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“Raridade” de acervos: mitos e lendas

 Em minha vivência em um centro de documentação pude perceber uma confusão terminológica do que se configura “obra rara”. Trabalhei administrando um centro de documentação que era coordenado por professores universitários. Para esses obras, raras eram simplesmente livros que eles consideravam “raros” sem darem maiores explicações, ou metadados de tal publicação. Cabendo a nós, arquivistas a tarefa de recebermos e darmos uma organização em forma de coleção.

A biblioteca ao lado do centro de documentação não recebia tais obras e não os administrava talvez pelos bibliotecários terem suas diretrizes sobre formação de coleções de “obras raras” que nem sempre são valorizadas pelo senso comum.

No centro de documentação tínhamos os arquivos fundadores de tal entidade, Os famosos “arquivos históricos”, além de outras coleções como “história oral, coleção de áudio e transcrições.

Afinal, que são livros e documentos arquivísticos raros?

Alguns mitos a serem questionados sobre “livros raros” segundo a bibliotecária e professora universitária Ana Virgínia em seu artigo “Livro Raro Antecedentes, propósitos e definições” nascem do pressuposto  da “antiguidade” de tais peças além do adjetivo “raro” supostamente dar um caráter meritório do conteúdo de tal publicação. Irei adaptar tais mitos pra meu conhecimento específico sobre a realidade arquivística.

Primeiro mito: todo livro antigo é raro (raro no sentido de mérito do conteúdo) – errado: a autora nos conta que diversas obras no final do século XVII e ao longo do século XVIII eram publicadas em tantas edições sucessivas e sem um cuidado com o conteúdo que é impossível não se dispor de um exemplar.

 Realidade arquivológica do mito: um documento arquivístico para ter o mérito de conteúdo tem de estar relacionado a outros. Claro de acharmos um documento isolado da Operação Condor, durante a ditadura militar, ele terá um valor informacional “X”, mas a descoberta do conjunto todo trará mais fidedignidade ao valor de “prova”, “testemunho”.

Segundo mito: um livro é raro quando é o único existente no mundoerrado.  A autora afirma que a existência de coleções paralelas, bibliófilos, etc., podem estar repletas de preciosidades. Além disso, há acúmulo de títulos sem tratamento em bibliotecas que podem trazer a ilusão de “inexistência de títulos”

Realidade arquivológica: no caso dos arquivos a situação é mais séria. Sabemos da infinidade de “arquivos mortos” que estão ainda a serem descobertos e tratados e que não o são muitas vezes por questões políticas e de acesso.  Além do mais, os arquivos em si, já são fonte primária de pesquisa e, por si só, são únicos. Porém um fundo arquivístico pode fazer menção a outro no caso do Serviço público, por exemplo, em casos dos arquivos da ditadura militar, no caso de desaparecidos políticos. Não é à toa que a Comissão da Verdade (ação governamental que está investigando o caso dos desaparecidos políticos e casos excessos contra cidadãos brasileiros) está tentando mapear os arquivos gerais do Serviço Público Federal. Um problema que aproxima as áreas da Arquivologia com a da Biblioteconomia é o conceito de “documento único”, pois na Arquivologia a unicidade é do conjunto documental.

A autora, ainda, nos expõe sobre três adjetivos que dão problema nessa confusão terminológica de caracterização das obras raras: “raro”, único e “precioso”. Os dois primeiros já abordados e o último com conotação de coleção de acervos, abrangendo as noções de posse e identidade.

Necessidade de recomendações metodológicas

 Percebemos que não há certo consenso entre o que representa raridade, talvez seja por isso que o senso comum de curadores de acervos se apropria de qualquer conceito que mais lhe prouver. Por outro lado o não-consenso não significa que os entendimentos não possam convergir num instrumental metodológico de ação prática e impedir a formação de acervos ditos “raros” sem necessidade. A autora propõe alguns pontos para o caso de “livros raros”

1. Limite histórico;

2. Aspectos bibliológicos;

3. Valor cultural;

4. Pesquisa bibliográfica;

5. Características do exemplar.

Neste aspecto metodológico vemos a importância de um biliotecário atuar junto com os curadores do acervo. Talvez por isso que não houvesse bibliotecários administrando tais acervos na minha realidade profissional como uma forma de os professores fazerem valer seus conceitos do senso comum. Ou seja, questões políticas que sempre denigrem a imagem dos bibliotecários e arquivistas pela ignorância de outrem.

Realidade arquivológica: um grande problema é a delimitação da Arquivologia como sinônima de “arquivística”. Pela “arquivística” não existem “arquivos históricos”. A arquivística é uma disciplina e não uma ciência, pois trata do fluxo informacional no ciclo vital dos documentos operando uma racionalização no descarte. O descarte é sempre uma probabilidade maior que a guarda. Neste aspecto muito pouco se guardará e mesmo o que se guardará poderá num futuro ser descartado. A realidade é dos arquivos permanentes de todos os tipos. Porém o que acontece com os livros raros também está ocorrendo com os arquivos “históricos”, atualmente, e sem a devida preocupação daqueles arquivistas que só pensam na “arquivística”.

Muitos arquivistas se veem constrangidos a guardar acervos ditos ”raros” por serem “históricos” pelo critério da antiguidade. Na Arquivologia temos de avaliar com mais acuidade essa necessidade porque realmente quando “achamos” um “arquivo morto” ele contém documentos únicos sobre determinada “história da instituição’ e no caso do serviço público sobre a história de nosso país.

Enfim, a opção pela guarda envolve questões estruturais que nossos administradores não entendem ou não querem entender por traz a responsabilidade social de dar infraestrutura para os arquivos e para o trabalho do arquivista. Isso gera constrangimentos financeiros pela ótica das administrações modernas. “Gastar dinheiro com arquivo” não é a prioridade e por isso estamos à mercê de administradores que estão nos constrangendo a “jogar tudo fora”. É o lado oposto da moeda: ao invés de acumular tudo sem medida, quer-se jogar tudo fora,

Saudações arquivológicas!

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