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RIO – Não há como confundir. O livro antigo exala um cheiro caracterísco que a uns irrita e a outros só faz agradar. O aroma de papel envelhecido toma conta do ambiente a ponto de ser percebido até mesmo pelo olfato mais insensível. Na Biblioteca de Obras Raras do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (BOR/CT/UFRJ) esse detalhe já provocou muitos transtornos à saúde de Maria Cristina Barreto, bibliotecária chefe da instituição. Nada que pudesse atrapalhar seriamente seus longos anos de dedicação à tarefa de administrar o acervo. Pudera! A satisfação da bibliotecária em trabalhar com esse tipo de material é visível. Ela recebe a equipe da biblioo e vai logo tratando de contar a história da coleção que há muito tem provocado encanto entre pesquisadores e curiosos. “O acervo data de 1810 com a chegada da família real ao Brasil, com toda essa transformação que toma conta do país. Foi quando foi criada a Real Academia Militar. Daí começa toda a história, todo o percurso desse acervo; da construção desse acervo”.

A “inaguração”

Muito embora a data oficial de “inauguração” do acervo seja 1810, a história das coleções da BOR remonta ao ano de 1718, quando foi criado no Rio de Janeiro um Curso de Artilharia, para o qual foi convidado o sargento-mor José Fernandes Pinto de Alpoim, oficial e autor do primeiro livro impresso no Brasil. Em 1792 o curso passa por nova transformação, passando a se chamar Real Academia de Artilharia e Fortificação e Desenho. Para  professor Heloi José Fernandes, diretor do Museu da Escola Politécnica da UFRJ e grande conhecedor do assunto, “é possível que já tivessem livros aqui da academia de 1792 e com certeza tinha os livros do Alpoim. Se estão na biblioteca nacional, se foram impressos aqui, é anterior, com certeza”. O ano de 1810, que marca o início oficial do acervo, se refere à criação, por Dom João VI, da Academia Real Militar. “A anterior de, 1792 não se tem mais nenhuma informação, pelo menos desconheço sobre essa Academia a partir de 1810. […] Agora, você comparando o conteúdo programático das cadeiras, das disciplinas das duas academias, a da segunda, de 1810, é muito mais profundo do que a anterior, acho até lógico, a anterior ficava a mercê do que era mandado fazer de lá e a segunda foi criada por uma pessoa que tinha um conhecimento cientifico maior e ai então começa essa academia em 1810”, esclarece professor Heloi. A criação da Academia Real Militar se dá em consequência do estabelecimento da família real no Brasil ocorrido a partir de 1808. A primeira junta diretora da Acadêmica, criada por carta–régia, era formada pelo brigadeiro Carlos Antonio Alpion e os coronéis José Manoel da Silva e Manoel Jacinto Nogueira da Gama, idealizadores do projeto. Interessante redação da carta-régia diz, em seu título que “logo que possa formar-se uma biblioteca cientifica e militar para esta Academia, haverá um lente de historia militar que servirá de bibliotecário”.

Os bibliotecários

Como a profissão de bibliotecário não era regulamentada neste período (o que aconteceria mais de um século depois), se atribuía este cargo a um professor da instituição. Tanto é assim que consta do catalogo da biblioteca de 1925 os nomes dos engenheiros João Cancio Povoam, como bibliothecário e Luiz M. de Mattos Júnior com sub-bibliothecário no ano de 1900. Esses dois bibliotecários, ao que tudo indica, foram os responsáveis pela confecção de um novo catalogo (os catálogos eram impressos), tendo em vista que o anterior, de 1882, não mais atendia aos objetivos da instituição. José de Saldanha da Gama, então diretor da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro aceitou a organização do novo catálogo pelo sistema Decimal de Melvil Dewey, já aceito e adotado pela Repartição Internacional Bibliographica de Bruxellas e pelas bibliotecas da Europa e da América do Norte.

No ano seguinte à criação da Academia Real Militar (1811), o curso se transfere para uma sala da Casa do Trem, nome pelo qual era conhecido o Arsenal, hoje Museu Histórico Nacional, da Praça Quinze, Centro do Rio. Em 1812 a Academia passa a funcionar no largo de São Francisco, edificação criada especialmente para abrigá-la e onde funciona atualmente o Instituto de Filosofia e Ciências Sócias – IFCS/UFRJ. Permanece nesse prédio até a década de 1960. “Na verdade os 200 anos, a comemoração dos 200 anos da Real Academia Militar é um estimulador pra analisar essa questão das bibliotecas. E depois da Casa do Trem, só em 1812, ou seja, levou-se um ano pra ser transferida pro prédio do Largo de São Francisco, e ai essa biblioteca foi pra lá e acabou dando origem a biblioteca da Academia Real Militar. Nos estatutos dessa academia real militar, se não me engano, fala de um guarda livros, do bibliotecário e isso é muito interessante pra profissão”. Fato curioso se dera em 1849 quando um deputado criticou a nomeação do general Francisco de Paula Vasconcellos dizendo que havia sido demitido um doente (se referindo ao diretor anterior) para “nomear um defunto”. Entretanto, o general Vasconcellos, apesar de velho e enfermo, tornou-se excelente diretor, demonstrando grande atividade e zelo, enriquecendo a biblioteca e providenciando tudo que fosse necessário a manutenção da mesma.

Documento interessante é o Regimento da Bibliotheca da Escola Polytechnica de 1877. Em seu artigo 1º informa que “a biblioteca da Escola Politécnica [nesse período a escala já havia mudado de nome mais uma vez] deve ser formada principalmente de obras relativas às disciplinas que ali se ensinarem e posto que destinada para uso dos lentes e dos alunos, podem ser franqueadas as pessoas decentes que o solicitarem. Está aberto todos os dias úteis das 9h da manhã às 3h da tarde, e logo que o Governo o julgar oportuno, sobre proposta do Diretor da Escola, abri-se-a também das 6h às 9h da noite”. O documento diz em seu art. 2º que “a biblioteca é confiada aos cuidados de um bibliotecário e um ajudante deste, nomeados, primeiro por decreto e o segundo por portaria. O lugar de bibliotecário poderá ser exercido por um empregado do magistério, que receberá os respectivos vencimentos”.

A importância do acervo

O acervo seque toda a transformação da instituição que vai desaguar na instituição da Universidade Federal do Rio de janeiro, ocorrido em 1965. Nesse percurso muito se perdeu em termos de documentação referente ao trajeto das coleções. Contudo, sua importância é inquestionável, tendo em vista o número de pesquisas que esta atende todo ano. Só em 2010 foram quase duzentos pesquisadores vindos dos mais diversos cantos do país e inclusive do exterior. Uma rápida olhada no caderno de visitas atesta a passagem por ali de pessoas vindas de universidades que vão do sul ao norte do Brasil, além da Europa e dos Estados Unidos. “A maioria dos pesquisadores não são de dentro da instituição. Em geral são pesquisadores da história das ciências, seja do Rio de Janeiro, de outros estados e até de outros países”, esclarece a bibliotecária chefe.

O acervo da BOR abrange coleções que vão do século dezessete ao século vinte, entre livros raros e antigos, periódicos, infólios, fotografias, mapas, manuscritos e outros tipos de materiais. O espaço é amplo, contudo, inadequado para a finalidade a que se presta. Apesar disso, o problema parece não está tão longe de ser resolvido, garante Maria Cristina. É que com a transferência da Biblioteca Central do CT (BCT) para novo espaço (previsto no Plano Diretor da UFRJ e que já deveria ter sido iniciado), a BOR deverá ocupar o espaço onde hoje está a BCT. “Nós recebemos a notícia da transferência com grande alegrai, pois, como é possível perceber, o espaço está no seu limite”, ressalta a bibliotecária.

As redes sociais

A importância conferida à BOR é tanta que professor Heloi chega a coloca-la no mesmo patamar de outras instituições com coleções de mesmo seguimento, como a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura. “A biblioteca de obras raras é, digamos, uma das mais importantes no Brasil”, exalta o professor. A BOR, a exemplo de muitas importantes bibliotecas neste país, ainda é pouco conhecida pelo grande público, contudo, o número de usuários só tem aumentado, sobretudo depois que a instituição aderiu às novas tecnologias. A biblioteca conta com um site, twitter, facebook e flickr, o que tem possibilitado a aproximação com seus usuários. Cristina ressalta que, com a adesão da BOR às redes sócias “a resposta do público tem sido bem favorável e a procura tem aumentado”.

A BOR é uma daquelas bibliotecas que vale a pena conhecer, nem que seja motivada por uma simples curiosidades. Os tesouros encerrados naquelas prateleiras não podem e não devem ficar longe do grade público, pois ali está a história do país. Umas já conhecidas e outras ainda por ser desvendada.

Cronologia:

1738: Criado no RJ um Curso de Artilharia;

1774: Fundada uma cadeira de Arquitetura Militar;

1810: D. João VI cria a Academia Real Militar. O fato se dá em consequência do estabelecimento da família real no Brasil ocorrido a partir de 1808;

1811: início do curso numa sala da Casa do Trem, nome pelo qual era conhecido o Arsenal, hoje Museu Histórico Nacional;

1812: a Academia passa a funcionar no largo de São Francisco, edificação criada especialmente para abrigá-la e onde funciona atualmente o IFCS/UFRJ;

1823: a Academia permitiu o estudo de em conjunto de civis e militares;

1832: acontece a fusão da Academia Real da Marinha (vinda de Lisboa) com a Academia Real Militar, formando, desta maneira, a Academia Imperial Militar;

1839: um decreto muda o nome da Academia Imperial Militar para Escola Militar da Corte;

1832 a 1858: houve vários comandantes na Escola, mas em 1849 um deputado criticou o Ministro pela nomeação do Gen. Francisco de Paula Vasconcellos dizendo que este “demitira um doente para nomear um defunto”. Entretanto o Gen. Vasconcellos apesar de velho e enfermo, foi um excelente diretor , demonstrando grande atividade e zelo pela instituição;

1858: a Escola Militar da Corte passa a se chamar Escola Central, ministrando um curso básico/fundamental, sendo a formação dos militares complementada na Escola Militar e de Aplicação. Manteve também o curso de Engenharia Civil, com mais dois anos, além dos quatros básicos; manifestado, através de decreto, por dois ministros da Guerra, o General Pedro d’Alcântara Belegarde e o Marquês de Caxias, a necessidade de separar o ensino militar do ensino de engenharia . A separação total só viria em 25 de abril de 1874;

1874: a Escola Central passa a se chamar Escola Polytéchnica. Era chefe do gabinete o Visconde do Rio Branco, professor desde o tempo da Academia Real Militar. Este também foi diretor da Escola Politécnica. Nesse período a Polytéchnica passou a ter cursos especiais, como Ciências Físicas e Naturais, Ciências Físicas e Matemáticas, Engenharias civil e de minas, além de artes e manufaturas;

1915: um decreto reúne a Escola Polytéchnica, a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Direito numa única instituição. Surge, então, a Universidade do Rio de Janeiro;

1937: a Lei nº 452 de 5 de julho organizou a Universidade do Brasil. A ela incorporou-se a Escola Politécnica agora com o nome de Escola Nacional de Engenharia;

1965 (Lei n° 4756 de 20 de agosto 1965): a instituição passa a ter o seu atual nome: Universidade Federal do Rio de Janeiro e a antiga Escola Nacional de Engenharia passa a se chamar Escola de Engenharia;

2003: a Escola de Engenharia volta a se chamar Escola Politénica.

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