunta a si mesma, como para que poetas e professores (de literatura) em tempos de penúria, barbárie e terrorismos.


[1] Para ouvir esse trecho pelo próprio poeta, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=TcR0sJ-YPGA.

[2] Para ouvir o poema completo na voz de Cláudio Oliveira, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=HRmuhoNW4ao.

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