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Rostos de funcionários e frequentadores de biblioteca em SP viram obras de arte

Por Lívia Machado do G1 de São Paulo

Com a pele azul e os cabelos avermelhados, as três imagens sobrepostas de Carolina Ramos, de 30 anos, se tornaram obra do artista plástico contemporâneo Alex Flemming, na Biblioteca Mario de Andrade, no Centro de São Paulo. Auxiliar de contratos, ela é uma dos cinco funcionários do espaço retratados em gigantes vitrais na fachada do prédio.

A inauguração oficial será somente no próximo sábado (3), mas o retrato já lhe rendeu um novo nome (ou status). “Agora eu sou ‘a famosinha’. O pessoal daqui fica me chamando assim. Virei obra de arte”, brinca.

São 16 vitrais de 2,30 metros de altura, 1,60 metro de largura, 80 quilos, instalados no corredor que liga o hall principal da biblioteca com a sala de leitura. A intervenção apresenta fotos-pinturas de anônimos – funcionários e frequentadores da Mário de Andrade. Cada painel foi registrado como doação à biblioteca no valor estimado em R$ 100 mil reais.

No inicio do ano, Carolina soube do comunicado divulgado na biblioteca, que convidava as pessoas a serem fotografadas por um profissional para participar de um projeto artístico.

“Nem imaginei que ia aparecer assim, não. É uma honra em uma biblioteca tão conhecida, é o meu serviço, amo este lugar. A biblioteca já faz parte de mim, e agora eu faço parte dela. Eu gostei do resultado, embora eu pensei assim: séria eu não vou ficar bonita, mas eu adorei”, garante ela.

Flemming montou um estúdio dentro do prédio e recebeu cerca de 35 dispostos a lhe ceder os direitos de imagem. Do montante, escolheu oito mulheres e oito homens que demonstram, esteticamente, seu critério de seleção. “Quero retratar a coisa que acho mais importante no Brasil que é o grande leque de etnias, a miscigenação entre as diferentes etnias”, explica.

Carolina posa em frente ao seu retrato, que foi instalado nesta quinta (24) (Foto: Lívia Machado/G1)

O processo

Há três anos o artista plástico paulistano radicado em Berlim, na Alemanha, foi convidado pelo diretor da biblioteca para expor no local sua série de fotogravuras chamada “Paulistânia”.

Dentre as obras expostas, Flemming reproduziu, em plotter, alguns personagens do trabalho que realizou há 18 anos na Estação Sumaré do Metrô, em que retratou o rosto de desconhecidos cobertos com poesias brasileiras. Da exposição surgiu a proposta de criar uma nova obra pública para a biblioteca.

“Eu sempre quis fazer uma continuidade da minha obra na estação Sumaré do Metrô. Porém, de outra maneira, com outras cores e com outro tipo de técnica”, revela.

Alex ao lado de dois dos escolhidos, também funcionários da biblioteca (Foto: Lívia Machado/G1)

Com patrocínio de uma empresa de vidros alcançado, o artista retornou à capital paulista por uma temporada mais longa para se dedicar aos vitrais. “Voltei ao Brasil esse ano, fiquei muito tempo aqui. Somente para fazer os vidros foram mais de cinco meses”, conta.

Na nova série, ele usou uma técnica de vitrificação fotográfica em cristal. À primeira vista o projeto pode parecer similar aos anônimos conhecidos da Sumaré, mas ele rechaça qualquer tipo de comparação.

“Meu trabalho sempre foi retrato do corpo humano, retrato das pessoas anônimas. É uma outra série, um outro efeito plástico. ” E explica os conceitos: “A diferença básica é que neste novo trabalho, que se chama ‘Série Biblioteca’, os retratos têm duas cores diferentes. Do lado de fora é uma cor, do lado de dentro é outra. E terá uma terceira cor à noite quando tiver uma luz artificial.”

De longe, parece um adesivo. Cara-a-cara, é inevitável colocar o dedo para testar se a pintura tem relevo. “Sempre será a surpresa. Sempre quero fazer algo que não seja o que nós esperamos. Fiz essa obra em homenagem às pessoas que não estão procurando obra de arte. Está aqui na Rua da Consolação para ser vista para pessoas que não vieram a um museu, e que sim estão passando na rua, e que a biblioteca está oferecendo essa possibilidade de diálogo com a arte contemporânea brasileira”, afirma o artista.

Para o diretor da Mário de Andrade, Luiz Armando Bagolin, os retratos estão na fachada, mas são tão especiais quanto o acervo preservado internamente.

“A gente espera que essa obra registe não só o encontro do artista com sua cidade de origem, ele vive na Alemanha hoje, mas São Paulo é a cidade dele de origem. Não apenas o encontro do cidadão com uma obra de um artista contemporâneo muito importante para o nosso contexto, para a história da arte, mas também simbolize a longevidade da biblioteca Mario de Andrade. A gente está aqui há 90 anos e espera continuar servindo o público por mais dois mil anos.”

 Artista assina a obra com um vitral com sua foto (Foto: Lívia Machado/G1)

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