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O entendimento muitas vezes que se faz dos hábitos e costumes de civilizações antigas é de distanciamento e indiferença por parte de sua abrangência. Mas algumas dessas peculiaridades desses povos refletem e estão presentes na nossa vida cotidiana, e estamos acostumados a achar que os homens sempre e em toda parte viveram como nós vivemos hoje, como Pedro Paulo Abreu Funari já tinha retrato em seu Roma: vida pública e vida privada, no qual temos a interpretação tendenciosa amparada na compreensão de humanidade na contemporaneidade. É alicerçado nesse engajamento do que se habituava antigamente a como isso tem a ver um pouco com hoje em dia que faremos a retrospectiva a Roma Antiga.

Apesar de alguns pesquisadores atentarem para o fato que o deslocamento histórico no parâmetro de épocas distintas ser um equívoco, constata-se um espelhamento sutil de diversos atributos da sociedade antiga com a sociedade atual, com ponderações e sem uma visão moralizante taxativa. Assim, podemos visualizar o cotidiano implicado no meio social em Roma Antiga no propósito em questão, principiando na noção das camadas sociais. Mas tinha classes sociais em Roma? A princípio, esta possibilidade seria descartada, pois não haveria distinção social por grupos já que essa noção está vinculada à formação da massa proletária que está relacionada à indústria, o que era impensável para a época. Ao invés de classes, haveria estamentos que denominavam grupos que seriam juridicamente separados, como os homens livres e os libertos, que poderiam acumular a mesma riqueza, porém seriam enquadrados em estatutos jurídicos distintos, com o ultimo não tendo o tratamento de cidadão romano e, consequentemente, tendo algumas privações, como no caso de concorrer a cargos públicos. O que nos faz observar que poderia haver uma ascensão social, pois também não se tinha o domínio absoluto das riquezas. O liberto poderia se tornar uma pessoa enriquecida e ter status de pessoa importante naquela região em que vive, mas não teria a refinação aristocrata e nem chegaria a ter um titulo de nobreza.

Escalas sociais

Com isso, poderia haver então uma divisão baseada em valores sociais pautados pelos níveis das fortunas dos indivíduos, que é o que se aplica na prática na Era Contemporânea. Isso quer dizer também que o tratamento perante o Estado será diferenciado, exemplificado bem no caso dos humildes (humiliores), a plebe das pessoas insignificantes sem capitais declarados, à menor contravenção, eram açoitados e, ao menor crime, eram sentenciados à morte. Isso se espelha um pouco com o elemento da massa miserabilizada atual que tem uma imagem estereotipada e ao menor deslize perante a sociedade e o Estado pode ter uma crucificação moral ou física sem muitas vezes ter um julgamento justo dos fatos ocorridos. Noutra escala desse plano social estão os decentes (honestiores), compreenderiam os burgueses de nossos tempos, no qual tinham que ter uma posse mínima de quantia – na base de 5.000 sestércios – valeria uma situação mais assegurada: em caso de atos mais graves; castigos mais leves e menos infamantes, como confiscação e proscrição. Essa característica poderia ser refletida na classe média atual, que na maioria das vezes chega a ter o mínimo para usufruir seus bens e quando tem alguma falta com Estado é referente ao atraso ou calote de tributos e afins que deveram ser corrigidos, senão poderá “sujar” seu nome perante a lei e assim não poderá gozar dos plenos direitos cívicos, como disputa por cargos públicos ou manutenção de conta bancária. E acima desses na escala seriam o Ordo, que compreenderiam a ordem senatorial e que poderiam a ter vários segmentos – com uma base que continha uma quantia acima de 400.000 sestércios – podendo desfrutar dos mais restritos privilégios.  Esta atribuição se assemelha à considerada classe alta da atualidade – a elite, no qual quando está em apuros diante o Estado, normalmente consegue dar um “jeitinho” de apadrinhamento ou aparato financeiro para a não execução correta por seu ato falho.

Isto ajuda a formar uma conjectura social favorável à articulação de artimanhas na política, pelo qual se entendia que a plebe constituía em elemento a ser cativado e não coagido, evidenciando a presença do clientelismo. No que denominaria “popular”, que seria o representante do povo comum, pois agradaria em ações e palavras a massa e o “ótimo”, membro das classes altas e elegíveis para o Senado e procuraria a aprovação dos bons cidadãos, englobava integrantes da classe alta de reconhecimento na sociedade. Esta efervescência social necessitava em curto prazo de medidas amenizadoras para manter em equilíbrio o poder dominador e as determinadas camadas sociais com a implementação da política do “pão e circo”, que se baseava em medidas imediatistas em proporcionar a maior parcela dos miseráveis da população alimentação e diversão, como as lutas de gladiadores no Coliseu. Servia para abrandar momentaneamente a inquietude da massa com relação à fome e a negligência do Estado em acolhê-los para ter condições mínimas de sobrevivência. Esta ação política caracterizaria hoje o “populismo”, no qual é fundamentado na relação particular entre o Estado e as classes sociais na incorporação das massas populares ao processo político, adotando uma atitude agregadora por parte do Estado e podendo ser alinhada ao clientelismo. Do mesmo modo, a propaganda eleitoral tinha mecanismos aprimorados no alcance do apoio popular tanto no tratamento de generosidade com a plebe como um instrumento de divulgação de campanha. Veja o exemplo a seguir:

P(ublium) (P)aquium Proculum duumvirum j(ure) d(icundo) d(ignum) r(ei) p(ublicae) (oro vos faciatis) (CIL IV 1122)

Tradução aproximada: Voto para Publius magistrado Próculo Paquius responsável pela justiça, pois ele é digno de gerir os negócios públicos

Isto demonstra a presença de cartazes pintados nas paredes referentes a candidaturas políticas, mas também podia se referir a manifestações populares sobre qualquer assunto através do grafite e/ou pichação para divulgar alguma ideia, o que sobrepuja a observar que esses integrantes das camadas populares tinham algum grau de instrução para poderem se expressar em palavras escritas. O grafite nos dias contemporâneos é tratado como manifestação cultural ligada ao gueto e as ruas ou simplesmente como poluição visual urbana.

A questão do trabalho

A questão de trabalho também implica nesse entendimento das classes sociais, pelo qual o trabalho braçal tinha uma imagem degradante por parte da elite que enaltecia o ócio, porém os próprios trabalhadores braçais se orgulhavam daquilo e se sentiam dignificados. Tanto é que chegavam a fazer representações de seus ofícios em “sarcófagos” com a ideia de preservar a memória e a representação do falecido na sua vida. Além de não ser muito bem visto pelas classes privilegiadas nos dias de hoje, o trabalho braçal da mesma forma não tem seu devido reconhecimento econômico, tendo na maioria das vezes baixa renumeração. Pois tal como o trabalho, a moradia era um reflexo das diferenças e privações impostas às diversas camadas sociais, pois ao povo era designado apartamentos minúsculos em grandes edifícios – até 6 metros de altura – presentes nas grandes cidades, com risco de desabamentos a incêndios. Essa questão se clareia bem com os cortiços existentes na atualidade que consistem em pequenos quartos com um banheiro coletivo para todos residentes daquela moradia e os riscos vão exatamente a desabamentos, pela má conservação do imóvel, e aos incêndios, pela instalação precária da rede elétrica ou por motivos adversos, cujos habitantes desses imóveis são justamente indivíduos das camadas mais carentes, pois sem condições e recursos de morar em lugar mais agradável devido à especulação imobiliária, ficam fadados a morarem nesse tipo de lugar. Aos ricos restavam as grandes e sofisticadas moradias, ostentando luxo e um cômodo que era restrito a muito poucos: banheiro. Já para a maioria da população, restava usar os banheiros públicos que seriam as latrinas públicas de uso coletivo com jarros individuas para cada pessoa.

Portanto, verifica-se que problemas sociais concernidos à estruturação e ao planejamento de uma cidade que afligem as mais diversas camadas de uma sociedade daquele respectivo recinto podem se efetivar em condições adversas, com variação de tempo histórico, época, lugar e cultura. A questão não é comparar os problemas, procurando ver quais são maiores e piores de cada um, até por que isso é uma visão descontextualizada dos componentes, mas de constatar que tal problemática não é exclusividade de um determinado grupo de pessoas de sua época e que todos estão sujeitos a tais angústias, pois isso está inserido na questão de humanidade que ao menor ato de desenvolvimento desigual e heterogêneo facilita a criação de mecanismo de distinção socioeconômica que propícia a conflitos e até mesmo ao caos.  E essa angústia e aflição que nos acomete no dia-a-dia são retratadas um pouco na letra Marcos Lobato em Rodo Cotidiano: “amarrotada social; no calor alumínio; nem caneta nem papel; e uma ideia fugia; era o Rodo Cotidiano….”

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