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Entre a dor e a luta: as bibliotecas comunitárias no Fórum Social Mundial

Membros da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias no Largo do Campo Grande, Salvador (BA), durante a Marcha de abertura do FSM 2018. Foto: divulgação

Entre os dias 13 e 17 de março, Salvador foi chão para diversos encontros, marchas, assembleias, atos e debates com a intenção de construir caminhos de enfrentamento às inúmeras investidas contra os direitos humanos que ocorrem aqui e no mundo. Foi nesta terra marcada com tanta luta que aconteceu a 13ª edição do Fórum Social Mundial (FSM). Entre as ações do Fórum, 80% das atividades permeavam a pauta racial, dando foco à causa central de tantas desigualdades pós-colonização, que perduram na escravidão contemporânea.

A necessidade de garantir um recorte étnico-racial perpassa todos os campos de representação e precisa ser o cerne de qualquer pauta política, econômica e social no Brasil, já que 54% da população brasileira é negra. Incluindo aí, o respeito, a preservação e a valorização da memória, dos saberes e das manifestações culturais que moldam a identidade de um povo.

Em paralelo a este contexto, a conjuntura política, econômica e social do Brasil – que figura em nosso cotidiano pós-golpe de 2016 – revela a extrema urgência de potencializar encontros, com o objetivo de reunir e pensar estratégias de atuação conjunta entre tantas lutas e formas de resistências populares.

A 13ª edição do Fórum Social Mundial se mostrava como campo potente para ampliarmos as articulações da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) e fortalecermos os laços com outras redes, instituições e coletivos. Como parte da luta frente aos retrocessos vividos e que tangem não somente a pauta do livro, leitura, literatura e bibliotecas, nossa luta – o direito humano à leitura – está intimamente relacionada com a garantia e o respeito aos direitos sociais, fundamentais para uma sociedade livre, igualitária e justa. Por isso, organizamos uma comitiva que esteve presente e ativa em diversas ações do evento.

A Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias participou intensamente do Fórum Social Mundial 2018. foto: divulgação

Realizamos ações autogestionadas como a Assembleia Popular sobre as políticas públicas do livro, leitura, literatura e bibliotecas e a vivência sensorial do direito humano à leitura. Marcamos presença na marcha de abertura. Garantimos representação no Conselho Estadual de Cultura da Bahia, através da posse da conselheira Ladailza Teles (integrante da Rede de Bibliotecas Comunitárias de Salvador). Participamos do debate “Fala Sociedade” (atividade em parceria com o Conselho de Cultura da Bahia) e percorremos outras variadas ações realizadas pelo FSM, como a Assembleia Mundial das Mulheres.

Cerca de 60 mil pessoas estiveram presentes nas atividades, espalhadas pela capital da Bahia. Reunir tantas pessoas que lutam incansavelmente para minimizar as opressões é um acalento e uma ação restauradora para prosseguirmos entrelaçando saberes e novas formas de atuação. Uma possibilidade de tecer redes de cooperação para extinguir sofrimentos e potencializar ações de combate e erradicação das mazelas sociais.

A luta de Marielle Franco

É diante deste cenário, já fragilizado pela crescente ameaça dos tempos atuais, que recebemos a cruel notícia da execução da vereadora do PSOL e militante dos direitos humanos, Marielle Franco, e do seu motorista, Anderson Gomes. Sentimos como se uma lâmina fina e fria fizesse um corte profundo em nossa pele, nos lembrando dolorosamente que neste país os corpos negros valem menos. O país e as atividades do Fórum no dia 15 de março foram suspensas em luto à Marielle e Anderson e em memória a todas as vítimas do genocídio negro no Brasil.

Marielle e Anderson não foram vítimas somente do genocídio do povo preto que a história deste país carrega desde o berço, mas também de uma execução política.

Marielle Franco, mulher e mãe, é a quinta vereadora mais votada do Rio e a segunda mulher mais votada no país, nessa legislatura municipal. Preta, lésbica e favelada. Era militante ativa dos direitos humanos. Defendia os direitos de afrodescendentes, LGBTI, mulheres e jovens que moram nas favelas mais pobres do Rio e atuou, durante sua trajetória, em um programa de suporte às famílias de policiais, vítimas da violência e da ineficiência da segurança pública.

Era relatora na comissão que acompanhava a intervenção militar no Rio e nos últimos dias denunciava nas redes sociais os abusos dos policiais do 14º Batalhão do RJ, intitulado como Batalhão da Morte, e os assassinatos na favela de Acari. Uma mulher símbolo da resistência de comunidades historicamente marginalizadas no Brasil.

A “cria da Maré” – como ela mesmo costumava se chamar – foi aluna do pré-vestibular do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) em 1998. O curso que também aborda a formação política, cidadã e a identidade dos jovens da Maré foi porta de entrada para a atuação de Marielle na militância pelos direitos humanos. O CEASM é uma das instituições que integram a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias e que passou a ter uma biblioteca comunitária em seu espaço no ano de 2008, a Biblioteca Comunitária Elias José, integrante da rede de bibliotecas comunitárias Conexão Leitura.

A repercussão nacional e internacional da execução de Marielle fez com que a ONU considerasse como alarmante a situação do Brasil frente aos números de ativistas executados e a forma como o Estado conduz o caso.

Até o fechamento deste artigo, nenhum avanço nas linhas de investigação fora noticiado. Após a catarse coletiva inicial, dia após dia, diminuem as inserções na mídia sobre este debate.

Os movimentos sociais seguem realizando atos, manifestações, show e ações em memória de Marielle e sua (nossa) luta. Gritando por justiça e exigindo seriedade nas investigações, para que sua morte não se torne somente mais um número nas estatísticas.

Marielle Franco (a segunda da direita para a esquerda) durante o Seminário Direito à Favela, que aconteceu em 2017, no Museu da Maré. Foto: divulgação

Acreditamos que estamos enfrentando um dos momentos mais sombrios na história do país. Já não podemos mais afirmar que estamos às sombras de uma ditadura que torna visível suas faces no cotidiano. Todos os ataques contra a memória de Marielle, assim como sua morte, possuem causa específica. A mentira, assim como o medo, também são ferramentas de dominação do consciente coletivo.

Mediante este cenário, se torna urgente uma convergência de lutas em defesa de direitos básicos, fundamentais e legítimos. Uma unificação para aprofundar o debate e criarmos formas de extinguir os diversos ataques ao povo pobre, preto e periférico.

O Fórum Social Mundial acabou e não trouxe – e nem tinha a pretensão de trazer – soluções imediatas para todos os problemas sociais que nos afligem, mas presenciou aquilo que deve ser o alicerce para caminharmos em resistência: a mobilização geral e unificada contra a desvalorização da vida de mulheres e homens negros, que denunciam e lutam contra as atrocidades ao seu povo e que resistem para garantir o mínimo de representatividade para a maior parte da população brasileira. Antes de ser política, a pauta de luta é racial.

Marielle vive e viverá presente em nossos gritos, em força coletiva para resistirmos e enfrentarmos todos os retrocessos seculares neste país.

#Mariellevive

#Mariellepresente!

*Este texto contou com a colaboração de Marilene Ernesto, mediadora de leitura da Biblioteca Comunitária Elias José, do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM)

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