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Bibliotecários: celebrar e lutar pela profissão!

Vista interna da Biblioteca Municipal de Estocolmo. Foto: internet

No dia 12 de março, os bibliotecários e as bibliotecárias do Brasil celebram mais um dia dedicado a eles (a nós!). Não é raro encontrar pessoas que desconhecem a profissão, e ainda pior, encontramos aqueles que têm total desprezo por ela, sem ao menos conhecer às funções que são desempenhadas por pessoas formadas em Biblioteconomia. Não obstante os leigos proferirem comentários pífios sobre a profissão alheia, ainda ocorre de bibliotecários/as se sentirem na condição de maldizer o seu labor, quando não buscam formas de esconder o que fazem e/ou são.

Este texto é um desabafo!

Sou bibliotecário há cinco (5) anos, mas desde os primeiros períodos da faculdade eu já estava dentro de bibliotecas atuando como estagiário. Fiz inúmeros estágios no meu tempo como estudante de Biblioteconomia na UNIRIO. De fato, eu me sustentava com as bolsas que recebia dos estágios, e fui tomando gosto pela profissão, tão logo ia descobrindo às técnicas biblioteconômicas. Mas não é só de técnicas que se faz à Biblioteconomia, e a forma humanística da profissão acaba sendo desmerecida por uma boa parcela dos profissionais formados.

Certamente eu já escrevi algo semelhante do que vou escrever abaixo aqui, pois sou repetitivo, porém, mesmo me repetindo como sempre faço, ainda consigo ver coisas na minha área de atuação que me deixam sem reação, quando não revoltado.

A sociedade brasileira, ao contrário de outras espalhadas pelo mundo, tem uma relação com a biblioteca, digamos, avessa. Desde tenra idade, nós aprendemos que à biblioteca é um local de castigo na escola, onde alunos de mau comportamento são levados para cumprirem tarefas; pasme se você não sabia: o castigo é ler um livro! Como podemos criar uma geração crítica, atuante na vida social, criativa, etc., se ao invés de mostrarmos as maravilhas que os livros podem nos oferecer, usamos este instrumento como tortura?!

As nossas bibliotecas escolares (chamarei de bibliotecas até as salas com uns amontoados de livros, e que não têm bibliotecários, embora não sejam bibliotecas!) mais parecem depósitos, onde se descartam os livros que não prestam mais. Há uma diferença entre não serve e não presta: o que não serve para mim pode servir para outras pessoas; o que não presta para mim, não presta para ninguém! As bibliotecas públicas são outros espaços de desolação e abandono. Quando não sofrem com falta de verbas e profissionais não habilitados (lê-se não bibliotecários), ocorre de serem as primeiras a serem limadas em uma crise, como por exemplo, as bibliotecas parques mantidas pelo governo do Rio de Janeiro na era Cabral.

Eu, hoje em dia, já superei as falas de quem não sabe nada sobre biblioteconomia, e acham que podem produzir comentários relevantes sobre a área. Não vivem a realidade de uma biblioteca; não sabem o que é entender a cabeça e as vontades repentinas dos usuários; não imaginam o que é organizar um acervo, mas acreditam que podem dizer que: “não precisa de faculdade para colocar livros nas estantes”. Eu tenho certeza de que já escrevi isso, mas com você sabe, eu sou… Enfim, para colocar livros nas estantes não precisa de faculdade, bastar ter um mínimo de entendimento sobre progressão numérica, e mesmo assim, nós pedimos encarecidamente que os usuários deixem os livros sobre a mesa, para que a equipe da biblioteca guarde-os.

Por tudo o que já escrevi acima, acredito que muitos/as bibliotecários/as, sem ao menos saberem a grandeza da sua profissão, internalizam a baixa popularidade na sociedade brasileira para se esconderem das perguntas, críticas e até mesmo zombarias, quando falam no quê trabalham.

Em nome da aclamada interdisciplinaridade, os cursos de Biblioteconomia no Brasil abriram-se para que profissionais de outras áreas viessem somar na formação de futuros bibliotecários. Sociólogos, estatísticos, administradores, historiadores, psicólogos, literários, comunicadores, dentre outros, passaram a lecionar para alunos de biblioteconomia. Isso nem de longe é um problema, desde que a Biblioteconomia não seja alijada “dentro de seus próprios muros”.

Há tempos à Biblioteconomia vem sofrendo ataques de todos os lados. A cada onda criacionista no mundo (exageros à parte), são ataques diferentes que sofremos. No meu tempo de faculdade, sentado nas cadeiras das salas do CCHS/UNIRIO, ouvi por diversas vezes que os livros iriam acabar, e que a profissão tenderia a desaparecer. Imagine um estudante universitário que veio de área periférica da cidade, e que buscava nos estudos a tão falada ascensão social, ouvir que a profissão que ele estava pretendendo se formar iria desaparecer?! Ainda bem que os livros estão aí, e o conhecimento é guardado em tantos outros suportes.

Ainda no bojo dos ataques, a Biblioteconomia ainda hoje não tem lá muito reconhecimento por parte da comunidade acadêmica. Por essas e outras que há cursos de biblioteconomia no Brasil que modificaram sua nomenclatura para Ciência da Informação. É com esta perspectiva que muitos bibliotecários têm medo de assumirem sua identidade profissional, e ficam criando pseudo-nome como: syber bibliotecário, web bibliotecário, cientista da informação, personal informatio… Se você fez Biblioteconomia, e tem um diploma de bacharel em Biblioteconomia, desculpe lhe desapontar, mas você é um/a bibliotecário/a!

Há milhares de anos, pessoas que trabalhavam em espaços que hoje chamamos de bibliotecas, criaram forma de organização do conhecimento, indexaram o conhecimento presente em placas de argila, papiros, pergaminhos, dentre outros suportes. A forma de lidar com os usuários já era debatida por vários profissionais desde muito tempo. Os dados estatísticos para autoavaliação dos instrumentos de trabalho foram uma das bandeiras de Otlet, que faleceu na primeira metade do século XX. Os computadores nos ajudaram muito na questão da automação das bibliotecas; os bancos de dados nos possibilitaram armazenar mais coisas, mas o que fora supracitado neste parágrafo, não nasceram com eles.

Na Biblioteconomia eu aprendi que é preciso (doa a quem doer), dar acesso de forma universal, gratuita e irrestrita, aquém interessar possa, aos registros do conhecimento. Essa é a função maior da biblioteconomia, e deveria ser a bandeira a guiar todos os bibliotecários. Mais do que apontar problemas na caminhada profissional, eu tenho muito que comemorar por mais um ano celebrando o dia 12 de março. Feliz eu sou por ser bibliotecário, e que venham outros desafios para serem vencidos.

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