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Este texto é destinado às pessoas que frequentam bibliotecas, museus, arquivos, centros culturais e afins; também a você, que não frequenta esses lugares, mas que tem curiosidade em saber como eles funcionam. Como já se sabe, eu sou bibliotecário. Sim, você não sabia?! Pois é, eu sou um bibliotecário, e quero explicar a você como o espaço que muitas pessoas vão para estudar, pesquisar, ou até mesmo relaxar, funciona. Convido a você a não interromper a leitura por aqui. Faço a você um desafio e quem sabe você não passe a ver os lugares supracitados com outros olhos. E se não os frequenta, passe a descobrir quão maravilhosos eles são.

Primeiramente eu preciso explicar uma coisa: biblioteca, museu, arquivo, centro cultural etc., são lugares ímpares, cada qual com suas peculiaridades e responsabilidades. Embora tenham semelhanças em certas coisas, tornam-se altamente antagônicos em outras. Em suma: esses lugares guardam memória, riqueza cultural, informação, sabedoria, mas cada um tem a sua forma própria de organizar tais coisas e disponibilizá-las ao público (interno e externo). Sendo assim, fico mais a vontade para discorrer sobre a biblioteca, pois é nela que labuto diariamente e tenho mais arcabouço teórico para falar.

A organização de uma biblioteca vai ao encontro do público que a mesma se destina, ou seja: se a biblioteca é pública, os seus serviços serão voltados para a comunidade onde ela está instalada fisicamente; se a biblioteca em questão é a Biblioteca Nacional, ela precisará ter mecanismos para, acima de tudo, salvaguardar a memória bibliográfica do país (não apenas a memória bibliográfica, mas é o carro chefe); se for uma biblioteca escolar, especializada, particular, dentre muitas outras, estas precisarão, respectivamente, atender as necessidades para a qual cada uma foi criada, ou seja, a biblioteca precisa atender o seu público alvo.

É importante saber disso para desmistificar certas máximas em torno de um atendimento na biblioteca. Em resumo, vou discorrer das questões que mais ocorrem em algumas bibliotecas. Vamos começar pela Biblioteca Nacional. A Biblioteca Nacional do Brasil (BN), situada na cidade do Rio de Janeiro, é a maior biblioteca da América Latina e uma das 10 maiores bibliotecas do mundo. Seu acervo é vasto, passando dos 10 milhões de itens.

A BN tem por atribuição primeira, coletar, preparar, armazenar, salvaguardar e difundir a memória bibliográfica e documental brasileira, ou seja: tudo o que for publicado no Brasil, a BN tem o dever, sob a chancela da lei, de ter em suas dependências pelo menos um exemplar da publicação, desde que autores e/ou editoras cumpram a Lei do Depósito Legal que, dentre outras coisas, manda fazer um depósito em favor da Biblioteca Nacional de pelo menos um exemplar de cada obra publicada.

Não é função da Biblioteca Nacional emprestar itens a nenhum usuário, pois se assim procedesse, correria o risco de não cumprir com uma de suas mais importantes atribuições: salvaguardar a memória bibliográfica nacional. Portanto, cara usuária, nobre usuário, não reclame em não conseguir empréstimo na Biblioteca Nacional, pois ela está de acordo com a sua política. Pode-se até criticar a BN por outras coisas, mas nunca por que ela não faz empréstimos.

E por falar em política, cabe aqui uma explicação desse termo. A política de uma biblioteca nada mais é do que a norma que a rege; grosso modo, a política de uma biblioteca é a constituição da mesma. É na política da biblioteca, por exemplo, que se fica sabendo como proceder em caso de doação, como fazer um empréstimo entre bibliotecas, uma permuta, um desbaste… essas coisas burocráticas que toda biblioteca tem e que precisa funcionar bem, mesmo com a ausência do profissional responsável, no caso, bibliotecário(a). Cada biblioteca tem a sua política, porque cada biblioteca é única!

Quando você vai a uma biblioteca escolar/universitária (não apenas essas), é louvável que você queira, antes de pedir qualquer coisa, saber como funciona a estrutura dessa biblioteca, pois, como dito acima, a política da biblioteca é feita pensando nas suas peculiaridades. Nem mesmo as bibliotecas em rede têm demandas idênticas (podem ter parecidas). Sendo assim, ao ouvir uma negativa por parte de quem lhe atendeu acerca de algum serviço que a biblioteca não presta, não venha com a célebre frase: “na biblioteca tal pode fazer isso!”

É extremamente desagradável ouvir que colegas de profissão estejam fazendo coisas que, na teoria biblioteconômica (por assim dizer), não poderiam fazer. O que eu quero dizer com isso? Cada biblioteca adota uma forma de serviço que se adéqua a realidade dos usuários que a frequentam. Porém, há coisas que são quase universais nas bibliotecas. Exemplo: nunca ouvi falar que alguma biblioteca empreste os materiais que são referências; também desconheço biblioteca que empreste periódicos; está para nascer à biblioteca que permite que seus frequentadores se alimentem em suas dependências e por aí vai!

Sempre que você estiver em uma biblioteca e solicitar um material, espere a pessoa que lhe atendeu sinalizar se o acervo é aberto ao público ou não. É deveras incômodo ver uma pessoa que chega à biblioteca e vai se enfiando entre as estantes no afã de achar as coisas e nem mesmo olha na cara de quem está no balcão da referência. Certamente aprendemos em casa que não se deve chegar pondo a mão nas coisas que não nos pertence.

Se a biblioteca adotou a prática de permitir que os usuários circulem livremente pelos corredores do local de guarda do acervo, sinalize antes que você está indo lá; se ao contrário, a presença de pessoas que não fazem parte do corpo funcional da biblioteca é proibida entre os corredores do local de guarda do acervo, respeite as normas pré estabelecidas pela biblioteca; não é nada contra você especificamente, é pela boa execução dos serviços da biblioteca.

Se não queira ser chamado(a) a atenção em uma biblioteca, museu, acervo, centro cultural, etc., respeite as leis que foram lavradas antes de você chegar lá, e que precisam ser respeitadas para o bom andamento do atendimento do próprio centro de informação. Não espere uma pessoa que trabalha na instituição ir até você para solicitar que guarde sua bolsa no armário; que você não pode entrar comendo e nem bebendo nada; que é preciso respeitar as sinalizações no piso e nas paredes; que o material consultado por ti foi igualmente consultado por outras pessoas antes, e que certamente outras virão para consultá-lo no futuro, ou seja, preserve-o!

Não queira ouvir que não pode tocar nas peças, que não pode fotografar as obras, porque o(a) autor(a) não permitiu; não seja inconveniente ao ponto de atender uma ligação em meio ao mais absoluto silêncio, em uma sala de pesquisa; retire-se do local! Lembre-se que a sua educação, ou falta dela, fará com que outros lhe tratem da mesma forma.

A você que pesquisa, dedico este parágrafo. Temos a mania de achar que tudo o que fazemos é mais importante, que nossa pesquisa tem maior relevância, que o que você está estudando vai mudar a comunidade acadêmica… Não é assim! Todas as pesquisas têm o seu grau de importância; umas ajudarão pessoas, outras instituições, outras ainda abrirão outros horizontes… A pesquisa em si não é a culpada, mas quem a faz torna esse fato superior. Senso assim, pesquisador(a), não trate as pessoas como empregadas, achando que elas estão ali naquele local para lhe prestar vassalagem.

Eu atendo com maior prazer a todos(as) que chegam na biblioteca em que trabalho; todos(as) sem exceção, mas eu exijo ser tratado com respeito e dignidade. Não faça do local em que está pesquisando um anexo da sua casa, adéque-se às normas do local! Se não pode retirar os trabalhos acadêmicos que foram doados por pesquisadores que passaram pelo local antes de você é porque esses trabalhos têm uma relevância altamente significativa para o acervo. Repito o que já escrevi de propósito (pois tem gente que acha que é com ela); não é nada contra você, especificamente, mas é para o bem do acervo e da biblioteca.

Assim que chegar numa biblioteca, dirija-se à pessoas que estiver no balcão de atendimento; se não houver balcão, dirija-se a primeira pessoa que vir e não chegue entrando na sala sem ser chamado(a) para tal, nem tão pouco “meta a cara” no computador da pessoa que se dirigiu (por favor, não faça isso!). Se a pessoa não puder lhe atender de imediato, espere um pouco. O trabalho em uma biblioteca não se resume em colocar livros nas estantes, até porque colocar livros nas estantes pode ser feito por qualquer pessoa, basta ter uma mínima noção de sequência numérica.

Muitas outras coisas são executadas em uma biblioteca, e a maioria das vezes é um trabalho invisível. Ao ver um(a) bibliotecário(a) ao computador, não vá pensando que está conectado nas redes sociais. Procure entender, mas acima de tudo respeitar o trabalho alheio, da mesma forma que espera que outrem entenda e respeite o seu! Nunca quis, enquanto bibliotecário, chamar atenção de nenhum(a) usuário(a), mas as vezes é preciso ser incisivo com certas pessoas.

Nunca fiz o famoso ‘shiii’ nas bibliotecas que trabalhei e/ou estagiei. Sou de uma geração de profissionais que entendem à biblioteca como organismo em crescimento e, como tal, é preciso discussões para propagar esse conhecimento. Porém, no local de pesquisa, estando com outros(as) usuários(as), é preciso ter o mínimo de respeito pelo estudo do(a) outro(a). Na biblioteca se pode tudo, inclusive nada!

Como vês, o assunto é longo, mas eu não vou dividi-lo em duas partes para não fadigar ninguém, e por um motivo de limitação física, tenho que encerra o texto já nesta página; talvez eu retome o assunto em outra oportunidade. Todavia, não se pode terminar antes de discorrer sobre outras coisas. A pessoa que lhe atende na biblioteca não tem a obrigação de saber onde fica cada item que você busca, para isso existem mecanismos de buscas que facilitam encontrar o material. É preciso ter um mínimo de paciência para que o(a) atendente localize o material e anuncie que o mesmo se encontrar disponível no acervo. Se você que quer o material não sabe o título, a autoria, o assunto, precisa ir a uma biblioteca sem pressa, pois quem lhe atende tem até meios de descobrir o que você quer, mas vai levar tempo para isso.

Uma dica valiosa se você valoriza o seu tempo e não quer perde-lo e respeita o trabalho alheio: faça uma busca antes no catálogo, que em sua maioria encontra-se on line; chegue à biblioteca com a notação (número que fica na lombada dos livros) escrita em um papel ou salva no celular, além de, é claro, atentar-se aos horários de funcionamento e as outras regras da biblioteca; se a biblioteca encerra seu expediente às 17h, não chegue nela às 16h50! Bom, tudo isso para dizer que você é bem vindo(a) a uma biblioteca e é um prazer atender você, mas é preciso respeitar as regra. Faça isso e depois você me diz o que achou da sua experiência em um centro de informação, e se não vai querer ir sempre. Até a próxima.

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