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Modernidade líquida e a sociedade fragmentada

Antes de introduzir e percorrer pelas ideias centrais desta resenha, oriento o leitor para a finalidade a que ela se dedica. Trata-se de uma resenha comparativa entre o capítulo terceiro da obra “Modernidade Líquida”, do sociólogo Zygmunt Bauman, e o filme “Ela” (2013), dirigido por Spike Jonze, naquilo que se pode captar entre os nuances e entrelinhas que ambas as obras se conversam. De início, convido o leitor para uma breve viagem com referências cruzadas a fim de ampliar a contextualização para o fator espaço/tempo tomado por fortes mudanças nas relações humanas.

As sociedades complexas, descrita por Émile Durkheim (1858-1917), pesquisador renomado no campo das ciências sociais e humanas, têm um marco crucial que se apresenta como o divisor de águas para as relações sociais presentes nos dias de hoje.

Para o positivista, o movimento racionalista iniciado ainda no século XVIII tem forte influência sob o modo no qual homem se relaciona com o mundo, concebido agora por uma visão antropocentrista, onde o indivíduo torna-se inteiramente responsável por seus atos, passando de coadjuvante para figura principal de referência para a compreensão de mundo.

Na leitura e ponto de vista do sociólogo, nas sociedades primitivas as formas de organização sociais funcionavam de forma mecanicista, tempo em que as comunidades compartilhavam dos mesmos valores morais, sociais e religiosos, bem como em relação aos interesses materiais, assegurando assim uma ordem social.

Zygmunt Bauman (1925-2017) vive a terceira etapa da revolução industrial, período marcado pela expansão da globalização, crescimento do sistema capitalista e avanços na área da robótica, sendo estes fatores influentes nas relações humanas presentes.

Capa de “Modernidade líquida”, de Zygmunt Bauman (Zahar, 2001). Imagem: divulgação

Atualmente, Bauman é conhecido por ser assíduo crítico a cultura pós-moderna, tendo a presença de um fator chave em sua escrita, sendo frequentemente mencionado dentro deste novo cenário marcado por avanços históricos, agora redesenhado e arquitetado para este novo tipo de homem moderno e contemporâneo, a tecnologia.

A primeira análise a ser feita está dentro do capítulo Tempo/Espaço, onde o autor esboça em seus primeiros parágrafos uma cidade idealizada para os dias de hoje, sendo essa estruturada por grandes muros de concretos, pincelada com características da alta presença de câmeras de vigilância, guardas armados e a crescente dos luxuosos espaços de consumo.

De cara, semelhanças podem ser notadas com o início da trama de Jonze, que tem como abertura a vida e rotina de Theodore (personagem principal), apresentando o cenário de uma grande metrópole tomada por um design repleto de traços contemporâneos. Ainda nos primeiros minutos é possível notar a forte presença de tecnologias de comunicação portada por cidadãos em espaços públicos.

Em uma cena peculiar, no final do dia Theodore interage com o seu videogame de projeção holográfica e ao se deitar utiliza seu smartphone para relacionar-se de forma no mínimo curiosa com uma mulher. De forma nítida em sua escrita, Bauman pontua o consumismo e sua ligação com as tecnologias vigentes, atentando para a intensa relação que se firma entre sujeito e objeto, sempre ponderando em tons reflexivos para aquilo que se perde no mais singelo do ato de poder estar com alguém.

De forma sucinta, o enredo de “Ela” gira em torno de uma história de amor entre um homem e um sistema operacional. Se nos romances distópicos “1984”, de George Orwell, e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, os personagens estavam sendo regidos por governos autoritários (Orwell) e alienação como forma de dominação totalitária (Huxley), o que podemos encontrar em “Ela”? Uma bárbara marcha tecnológica romantizada a uma fé cega da sociedade na tecnologia.

As barreiras que se travam na relação amorosa de um homem com um S.O não passam despercebidas pelas lentes cinematográficas como algo ingênuo e encantador, mas nos abre espaço para ir afundo e questionar a verdadeira essência da existência humana. Ainda na leitura dentro do capítulo Espaço/Tempo de Bauman, o escritor utiliza a expressão “templo do consumo” a fim de chegar a uma ideia que nos escapa frente ao modo automático do cotidiano.

Expressão que tem como função ocupar o valor de “sagrado” nas relações do homem pós-moderno, onde o indivíduo utiliza dos objetos para negar sua condição frente a uma realidade dura e rígida.

Em Ela, filme de Spike Jonze, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem que trabalha em um site especializado em escrever cartas à mão. Foto: divulgação

É neste ponto que cresce a temática de Bauman para aquilo que ele denomina de modernidade líquida, onde se constrói uma sociedade fragmentada e diluída, na qual o indivíduo se conecta e desconecta no momento em que deseja. Para mais, o autor dedica um trecho do capítulo para aquilo que se tornou a ideia de civilizar, descrevendo como “uma arte extremamente fina e refinada”, onde não há espaços para tentativas e erros.

Em cenas da obra de Jonze, é possível perceber Theodore tirando suas responsabilidades de fora quando não está em sua zona de conforto. As possibilidades de isolar e desconectar presente nos dias de hoje, misturada com a velocidade em que as tecnologias dos meios de comunicações oferecem, estão estritamente ligadas e engessadas aos sistemas político-econômico atuais.

Sob a ótica marxista, o poder está claramente centralizado nas mãos daqueles que detém estas ferramentas sob aqueles que não têm atuado de forma estratégica e hierárquica no funcionamento das estruturas de poder da sociedade.

Por fim e não menos obstante, a intensidade contida antigamente nas relações humanas foram de certa forma substituídas por efêmeros e transitórios sentimentos, até mesmo modos e padrões de comportamento contrário a antiga ideia de “pólis” que abrangia toda a vida pública do cidadão por excelência, gozando de sua liberdade como indivíduo para um conceito de “cidade”, espaços urbanizados tomado por seres envolvidos em seus próprios sonhos e problemas, que se assombram  com a alteridade, fiéis e beatos a sua então sonhada liberdade.

*Contribuíram Anna Sgarioni e Lohana Natalino, estudantes de biblioteconomia do Centro Universitário Assunção – UNIFAI.

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