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2016 certamente será um ano que ficará marcado na história do País. Uma crise econômica, aprofundada por uma severa crise política, culminou no impeachment da então presidenta Dilma Rousself e ascensão ao posto do seu vice, Michel Temer. Em todo este processo, como já é comum na vida política brasileira, a mídia teve papel fundamental de articulador.

Além disso, a mídia hegemônica continuou a ignorar ou mesmo desqualificar os movimentos de resistência aos ataques à classe trabalhadora perpetrado pelo novo mandatário da República. As ocupações das escolas e das universidades, bem como as greves em diversos órgãos públicos, tiveram como inimigos estes veículos que insistiram em mostrar apenas um lado dos fatos.

Abaixo um breve resumo dos eventos que marcaram a cultura informacional no ano de 2016.

1) Crise da cultura nacional

Com a decisão favorável do Senado Federal em afastar por cento e oitenta dias a então presidenta Dilma Rousseff, em setembro, o também então presidente interino Michel Temer realizou uma série de mudanças no Governo com o objetivo “de enxugar a máquina pública”. Neste processo o Ministério da Cultura (MinC) foi incorporado pelo Ministério da Educação (MEC), tendo como ministro Mendonça Filho, do Partido Democratas (DEM), agremiação partidária historicamente aversa às questões culturais.

Esta crise na Cultura nacional provocou uma série de incertezas nas áreas do livro, leitura e bibliotecas. Após tornar-se Departamento, a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (DLLLB), por exemplo, ficou sem diretor até que recentemente o bibliotecário da Câmara dos Deputados, Cristian Santos, assumiu a direção.  No Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), por sua vez, a coordenação passou de Veridiana Negri para Virgínia Bravo Esteves. Já na Fundação Biblioteca Nacional (FBN), a produtora cultural Helena Severo assumiu no lugar de Renato Lessa que ocupava o cargo desde março de 2013.

Mais recentemente o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, pediu demissão do cargo acusando o também ministro Geddel Viera Lima de pressioná-lo a liberar uma obra que beneficiaria este último. Geddel acabou pedindo demissão. Na Cultura assumiu o presidente nacional do PPS, Roberto Freire.

Biblioteca Parque do Estado. Foto do Facebook

2) Crise na cultura do Rio

A profunda crise econômica e política no estado do Rio atingiu também a cultura. Para tentar contornar a situação, governo de Luiz Fernando Pezão lançou mão de uma série de medidas – chamadas pelos movimentos populares de pacote de maldades –, dentre as quais a de incorporação à Secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação, da pasta de Cultura do estado do Rio (SEC). Responsável, entre outros pelas bibliotecas parque, a SEC passou a ocupar um lugar subalterno na estrutura administrativa do estado.

Sobre as bibliotecas parque em particular, estas passam por um processo de declínio, conforme mostrado na última edição da Revista Biblioo, como consequência do desmantelamento da cultura do estado. Hoje os funcionários das unidades estão em aviso prévio e o funcionamento dos espaços está incerto para o ano que vem.

Em audiência pública realizada recentemente para tratar do assunto, ficou estabelecido que os deputados presentes (Carlos Minc, PT, WaldecK Carneiro, PT, Eliomar Coelho, PSOL, Luiz Paulo, PSDB, e Zaqueu Teixeira, PDT) encaminhariam à Assembleia Legislativa do estado (ALERJ) um projeto de decreto legislativo com vistas a derrubar o decreto do executivo que pôs fim a Secretaria de Cultura do Estado (SEC).

Além disso, os parlamentares se comprometeram ainda a encaminhar ao governador Pezão uma moção em que deixam clara a posição assumida com a sociedade em lutar pela manutenção da SEC.

3) Eventos da área

Como já é tradição, uma série de eventos movimentou a área em 2016. Em Manaus, no Amazonas, o Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias (SNBU) discutiu a sustentabilidade institucional e em Criciúma, Santa Catarina, foi discutida a interdisciplinaridade na Ciência da Informação e o papel social do profissional. “Os desafios da multi, inter e transdisciplinaridade” foi o tema do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (ENANCIB), Salvador, Bahia.

No ano das Olimpíadas e Paralimpídas no Brasil, a acessibilidade em bibliotecas públicas foi tema de um seminário na cidade de São Paulo. No Rio, a Revista Biblioo promoveu a segunda edição do Seminário Diálogos Biblioo com o tema dos direitos autorais, tendo como resultado a publicação de um caderno especial sobre o mesmo tema, bem como uma série de vídeos das palestras proferidas.

Para ampliar ainda mais o debate e as ações acerca da temática do empreendedorismo, a cidade de São Paulo recebeu a primeira edição do Fórum de Inovação e Empreendedorismo na Biblioteconomia (FIEB). Trata-se de um evento organizado e idealizado por bibliotecários de diferentes regiões do Brasil. Dentre os objetivos do FIEB estão o intuito de identificar experiências inovadoras, empreendedoras, discutir temas e práticas profissionais relacionadas à Biblioteconomia. Esta primeira edição foi realizada no dia 27 de agosto, de 9h às 19h na Biblioteca Pública de São Paulo, com o tema, “Ações inovadoras nos múltiplos campos de atuação profissional”. O evento contou um número de 110 participantes, a programação do evento abarcou grandes nomes da área, com debates e compartilhamento de diversas experiências e iniciativas profissionais. Na ocasião também foi feito o lançamento do livro “Empreendedorismo na Biblioteconomia” editado pela Agência Biblioo.

Fieb lotou o auditório da Biblioteca São Paulo. Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo

4) Cobertura da mídia sobre a crise política

No que se refere à mídia hegemônica, nada de novo em 2016: ela continuou a ignorar e/ou desqualificar os movimentos de resistência aos ataques dos governos contra os cidadãos. Tanto na cobertura sobre as ocupações, primeiro das escolas e depois das universidades, os veículos de comunicação da grande mídia insistiram em continuar mostrando apenas um lado da história, influenciando a leitura acerca destes acontecimentos.

Na cobertura política sobre a crise que culminou no impeachment da então presidenta Dilma Rousself, estes veículos deixam bem claro sua tendência a apoiar a destituição da mandatária.

5) Cristian Santos na DLLLB

O bibliotecário da Câmara dos Deputados, Cristian Santos, tornou-se diretor do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura. A nomeação do bibliotecário foi publicada no Diário Oficial da União no dia 18 de novembro e sua posse ocorreu na semana seguinte.

Cristian Santos novo diretor do DLLLB. Foto: Facebook

Santos tornou-se o primeiro bibliotecário a ocupar a pasta desde a sua criação. Em entrevista a Revista Biblioo, ele disse que no DLLLB é necessário fortalecer o que já foi implementado e estabelecer novas frentes de atuação. “Nesse contexto de desafio (recursos escassos e projetos audaciosos), o trabalho em rede, envolvendo instituições públicas e privadas, é uma das melhores estratégias destinadas a aumentar a capilaridade das ações em prol dos brasileiros”, planeja.

Cristian Santos é doutor em Literatura e Práticas Sociais, mestre em Ciência da Informação e graduado em Biblioteconomia, Letras (Língua e Literatura Francesas), Filosofia e Tradução. Foi agraciado com o Prêmio Casa de las Américas em 2016.

6) Morte de escritores

No decorrer do ano de 2016 grandes nomes da literatura, como Umberto Eco e Ferreira Gullar, se despediram da vida, mas deixaram seu legado e obra para a eternidade. Além desses escritores, o Brasil também perdeu uma grande símbolo da luta em favor dos Direitos Humanos: Dom Paulo Evaristo Arns.

No dia 19 de fevereiro de 2016 o escritor Umberto Eco faleceu. Aos 84 anos Eco lutava contra um Câncer e deixou um legado com importantes obras, entre as mais conhecidas estão: “O nome da rosa”, “O pêndulo de Foucault” e “Cemitério de Praga”. Seu último livro em vida foi publicado em 2015 e levou o título de “Número zero”, um romance que conta a história de um grupo de redatores que preparavam ao acaso um jornal chamado o “Amanhã” e que tinham como objetivo manipular e prestar serviços duvidosos ao editor.

O poeta Ferreira Gullar morreu no dia 04 de dezembro, aos 86 anos, vítima de complicações pulmonares. O escritor estava internado há mais de vinte dias e não resistiu a uma pneumonia. O velório de Gullar foi realizado nos saguão da Biblioteca Nacional do Rio e em seguida o corpo foi levado em cortejo até a para a sede da Academia Brasileira de Letras, no centro da cidade.

Gullar participou dos acontecimentos mais importantes da literatura e poesia brasileira. Conhecido como o poeta do espanto, dentre as obras mais conhecidas de Ferreira Gullar estão: “Poema Sujo”, “Um pouco acima do chão”, “A luta corporal”, entre outros.

Dom Paulo Evaristo Arns faleceu no dia 14 de dezembro aos 95 anos em São Paulo. Arns estava internado em decorrência de uma broncopneumonia. Dom Paulo foi um dos grandes militantes e lutou em favor dos direitos humanos e contra a ditadura civil-militar no Brasil.

Além de organizar uma missa em memória do jornalista Wladimir Herzog, morto nos porões da ditadura de 64, Dom Paulo também escreveu o livro: “Brasil nunca mais”, em que apresenta um relato fiel do que foi a tortura e o período ditatorial brasileiro.

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