Biblioo

O pecado original

A desvalorização do bibliotecário ainda não foi vencida. Esta desvalorização, mesmo podendo ser entendida como problema conjectural, ou seja, de um país que tem uma educação sobrepujada e que não possui um plano em torno de políticas públicas de acesso à informação, pode ser entendida, sem riscos de reducionismo, também a partir da própria forma como o bibliotecário, até então, e quase sem exceção, vem percebendo esta questão.

Desse ponto de vista, não foi vencida justamente, porque, ao contrário do que se pensa e de como costumeiramente se aborda a questão, os bibliotecários não são tímidos tecnicistas, mas vaidosos ou pretensiosos em sua profusão de proficiências. O esforço por mostrar a relevância social do bibliotecário monta-se aparentemente numa busca irrefletida por compensações, ao invés de se sustentar em prática profissional inovadora, pesquisa crítica e evidência social comprovada. Estou simplesmente afirmando com isto que precisamos detectar se um bibliotecário é indispensável (não estou me referindo aqui às técnicas bibliotecárias mais enraizadas da profissão, cujo valor e necessidade, quando usadas sem o reducionismo tecnicista tão didático à qual somos submetidos nas graduações, são e sempre serão úteis) ou se as coisas andariam, assim como acontecem em muitas bibliotecas escolares do Brasil, da mesma forma que, longe de serem minimamente produtivas, sustentam um aparato educacional desaparelhado.

O vislumbre do raio de nossas ações não é de forma nenhuma uma delimitação engessada dos efeitos das ações bibliotecárias, mas sim uma forma consistente de atestarmos onde devemos melhorar consoante uma reflexão mais acertada da direção (podem surgir várias aí) que devemos seguir.

O principal inimigo do bibliotecário continua sendo uma imagem que, se não compreendida como dissimulada, sufoca-se numa sobrevalorização do seu papel, tais quais os mais arrebatados narcisistas que, para lhe darem com seus complexos de inferioridade, reclamam para si a imagem compensadora, e no caso dos bibliotecários, isso se reflete na profusão indiscriminada de denominações genéricas que escondem quase sempre um cotidiano limítrofe, ainda mais quando se pensa na maioria das bibliotecas públicas. Estas denominações, como bem sabemos, são inúmeras, encontradas facilmente e com bastante descuido na literatura biblioteconômica: “Guardião do Saber”, “Bibliotecário-Educador”, “Mediador da informação”, “Agente informacional” e outras, e, mesmo se admitindo que todas estas denominações sejam cabíveis (pois o bibliotecário pode estar presente em inúmeros contextos profissionais e sociais) e coerentes, monta-se, a partir disso, um imenso mosaico improfícuo que se assemelha a uma versão dos anabolizados, que mais adiante terão os danos da “pressa” e da “ilusão” de se apregoarem a uma imagem forçosamente desconectada da realidade, terminando por obterem como resultado, a própria incômoda realidade limitante e pior, os prejuízos de não se confrontar a realidade propriamente à priori.

Diria mesmo: ainda falta um “olho no olho” para toda a estrutura bibliotecária, da formação de bibliotecários à docência, pesquisa e atividades profissionais. Trata-se de revisionismo crítico constante. Não se faz isso repetindo discurso maquiado e descontextualizado. Devemos eliminar sistematicamente esses arranjos simplistas que se inocularam no conjunto de ideias e opiniões que fazemos de nós mesmos.

Defendo que somos bibliotecários e que a repercussão de nossas ideias e atitudes enquanto tais devem ter eco na sociedade que estamos inseridos e, nós mesmos, bibliotecários-cidadãos, devemos facilmente identificá-las. Se é fácil identificar competências bibliotecárias (não exatamente reconhecidas como tais) em um poderoso buscador como o google, e em outros instrumentos de registro e acesso à informação na web, também o deveria ser, até mesmo com mais propriedade, no campo do cotidiano, na participação efetiva e justificada em planejamentos pedagógicos e até na formação da perspectiva de participação social dos indivíduos, levando em consideração que saber quando, como e onde acessar informação é parte essencial de uma constituição política mais crítica e comprometida com mudança social.

Temos variadas funções sim, que podem ser ressaltadas conforme determinado contexto, no entanto, o bibliotecário só terá a importância a qual reclama e identifica para si quando for objeto de autocrítica, quando delimitar sem cercear suas possibilidades de atuação, e quando a perspectiva crítica e social da informação estiver instaurada como embasamento formacional de bibliotecários, não se limitando a um adorno ideológico à qual se recorre para se fugir de uma realidade incômoda.

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