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Quando se fala em leitura literária, há uma idealização da ação: você deitado confortavelmente em alguma poltrona, um abajur ao lado para não cansar a vista, um café forte e quentinho para ir bebericando enquanto folheia os livros com um leve sorriso de prazer no rosto. Esta cena é quase uma pintura digna de emoldurar e colocar na sala de estar. Mas a realidade vai além disso, não afirmo que uma cena dessas não possa acontecer, mas, com o trabalho de dez anos nas bibliotecas comunitárias, a cena que se mostra é totalmente inversa a esta e requer um trabalho com múltiplos atores.

Muitas crianças chegam à adolescência sem ao menos ler ou até leem com muita dificuldade, como apontam dados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), divulgados ainda no início deste ano. Apesar dos avanços na educação, o brasileiro só estará no nível educacional relacionado à leitura, comparado a países desenvolvidos, daqui a 260 anos. Isso pode estar relacionado a outro dado divulgado pelo Instituto Pró-Livro, na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil em 2016, em que 44% da população brasileira ainda não possui o hábito da leitura.

A importância do incentivo à leitura desde cedo. Foto: Dany Praça da Rede de Leitura Sou de Minas integrante da RNBC

Quando voltamos os olhos mais atentos para a situação das periferias, vemos o quanto o abismo do acesso à leitura se aprofunda. Muitas pessoas residem em casas em que não há espaço para uma leitura confortável, famílias grandes, vizinho barulhento etc. Nos bairros não há uma biblioteca pública próxima; nas escolas, quando há uma biblioteca, muitas são utilizadas como depósitos de livros didáticos e materiais administrativos. Isso sem falar da falta de incentivo e de reconhecimento dos gestores públicos perante às bibliotecas comunitárias. Não é à toa que ainda ouvimos falar desses dados preocupantes, já que não há uma democratização do acesso ao livro literário ao longo do desenvolvimento educacional do indivíduo.

Ao trazer esse cenário, muitos chegam a se preocupar e é aí onde reside o perigo, fazer da leitura literária a salvação para os problemas, romantizando-a e tentando achar soluções práticas e muitas vezes sem força para mudar as estatísticas. É por isso que temos que ver a leitura por um outro ângulo: a leitura que quebra, destrói, contrapõe, causa estranhamento e muitas vezes cansa, tal o peso do que se lê. Romantizar a leitura é anular tudo o que ela traz, e é sendo esse anti-herói que a leitura literária dá prazer.

Sendo assim, é ao primeiro contato com a leitura literária que se inicia a transformação social, pois o indivíduo começa questionando o que lhe está sendo apresentado e começa a questionar também o mundo que lhe rodeia. Ao perceber esse poder de transformação que possui, age diretamente na sociedade, mesmo que muitas vezes isso lhes sejam doloridos, tal como uma criança que sente prazer e dor ao cutucar as casquinhas de uma ferida.

Não se pode falar de como essa transformação se inicia sem falar de onde ela pode acontecer. É triste ainda perceber que estamos a passos lentos quando pensamos em desenvolver a leitura literária em nosso país. Editoras produzindo livros caríssimos, livrarias cada vez mais inacessíveis para o grande público, bibliotecas públicas intimidadoras (ainda me pergunto como um espaço onde abriga livros que geram tantos incômodos, que dá vontade de sair gritando e levantando mais questionamentos, ainda são espaços onde o silêncio impera), bibliotecas escolares utilizadas como depósitos e o não reconhecimento das bibliotecas comunitárias por parte das gestões públicas. Creio que a transformação social por meio da leitura literária tem que passar por todas essas esferas.

Por isso, a importância do trabalho em conjunto com os diversos atores: biblioteca pública, escolar e comunitária; editoras, escritores e poetas; e, incluindo, a família dos leitores. Exemplos não nos faltam de articulação em torno do livro e da leitura. Vemos a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias – RNBC, que tem como principal motivação unir redes de bibliotecas comunitárias de todo o Brasil para que, na troca de experiências e forças, consigam lutar por mais políticas públicas voltadas aos eixos do livro, leitura, literatura e bibliotecas. É vermos diariamente, mesmo com poucos recursos financeiros e de pessoas, bibliotecas comunitárias abrirem suas portas, disponibilizarem seus acervos para empréstimos, proporem rodas de leituras, mediações de leituras e contações de histórias; articularem-se com escritores e poetas de suas comunidades e cidades, a realizarem conversas, palestras e saraus. Ou seja, nessas pequenas ações em que, mesmo os dados mostrando um sinal de alerta há uma pulsação pequena, porém constante, que ora vai criando rachaduras, ora derrubando alguns muros.

Atividade de leitura com crianças. Foto: Nathália Cabral da Rede Baixada Literária integrante da RNBC

 Um outro exemplo de articulação que vem trazendo resultados exitosos é o da Releitura, uma rede de bibliotecas comunitárias de Pernambuco, que, em parceria com o Centro de Estudos em Educação e Linguagem – CEEL, da Universidade Federal de Pernambuco, desenvolvem formações para os professores do ensino público municipal na área de mediação de leitura, por um subprojeto do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). A partir desse projeto, os muros das escolas foram “quebrados” e deram início à uma maior interação e integração das comunidades com a comunidade escolar. É a coordenação saindo de sua sala e participando das ações, são os professores se aperfeiçoando e propondo sequências didáticas que serão empregadas em salas de aula, são as bibliotecas escolares e as bibliotecas comunitárias trocando experiências e planejando atividades em conjunto; e o mais importante, são as crianças que recebem uma experiência ímpar, não vendo mais o bairro onde moram tão distante do ensino escolar.

Não se tem como ver o acesso ao livro literário e o desenvolvimento da leitura literária sem um trabalho árduo e persistente. Vai aparentar que não dará certo, mas, com insistência e preparo serão obtidos grandes avanços futuros. Nele tem os mediadores de leitura. E quem são eles? Todos aqueles que estão dispostos a democratizar o acesso à literatura (ao livro), a ver o objeto livro como realmente ele é: um objeto que deve ser manuseado, não enclausurado como algo sagrado, pois a transformação se dá pelo contato.

Me despeço com um trecho da música “Da lama ao caos”, música de Chico Science: “que eu me organizando posso desorganizar, que eu desorganizando posso me organizar”.  Remetendo-me a essa é transformação social que a leitura traz. A letra e o toque forte das alfaias representam bem essa força da leitura, que incomoda, que destrói, que organiza e desorganiza para transformar.

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